O Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças estima que, na melhor das hipóteses, a vacina para a covid-19 chegará no início de 2021, mas frisa que a Europa “está muito mais bem preparada” do que há seis meses.

“É muito difícil prever, mas provavelmente só teremos [uma vacina] no início do próximo ano, na melhor das hipóteses e assumindo que os ensaios clínicos têm resultados positivos em termos de eficácia e de segurança”, declara em entrevista à agência Lusa o chefe-adjunto do programa de doenças do Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), Piotr Kramarz.

Notando que existe, nomeadamente na Europa, “um grande número de vacinas em preparação em tempo recorde, […] muitas delas já em fase de testes” avançados, o cientista diz à Lusa que o ECDC está a “preparar já planos de monitorização”.

“Para quando a vacina estiver disponível podermos monitorizar a sua eficiência e para garantir que é segura”, refere Piotr Kramarz.

Na passada quinta-feira, a Comissão Europeia oficializou, em nome da União Europeia, a compra de 300 milhões de doses de uma potencial vacina da farmacêutica AstraZeneca, que está em fase avançada de ensaios clínicos de larga escala e com resultados promissores.

A formalização vem no seguimento de um contrato prévio de aquisição assinado pela com a AstraZeneca em meados de agosto, dada a potencial vacina que a empresa britânica está a desenvolver em conjunto com a Universidade de Oxford.

A Comissão Europeia está, também, a discutir acordos semelhantes com outros fabricantes de vacinas, designadamente depois de já ter concluído conversações exploratórias com a Sanofi-GSK (31 de julho), a Johnson & Johnson (13 de agosto), a CureVac (18 de agosto).

Também na quinta-feira, a Comissão Europeia assegurou que, “juntamente com os Estados-membros e a Agência Europeia de Medicamentos, irá utilizar as flexibilidades existentes no quadro regulamentar da UE para acelerar a autorização e a disponibilidade de vacinas bem-sucedidas contra a covid-19, mantendo simultaneamente os padrões de qualidade, segurança e eficácia da vacina”.

Ainda assim, de acordo com Piotr Kramarz, este é um processo que deverá demorar mais alguns meses.

Mas há “boas notícias” relativamente à covid-19 na Europa, de acordo com o cientista.

“Em termos de tratamentos, existe já um autorizado, o Remdesivir, que é um medicamento antiviral usado para pacientes graves”, destaca, numa alusão ao aval dado pela Agência Europeia de Medicamentos para utilizar este fármaco para combater a covid-19.

No final de julho, o executivo comunitário também assinou um contrato de 63 milhões de euros com a farmacêutica Gilead para assegurar tratamentos com Remdesivir na União Europeia.

Outra das boas notícias é que “há mecanismos para testar e identificar os casos de forma eficaz” na Europa, destaca Piotr Kramarz na entrevista à Lusa.

“A capacidade de realizar testes aumentou significativamente e aprendemos bastante sobre o rastreamento de contactos e sobre como contactar as pessoas que estiveram em contacto com infetados, nomeadamente através de aplicações móveis”, reforça o responsável.

E assegura: “Estamos muito mais bem preparados [para enfrentar a pandemia] do que estávamos na primavera”.

Desde logo porque “os países aprenderam muito com esta primeira fase e, por isso, já há bastante preparação nos serviços de saúde”, justifica.

Em todo o caso, o especialista antecipa um “período difícil” de ressurgimento das infeções nos próximos meses, que poderá coincidir com a época da gripe normal, razão pela qual adianta que o ECDC está já “a pedir aos Estados-membros que se preparem para isso”.

Alerta contra relaxamento dos cidadãos face a medidas

O Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) contra “o relaxamento” dos cidadãos face às medidas de contenção da covid-19, avisando que o surto ainda não terminou, mas afasta para já hipótese de novo confinamento.

“Estamos a sentir e a observar que algumas pessoas pensam que a pandemia já acabou e que não precisam de cumprir qualquer medida e isso não é verdade”, frisa Piotr Kramarz.

“Pode ser um pequeno gesto [de cada um], mas é muito importante para parar este ressurgimento” de casos na Europa, acrescenta o responsável.

Questionado se esta descontração dos cidadãos poderá estar a contribuir para o aumento de casos em países como Portugal, o cientista admite que “há diferentes fatores [para justificar este aumento]” e “um deles poderá ser o aumento dos testes”.

“Mas o que estamos a verificar é que o ressurgimento real está relacionado com o relaxamento das medidas, em termos individuais”, reforça Piotr Kramarz.

E este cenário, de acordo com o cientista, poderá também estar relacionado com a altura do ano, o verão: “Vemos nalguns países que as pessoas estão relaxadas relativamente a este vírus e estão, provavelmente, a encontrar-se com outras e a frequentar espaços lotados, nomeadamente durante as férias, e agora estão a regressar de vários ‘resorts’ e outros lugares”.

Situações que se verificam “não necessariamente atravessando as fronteiras, [já que] isto acontece dentro dos países”, explica Piotr Kramarz.

Aliás, de acordo com o especialista, “o papel das viagens não é muito significativo nesta fase”, dado que “existe transmissão comunitária dentro dos países”.

“E é bastante importante que nos foquemos nisto e que não dispersemos os nossos esforços para a restrição das viagens porque essa não é a prioridade” neste momento, pede Piotr Kramarz, assegurando que “a contribuição das pessoas [infetadas] a chegar em aviões não é muito grande” na Europa.

É, antes, “por causa deste relaxamento das medidas [que] a pandemia se está a propagar”, insiste.

Por isso, o responsável apela a que “toda a gente se lembre que tem de seguir algumas regras básicas […], como por exemplo o distanciamento físico de pelo menos dois metros, a lavagem das mãos, proteger a cara enquanto tosse e, em algumas situações, usar máscaras”.

Questionado pela Lusa se prevê que a Europa volte a precisar de um novo confinamento geral, como aconteceu entre meados de março até início de abril, o especialista assinala que “este tipo de medidas tem enormes consequências em termos económicos e sociais”, sugerindo antes a aplicação, por parte dos países europeus, de “medidas mais direcionadas, baseadas numa análise da situação e [dirigidas para] onde as infeções acontecem e em que contextos”.

Como exemplo, Piotr Kramarz nota que “há determinados locais onde a transmissão é mais intensa, como ginásios, discotecas, bares, pelo que os países podem considerar introduzir restrições em espaços como estes”.

“As medidas devem ser mais direcionadas e baseadas em análises locais da situação e também temos de nos lembrar em proteger a população mais vulnerável, como os idosos ou as pessoas com outras complicações, que devem ser protegidas em qualquer altura”, aconselha.

Ainda assim, a hipótese de novo confinamento não está descartada.

“Teremos de ver como a situação evolui. É muito difícil prever porque é um vírus muito novo e apesar de termos aprendido bastante nos últimos seis, sete meses, ainda há muitas incógnitas”, justifica.

Piotr Kramarz lembra, ainda, que “foi possível verificar algum cansaço após a quarentena ou o confinamento, com as pessoas a ficarem cansadas destas medidas, como usar máscara, e provavelmente isso também contribuiu para o relaxamento”.

“Neste sentido, é bastante importante comunicar, de forma clara, que a história ainda não terminou, que o vírus ainda não se foi embora, e que não devemos baixar a aguardar”, conclui na entrevista à Lusa.

Europa enfrenta ressurgimentos sem ter saído ainda da primeira vaga

A Europa está a enfrentar, a duas velocidades, a pandemia de covid-19, com alguns países já a registar ressurgimentos do vírus, enquanto outros nem saíram da primeira vaga, afirma o Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC).

“O que estamos a verificar é um aumento do número de casos […]. Estes números estão a aumentar em muitos países, têm vindo a aumentar em diferentes períodos de tempo, mas definitivamente [mais] nas últimas semanas”, contextualiza o chefe-adjunto do programa de doenças do ECDC.

De acordo com o cientista, não se pode, porém, afirmar que esta é já a segunda vaga do novo coronavírus na Europa: “Alguns países, provavelmente, ainda nem saíram da primeira vaga, enquanto outros tiveram uma redução do número de casos e, agora, estão a assistir a um aumento”.

“Não é uma clara segunda vaga, mas o que vemos é que há o ressurgimento das infeções”, acrescenta Piotr Kramarz, aludindo às subidas acentuadas, nas últimas semanas, no número de casos diários em países como Itália, Espanha, França e Alemanha, que foram aliás os mais afetados desde o início da pandemia na Europa.

Como o novo coronavírus é ainda desconhecido dos especialistas, o responsável do ECDC arrisca até a dizer que com “o covid-19 a situação é um pouco mais complicada”, sendo difícil distinguir as diferentes fases do surto.

“Esta nomenclatura, de segunda vaga, vem da epidemia da Influenza [infeção respiratória viral que originou epidemias sazonais como a Gripe A]. O que normalmente acontece é que existe uma primeira vaga, depois um período de baixa propagação e depois uma segunda vaga ou até uma terceira”, mas isso não acontecerá necessariamente assim desta vez, explica.

Piotr Kramarz ressalva, ainda assim, que o aumento do número de casos pode nem sempre significar o reaparecimento da covid-19, dado poder estar ligado ao incremento dos testes.

“No início da pandemia, o número de testes era limitado, bem como a capacidade dos países, e por isso só se testavam mais os pacientes mais graves e pacientes que se deslocavam aos hospitais, mas agora muitos países expandiram [o número] de testes e estão a testar pessoas com sintomas leves, ou até mesmo sem sintomas, e estão a detetar casos”, refere o chefe-adjunto dos programas de doenças do ECDC.

“Nalguns países, este [aumento] está relacionado com os testes porque estão a testar cada vez mais pessoas”, reforça Piotr Kramarz.

O responsável aponta que “a abordagem para os testes difere bastante de país para país”, razão pela qual o ECDC está “a preparar diretrizes para uma abordagem comum para os testes, no âmbito das quais é sugerido como os países devem testar a sua população”.

No mais recente relatório de avaliação de risco, lançado por este centro europeu no início de agosto, Portugal constava entre os países da UE que mais testes realizava à população, com uma média de 923,3 testes por 100 mil habitantes, só atrás do Luxemburgo, que introduziu uma estratégia de testes em massa, Dinamarca, Malta, Chipre, Áustria e Irlanda.

Mas o aumento do número de testes não é o único indicador avaliado pelo ECDC, segundo Piotr Kramarz, que assegura existirem “ressurgimentos [na Europa] olhando para outros indicadores”, como os surtos ativos ou a transmissão comunitária.

O especialista exortou, por isso, os países a continuarem a “detetar rapidamente os casos e rastrear os contactos”.

“Nesta fase da pandemia, recomendamos que todos os que têm sintomas compatíveis com a covid-19 seja testado. E se os países conseguirem testar todos estes sintomáticos, podem também pensar em testar assintomáticos, que apesar de não terem sintomas podem ter estado em contacto [com alguém infetado]”, apelou na entrevista à Lusa.

Sediado na Suécia, o ECDC tem como missão ajudar os países europeus a dar resposta a surtos de doenças.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 832 mil mortos e infetou mais de 24,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.