Pablo Casado decidiu esta segunda-feira afastar a porta-voz do Partido Popular (PP) no Congresso dos Deputados, Cayetana Álvarez de Toledo, dando um passo que para alguns membros do partido de centro-direita espanhol já deveria ter acontecido há mais tempo. A reunião marcada com a deputada nem tinha como objetivo a destituição, mas, conta o El Español. quando Álvarez de Toledo se declarou “incompatível” com a forma de agir do partido, a saída tornou-se inevitável. A deputada considera que a sua destituição foi “um erro” e que “é prejudicial para o PP”, deixando no ar o que vai fazer no futuro.

Dentro do próprio partido, havia quem questionasse o papel de Cayetana Álvarez de Toledo. De acordo com os jornais espanhóis, a decisão do afastamento da deputada foi aplaudida de forma discreta por membros da ala mais moderada e era algo que já vinha a ser defendido. Foi também esta ala que tentou impedir a nomeação da deputada como porta-voz, em novembro do ano passado. Nos últimos tempos, com o surgir da crise provocada pela pandemia de Covid-19, as críticas à sua maneira de fazer oposição aumentaram e a situação terá começado a ficar “insustentável”.

A direção do PP, citada pelo El País, argumenta que Cayetana Álvarez de Toledo “transformou-se numa porta-voz de si mesma”, uma vez que não estaria a respeitar a sintonia que deve existir entre a liderança do partido e quem está encarregado de transmitir uma mensagem oficial no Congresso. As críticas que a deputada fez à saída de Espanha do rei emérito Juan Carlos I são utilizadas como exemplo dessa falta de sintonia. Mas Cayetana Álvarez de Toledo discorda desta visão. “Fazer parte de um partido onde não te podes expressar com liberdade é uma forma de escravidão. A discordância não é deslealdade”, referiu. E os dirigentes partidários respondem, argumentando que o debate interno e ser porta-voz do partido no Congresso são duas coisas distintas.

Cayetana Álvarez de Toledo — que em maio protagonizou com o líder do Unidas Podemos (extrema-esquerda) e vice-presidente do governo espanhol, Pablo Iglesias, um dos debates mais quentes dos últimos tempos no Congresso dos Deputados, onde surgiram surgiram expressões como “marquesa” e “filho de terrorista” — estaria a tornar-se num problema para o partido.

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A crise agravada pela pandemia de Covid-19 e o resultado das eleições galegas terão ajudado à decisão. Mais: na conversa em que comunicou a sua decisão à deputada, Pablo Casado, acrescenta o El País, terá também dado três exemplos que refletem a sua “rebeldia”. Primeiro, as críticas feitas à decisão do rei emérito Juan Carlos I em abandonar Espanha, dizendo que este “não deveria ter ido embora” e que “deveria submeter-se ao escrutínio da própria Casa Real e dar uma explicação aos espanhóis”. Na conversa que o El Español detalha entre Casado e Cayetana, o líder do PP terá respondido: “Não podes criticar a Monarquia com tudo o que está a cair”.

O segundo exemplo de Casado é o da insistência da deputada na necessidade de um governo com o PSOE para expulsar o Podemos. “Não podes continuar a pedir que eu seja o vice-presidente do Sanchez”, terá dito Casado. E, em terceiro lugar, pesou o facto de estar em desacordo com as mudanças feitas no grupo parlamentar do PP.

“O papel dela era proteger o presidente e não criar-lhe mais problemas” resumem fontes do partido ao jornal espanhol, argumentando que muitas vezes Pablo Casado foi obrigado a responder a questões sobre declarações proferidas pela porta-voz e a defendê-la de várias críticas.

Depois da destituição como porta-voz do PP no Congresso, Cayetana Álvarez de Toledo deixou no ar o seu futuro na vida política. Para já, sabe-se que vai continuar como deputada. E atira críticas à decisão de Casado, considerando ser “um erro”, “prejudicial para o PP” e para a causa do partido e que as razões apresentadas para a sua demissão não são válidas, uma vez que diz ter sido “condenada por manter a independência e o pensamento crítico”. Cuca Gamarra é a nova porta-voz do PP no Congresso.