Duas equipas com tradição europeias, dois conjuntos que apostam na formação (mesmo que a partir daí o caminho seja genericamente diferente), dois clubes com longa ligação eternizada pela amizade dos também eternos Alfredo Di Stéfano e Eusébio. Benfica e Real Madrid são presenças habituais entre as quatro melhores formações na Youth League mas não tinham ainda qualquer triunfo na competição, o que dava outro peso à final de 2020. Depois de Barcelona, Chelsea, Salzburgo e FC Porto, vencedor na última temporada, a maior prova europeia de juniores ia conhecer um novo campeão. No caso dos encarnados, tentando que à terceira fosse mesmo de vez.

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Depois da derrota por 3-0 frente ao Barcelona da geração de Gonçalo Guedes, Nuno Santos, Hildeberto, Pedro Rebocho, Rochinha ou Romário Baldé e do desaire por 2-1 com o Salzburgo numa equipa onde brilhavam João Félix, Rúben Dias, Gedson Fernandes, Florentino Luís, Jota ou Diogo Gonçalves, os encarnados queriam ser a quinta equipa a vencer a competição, o que faria também com que Portugal passasse a ser o único país com mais do que uma equipa a conquistar a Youth League. E partiam com vantagem nos confrontos com os espanhóis, após os triunfos nas meias de 2014 (4-0) e de 2017 (4-2) contra uma derrota nos quartos de 2016 (2-0). Como dizia o As esta terça-feira, o Seixal pode ser uma “Academia de Ouro” que deu mais do que 400 milhões de euros em vendas desde 2007 tendo João Félix como expoente máximo mas continuava sem o grande título na formação.

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“O Real Madrid tem uma formação muito madura, veio com vários jogadores da equipa B, mas o nosso o objetivo principal é ganhar. Todos os jogos foram decisivos. Os oitavos, os quartos e as meias foram só um jogo e a mensagem mantém-se: ‘É só um jogo, temos de vencer’. Acredito que se ganha em equipa e a equipa não são apenas 11 ou 23 jogadores, são as pessoas que cuidam de nós. O futebol é um jogo coletivo. Por isso, todos – os que estão aqui e os que ficaram em Portugal – são importantes. A vitória será de todos se assim acontecer”, lançou na antevisão da partida Luís Castro, recordando os triunfos com Dínamo Zagreb (3-1) e Ajax (3-0).

Do outro lado, um Real Madrid que não iria contar com o goleador Latasa por castigo (do lado dos encarnados, o médio Paulo Bernardo era a grande ausência – e também ele foi dos melhores nos encontros a eliminar), que tinha como grandes figuras o médio Blanco e o lateral Miguel Gutiérrez, que montou uma equipa sobretudo assente nas capacidades da rede de olheiros nacional que trouxe para a capital promessas como Pablo Ramón ou Sintes e que tinha um dos nomes mais emblemáticos da história dos merengues no comando, Raúl González. Em 16 anos nos seniores, entre 1994 e 2010 (passaria ainda por Schalke 04, Al Sadd e New York Cosmos no final da carreira), o antigo avançado e capitão ganhou três Champions, seis Ligas, duas Taças Intercontinentais, uma Supertaça Europeia e quatro Supertaças de Espanha ao longo de quase 750 encontros oficiais. E foi por isso que aquele que já é apontado por alguns como um provável sucessor de Zinedine Zidane a médio prazo chamou a atenção ao hino do clube para motivar os jogadores: “A história que tu fizeste, a história que há para fazer”.

“O Benfica é uma equipa que gosta de jogar futebol e de ter a bola. Tem vários jogadores talentosos e é, provavelmente, o adversário mais complicado entre todos os que estiveram nesta Youth League. Isso é uma motivação extra para nós. Temos de fazer um grande jogo se quisermos ganhar. Vão estar na final as duas melhores equipas ao longo da competição”, comentou o treinador na antecâmara da final, recordando também os triunfos do Real Madrid nesta fase a eliminar contra clubes como Juventus (3-1), Inter (3-0) e Salzburgo (2-1).

Se tem perfil, liderança e conhecimento para um dia chegar à técnico principal do Real Madrid, só o futuro poderá dizer. No entanto, e para já, Raúl González sabe bem o que faz e foi a forma como montou a equipa para o jogo com o Benfica que imperou nos 45 minutos iniciais: linhas juntas, definição adulta dos momentos, capacidade para sair em transições ofensivas rápidas, boa organização entre zonas de pressão mais altas e blocos defensivos mais baixos. Os encarnados tentaram através de iniciativas individuais, tiveram bola algumas vezes no último terço mas encontraram sempre uma muralha pela frente na altura do remate, não criando qualquer oportunidade flagrante; já os merengues, além de marcarem, foram somando várias iniciativas de perigo no último terço.

Nos golos, aí, houve também muito demérito do Benfica: primeiro, Pablo Rodríguez, que se lesionou no lance do 1-0, estava sozinho na área num cruzamento da direita de Arribas sem oposição na sequência de um lançamento lateral rápido que apanhou de surpresa a defesa encarnada (26′); Henrique Jocu fez um passe errado na zona de construção, o Real Madrid saiu rápido pela direita explorando a profundidade nas costas de Morato e o cruzamento de Arribas foi desviado para a própria baliza pelo mesmo Jocu, que tentava corrigir o lapso inicial (45′). Todavia, a segunda parte seria diametralmente oposta, neste caso pela forma como as águias abordaram o encontro.

Abdicando do lateral Filipe Cruz e do médio Henrique Jocu (João Ferreira passou para a direita, Tiago Araújo baixou para lateral), as entradas de Ronaldo Camará e Rafael Brito deram outro critério no corredor central, a recuperar e a construir. Em paralelo, e em termos estratégicos, o Benfica apresentou-se de outra forma, não tendo receio nos momentos em que o jogo partiu percebendo que era assim que poderia ter outros resultados do meio-campo para a frente. E nem mesmo o terceiro golo dos merengues foi capaz de arrumar com o encontro.

Gonçalo Ramos, na sequência de um jogada de envolvimento com assistência de Úmaro Embaló da direita, reduziu com o 2-1 à terceira tentativa, depois de duas grandes defesas de Luis López a remates de Ramos e Henrique Araújo (49′). Logo no minuto seguinte, Miguel Gutiérrez, o lateral esquerdo goleador dos espanhóis, foi à área desviar ao segundo poste uma grande jogada de Park pela direita com cruzamento a atravessar toda a defesa encarnada. E ainda no quarto de hora inicial do segundo tempo, o mesmo Gonçalo Ramos voltou a reduzir para 3-2 após um canto marcado na direita por Tiago Araújo com desvio ao primeiro poste de cabeça (57′).

A intensidade com que se tinha jogado a hora inicial fez depois estragos, com Úmaro Embaló a pedir substituição com um problema muscular na coxa enquanto os jogadores do Real Madrid iam caindo no chão acusando a fadiga dos vários jogos seguidos feitos em Nyon (Park ou Miguel Gutiérrez). Com isso, o Benfica acabou por ganhar margem para chegar ao empate face à incapacidade dos espanhóis em saírem rápido como tinham feito até aí mas Tiago Dantas não aproveitou uma oportunidade de ouro ao permitir a defesa a López num penálti por falta sobre Henrique Araújo (67′) e os minutos passaram entre paragens sem que o resultado voltasse a mexer, apesar de mais uma grande defesa de Luis López e uma bola na trave de Henrique Araújo que impediu o empate (90+4′).