Vinte anos depois, há relíquias que são guardadas como o tesouro mais importante do mundo. Podem não ter um grande valor material mas não têm preço pelo simbolismo. Se, como argumenta o El Mundo deste domingo, a construção da identidade catalã por parte do nacionalismo assentou durante décadas nos três grandes pilares de língua, partido e clube, o clube tem no ADN da sua identidade este século um nome que se torna incontornável. Por isso, Horacio Gaggioli conserva de forma religiosa o guardanapo onde Lionel Messi assinou o primeiro contrato na mesa de um restaurante pelo Barcelona, aos 13 anos. Certo dia um japonês perguntou-lhe como saberia que não era falso. Foi a um notário, certificou o papel e guardou-o na caixa forte de um banco. Já tive inúmeras propostas de museus e privados para vender, é algo que ainda hoje considera que não se possa comprar.

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“Não gosto absolutamente nada desta situação, dá-me muita pena que possa sair depois de enviar um burofax, é muito triste. Não acredito que a história termine assim. Têm de sentar-se, falar, encontrar um acordo. Mesmo que saia, tem de ser a bem, pela porta grande. O Leo deu muito ao Barça, o Barça deu muito ao Leo. Não estamos a falar de uma sociedade anónima, é um de sócios e os sócios adoram Messi. Tenho amigos que estão em choque com tudo isto, é muito complicado. Têm de encontrar uma solução para isto, nesta altura o que está a acontecer está a afetar ambos de forma negativa”, comentou ao Sport Gaggioli, um dos “mentores” da chegada do argentino.

Esse é nesta fase o grande dilema de uma relação que quase todos julgavam ser para a sempre mas que os próprios responsáveis do clube temiam desde julho que pudesse chegar a um divórcio litigioso. Conforme tinha comunicado na véspera, Messi não se apresentou no primeiro dia de trabalhos do novo Barcelona de Ronald Koeman, dedicado apenas a exames médicos e os indispensáveis testes ao novo coronavírus. Se esta semana a entrada do argentino no clube voltou a ser diariamente recordada, ninguém consegue adivinhar como será a sua saída.

De acordo com o El Larguero da Cadena Ser, existe mais um pormenor a ter em consideração sobre o contrato mais falado do mundo (depois daquele que foi rubricado num guardanapo de restaurante). O programa avançou que, na renovação de contrato de 2017, a última feita com os catalães apesar de ainda há dois meses Josep Maria Bartomeu dizer que o prolongamento do vínculo estava acertado, ficou definido que o último ano de 2020/21 seria opcional. Ou seja, só se ambas as partes manifestassem o desejo de manter a ligação – o que não é claramente o caso. Seria esse o respaldo jurídico para novo endurecimento de posição do jogador, que tem adotado uma postura mais ou menos ziguezagueante entre a rescisão, a impossibilidade de reunir e o desejo de sair a bem. Da parte do clube, a posição de sempre: a cláusula 24 dizia que o capitão tinha até 10 de junho para manifestar a intenção de sair e nem a alteração da parte final dos calendários por causa da pandemia anula essa “janela”.

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A novela Messi-Barça, que como se percebeu desde terça-feira é mais uma novela Messi-Bartomeu, mantém-se como um autêntico jogo de xadrez entre jogadas onde se mexem peças a pensar nos movimentos seguintes. E a única coisa que verdadeiramente mudou foi mesmo a forma de comunicação, que do não contacto passou para os intermediários e dos intermediários passou para a via pessoal: o presidente do Barcelona fala por telefone com o pai do argentino e por WhatsApp com o jogador. O La Vanguardia acrescenta o que já se sabia: do lado dos blaugrana, não há margem para negociar a cláusula de rescisão de 700 milhões de euros e estão prontos para irem até às últimas consequências legais para defender a sua posição (e a de Bartomeu, claro está).

Este domingo, o clube teve um apoio de peso no plano institucional: de acordo com a Marca, a Liga notificou publicamente Lionel Messi que se quer deixar o Barcelona terá de pagar a cláusula de rescisão, os tais 700 milhões de euros. Ou seja, entende também que o dia 10 de junho que está no contrato (válido e não opcional para a época 2020/21) era o limite para o jogador manifestar o desejo de terminar a ligação aos catalães.

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Messi chegou ao limite nos últimos tempos. Nunca teve uma boa relação com o presidente, não concorda há muito com a política desportiva seguida, não perdoou a saída de Valverde para a entrada de Quique Setién, também não vê grande futuro com Koeman no comando. O que sabe, por já ter sentido isso, é que quando as coisas correm mal no Barcelona é muitas vezes apontado como o principal culpado. Mas existem outros motivos que foram também desgastando os últimos tempos, de situações mais pequenas e pessoais como a forma como Luis Suárez foi dispensado por telefone ao processo extra futebol que decorre nos tribunais e que está relacionado com acusações de fraude fiscal e branqueamento de capitais da Fundação Messi, como recorda o ABC. Da mesma forma como, em paralelo, e apesar de ter havido sempre recusas com repúdio da situação, um relatório da I3 Ventures mostrava que a empresa especializada em gestão de redes sociais foi contratada pelo Barcelona para denegrir a imagem de figuras do clube como Lionel Messi. Ainda hoje Bartomeu garante que não sabia de nada.

Entretanto, e com o PSG a tentar perceber a todo o custo quanto poderia custar uma operação para contratar Leo Messi, o Manchester City encontra-se na dianteira para assegurar o argentino e já existe mesmo uma hashtag nas redes sociais de #FreeMessi apelando a que possa existir um acordo com a sociedade dos ingleses para garantir a contratação do jogador (e Pep Guardiola encontra-se na Catalunha, o que fará com que tenha depois de cumprir quarentena e falhe parte da pré-época). E se parece claro a disponibilidade de os citizens oferecerem três anos de contrato para jogar na Premier League e mais dois para acabar na MLS pelos New York City, chegam também informações da Argentina que dão conta de um possível acordo para terminar a carreira no Inter Miami.