Se a conversa tivesse sido presencial — foi por telefone — Another Angelo estaria muito provavelmente de rosto tapado. Não só pela pandemia que nos forçou a todos a usar máscaras, mas porque o conhecido ilustrador, que soma quase 45 mil seguidores no Instagram, é muito zeloso da privacidade. À medida que as suas ilustrações foram crescendo em popularidade, o artista escolheu sempre manter-se anónimo: “Não preciso de ser eu a expor-me, preciso é que o meu trabalho seja exposto”, diz, fazendo lembrar os desenhos que cria, que resultam essencialmente de trocadilhos.

© anotherangelo/Instagram

Talvez o rosto de Ângelo Raimundo, de 35 anos, seja finalmente revelado após o lançamento do livro “O amor só existe para quem souber existir – e outras frases para nos fazer (voltar a) sentir”, edição Planeta, que reúne 167 ilustrações com um grafismo próprio e uma visão irónica da vida e chega às bancas no próximo dia 25. As frases ilustradas de Another Angelo — nome artístico que surgiu quando este decidiu dividir os seus trabalhos e acolher as ilustrações numa só conta de Instagram — são também convites a refletir um pouco sobre a vida que levamos.

“Escolho temas com base no que sinto que as pessoas podem refletir”, comenta, referindo-se a tópicos atuais, tais como o amor e a ansiedade. “Tento criar algo que sirva de motivação às pessoas, para entenderem que somos todos um pouco iguais”, continua.

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Ângelo, que dividiu a adolescência entre o Algarve e Genebra, na Suíça, e vive há alguns anos em Lisboa, diz que as ilustrações resultam de histórias da vida pessoal, mas também das que vai ouvindo serem contadas. “Já criei muitas ilustrações com base no que ouvi aqui ou ali, não é tudo criado de raiz em prol da minha vida.” Mas tudo nasce, isso sim, no papel e só depois ganha vida no digital. “Eu sou da velha escola, gosto de fazer um rascunho em papel. Todos os meus trabalhos passam pelo papel e pelo lápis. Nem uso borracha, mesmo que haja enganos. As pessoas dizem que estou sempre a riscar. Até gosto de ver assim, riscado.”

Não partilha obrigatoriamente tudo o que cria, vai antes partilhando. “Há pessoas que pensam que a regularidade é partilhar todos os dias ou a toda a hora. Tenho uma opinião diferente, acho que as pessoas devem publicar quando se sentem confortáveis. Fui fazendo as coisas dessa forma”, conta de maneira a explicar que o sucesso da página de Instagram foi orgânico e natural.

© DR

O convite para o livro surgiu muito antes da pandemia. O período do confinamento não foi sentido com leveza, mas Ângelo reconhece que conseguiu algo bom numa “altura tão má”, uma vez que criou as ilustrações já o mundo lidava com a Covid-19. “Foi um livro que exigiu muito esforço da minha parte e tive mesmo de desligar de tudo o que existia à minha volta para poder criar as ilustrações. As pessoas vão comprar um livro com 167 páginas e houve muito mais do que 167 ilustrações a serem feitas. Foi com muito suor, muita lágrima…” Algumas ilustrações, diz, já tinham sido divulgadas no Instagram, mas também essas foram recriadas. “Tudo o que existe no livro é novo. Houve umas 15 ou 20 ilustrações que recriei, as restantes são completamente novas.”

Ângelo Raimundo ou Another Angelo, que até já se tatuou a si próprio com uma das suas frases, “Se estiveres bem mantém”, vai dar autógrafos na Feira do Livro de Lisboa, no final deste mês. E aí sim, é uma boa altura para revelar a identidade. “Não vou conseguir fugir muito mais.”