Nome: Uma Ida ao Motel E Outras Histórias
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editor: Quetzal
Páginas: 192

A capa de “Uma Ida ao Motel”, de Bruno Vieira Amaral (Quetzal)

Uma Ida ao Motel reúne em livro o conjunto de histórias que semanalmente Bruno Vieira Amaral escreveu para o Expresso Diário. Nesta coletânea, encontramos as histórias de personagens que se vão revelando ao detalhe em pouco mais de três páginas.

A maior virtude do autor de As Primeiras Coisas parece ser, então, a de captar pessoas e momentos que, tal e qual como Rosário, a protagonista de “Noite de Estreia”, não conseguem escapar à ‘mediocridade da existência’. Ainda que as histórias aqui reunidas tenham sempre (ou quase sempre) uma estrutura semelhante, na qual um evento marcante, uma revelação estrondosa, ou simplesmente uma nova perspetiva que redefine toda a história são guardados para o último terço da narrativa, o maior talento de Bruno Vieira Amaral não é o de criar histórias que nos deixem em suspenso, como acontece em thrillers, por exemplo, mas antes o de captar a vida como ela é. Bruno Vieira Amaral olha com minúcia e curiosidade para tudo o que o rodeia e traz de lá, não histórias arquitetonicamente perfeitas, mas antes “uma camisola de alças que tinha buracos nas costas”, ou as meditações vazias “que, como nenhum outro lugar, um quarto de hotel com o televisor ligado mas sem som consegue estimular”. Desse prisma, aliás, alguns dos contos aqui reunidos, como “Donzela”, por exemplo, são uma avalanche de subtileza, passe o paradoxo.

Nesse sentido, é por vezes estranho encontrar desfechos tão radicais em histórias que não aparentam precisar deles para nada, histórias que se aguentariam nos seus próprios pés, imersas na beleza da banalidade, sem necessitarem de bengalas narrativas que, em alguns casos, acabam por destoar de tudo o resto. É, ainda assim, importante reconhecer que estes desfechos, em contos escritos com tanta mestria e atenção ao detalhe, têm a óbvia virtude de desconcertar e abalar o leitor, exatamente como acontece em filmes de terror quando o close-up a um baloiço esquecido na noite lá fora nos distrai do monstro escondido por detrás do arbusto. Aliás, mais do que nos fazer esquecer da possibilidade desse monstro surgir, a placidez do baloiço parece apenas confirmar-nos a abrupta e inevitável entrada da criatura que irá decepar cabeças, sujar carpetes e recordar-nos de quão provisória é sempre a acalmia, aumentando assim o nosso terror ainda antes de acontecer o que quer que seja.

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A mestria na articulação entre o detalhe e a violência parece, ainda assim, ser evidente, mais do que na estrutura destas trinta histórias, na forma como Bruno Vieira Amaral consegue manter a sobriedade ao descrever momentos de descontrolo emocional das personagens (“‘Por amor de santa cona!’ soltou um palavrão tremendo e inédito para horror da mulher”) ou episódios em que esta atenção ao detalhe e a minúcia do escritor se articulam com lugares ou personagens que exigem um vocabulário menos elevado, sem que as costuras fiquem minimamente à mostra (“Naquele momento, nos momentos anteriores e posteriores, casais tinham usado aqueles quartos com o mesmo fim vicioso, e essa ideia era excitante porque provocava um efeito de espelho mental: éramos convidados a imaginar dezenas de corpos em toda a sorte de comércios carnais (…) uma fábrica da foda em laboração contínua, o fordismo foda, o capitalismo hedonista. Que loucura! Por outro lado, perdia-se um pouco a excitação da coisa rara e proibida. Andava tudo ao mesmo”)

Há histórias, contudo, em que a arquitetura narrativa é perfeita, mas, nesses casos, a revelação é bastante mais previsível e por isso mesmo menos brusca (embora a situação não seja de todo menos violenta) como é o caso de “Lágrimas por Paulinho”. Ou tratam-se então de casos em que a peripécia é inteiramente suprimida, como acontece no mais extraordinário destes contos, “Wilson, Almada, Angola”, onde o final não traz consigo nenhuma revelação, mas apenas uma luzinha que, em certo sentido, conforta ao mesmo tempo que aumenta o desamparo.

Contudo, como aliás seria de esperar num livro composto de histórias saídas com tanta regularidade e frequência, as histórias não têm todas a mesma qualidade. Se histórias como “O Dia Em Que Me Tornei Homem”, (uma mistura do início das “Confissões” de Santo Agostinho com a personagem mais extraordinária de “Breaking Bad”, Jesse Pinkman); “A Fotografia” (claramente reminiscente de um dos contos mais famosos de James Joyce, “The Dead”) ou “Homens Bonitos” são absolutamente inatacáveis sob qualquer leitura, o mesmo não poderia ser dito de contos como “Cinquenta Almoços”, “Pacto de Amor” ou “Um Dia de Praia”. Ainda assim, à medida que nos aproximamos do fim do livro, é notório como as histórias se vão tornando substancialmente mais consistentemente boas, tornando-se ainda mais evidente o talento de Bruno Vieira Amaral.

joaopvala@gmail.com