Isabel Frade ganhou em junho as eleições municipais em Méry-sur-Marne, uma pequena aldeia na região parisiense, depois de meses de calúnias e discriminação devido às suas origens portuguesas, encontrando uma autarquia ao abandono que está a tentar recuperar.

“Este ano tive de anular as minhas férias em Portugal porque passo os dias inteiros, desde as cinco da manhã às 11 da noite aqui na câmara, para pôr ordem nas coisas”, contou Isabel Frade, em declarações à agência Lusa.

Há cinco anos, Isabel Frade mudou-se para Méry-sur-Marne, uma aldeia de 704 habitantes num quadro idílico junto à capital, e sentiu que tinha “legitimidade” para se candidatar à autarquia.

No entanto, não imaginava que a sua candidatura despertasse ofensas e ameaças por parte da oposição, nomeadamente devido às suas origens.

“Foi muito complicado. Para começar, porque sou de origem portuguesa, as pessoas que se apresentaram contra mim, que pertenciam ao antigo executivo, fizeram-me a vida negra”, lembrou a autarca.

A disputa eleitoral nesta pequena localidade francesa deu origem a sete queixas por parte de Isabel Frade por ameaças e discriminação – que ainda estão a ser investigadas -, mas não a desviaram do seu objetivo.

Em França desde os 06 meses, Isabel Frade que fez estudos de Direito e trabalha no ramo do imobiliário, foi durante 12 anos eleita municipal em La Ferté-sous-Jouarre. Sem apoio partidário, Isabel Frade lançou a sua candidatura a Méry em novembro do ano passado e foi aí que começaram os problemas.

“Diziam-me para voltar para o meu país. É importante saber-se que antes de me candidatar aqui, era vice-presidente da câmara em La Ferté-sous-Jouarre, uma vila de 10 mil pessoas aqui ao pé, e nunca tive problemas nenhuns”, declarou.

Apesar das dificuldades, Isabel Frade elegeu na totalidade os 15 membros da sua lista, ficando sem oposição, mas ao assumir o cargo verificou que os problemas não tinham acabado.

“Agora que estou na câmara há mês e meio decidi fazer uma auditoria e as conclusões são que a câmara estava basicamente ao abandono há muitos anos, tanto a nível financeiro como administrativo”, indicou.

Com um executivo com mulheres ao seu lado, algumas delas também com origens portuguesas, Isabel Frade já começou as mudanças, sendo que a primeira foi mudar os escritórios da autarquia para um espaço com 150 metros quadrados, onde há vários gabinetes e confidencialidade para quem quiser recorrer aos eleitos.

E a portuguesa não se fica por aqui.

“Queremos também passar a ter uma cantina e uma sala polivalente para os habitantes, mas a minha prioridade maior é promover mais a ligação humana. Há pessoas que vivem aqui há 40 anos e não se conhecem. Nem conheciam os seus representantes, porque eles nem se mostravam. A prioridade é que as pessoas convivam e que esta aldeia tenha vida”, concluiu.