Título: A Espanha das Espanhas
Autor: João Sousa Cardoso
Prefácio: Jacques Lemière
Design: Pedro Nora
Editor: Book Cover
Páginas: 118
Preço: 15 €

A capa de “A Espanha das Espanhas”, de João Sousa Cardoso

Livre do confronto com uma literatura de viajantes portugueses por Espanha que vem de Oliveira Martins, Fialho de Almeida, Leal da Câmara, Alfredo Mesquita, Fidelino de Figueiredo, Diogo de Macedo e alguns outros para chegar até meados do século passado com crónicas de artistas como Carlos Botelho ainda dispersas por jornais — uma literatura raramente evocada, ou reeditada, é certo, porém muito expressiva duma re-aproximação por fazer —, todavia creio que bem consciente da necessidade de estudo e debate das singularidades ibéricas de que somos “vizinhos” (Lemière, p. 7), o encenador, cineasta e professor de belas-artes João Sousa Cardoso, de 43 anos, publica este diário escrito dir-se-ia de câmara de filmar na mão durante um périplo espanhol vivido a dois no verão de 2011.

“A juventude vai lá atrás” (p. 19) foi-lhe dito pelo condutor ao entrar no autocarro no Porto, a caminho de Miranda do Douro, e é precisamente esse declarado novo que o autor busca e apõe às suas realizações artísticas que aqui se repercute também. Aliás, o facto de este livro ser publicado e lançado a par de outro sobre o pintor Álvaro Lapa, “professor austero e inspirador” (p. 32), tema das lições-espectáculos de João Sousa Cardoso, não podia ser mais clarificador dessa vontade. O vermelho das letras em que A Espanha das Espanhas se imprimiu, para uma evocação simplória e descabida da bandeira do país — e será Pedro Nora mais um designer que não lê? —, é o único senão que lhe podemos apontar. “Não havia necessidade…”

O prefácio de Jacques Lemière é quase uma recensão exaustiva ao livro, destacando as principais virtudes dessa deambulação de veraneio e ilustração por cidades como Burgos, Bilbao, Saragoza, Valencia, Granada e Sevilha, Mérida, Toledo e Madrid e Salamanca — um roteiro de que as províncias Galiza, Astúrias, Cantábria e Catalunha ficaram ausentes. Sousa Cardoso vai viajando de terra em terra usando transportes coletivos, o autocarro quase sempre, o que lhe permite observar tipos (dois exemplos: “jovem negro dorme com auscultadores nos ouvidos abraçado a uma bolsa Louis Vuitton”, p. 101; “três meninas com ar bem-comportado e saias de pregas sentam-se, muito juntas, à nossa frente. Apanham o mesmo autocarro que nós para Zamora e, pouco depois, adormecem, p. 111) ou perceber por conversas ouvidas as razões da mobilidade das gentes. Aliás, mobilidade, aventurosa ou precária, que interessa ao artista que é ensaísta de contemporaneidades: a estrónica guia do hospital de Tavera, em Toledo, é, diz ele, «uma sobrevivente da movida madrileña dos anos 80, que imaginamos de volta à terra de família, onde é mais fácil conseguir emprego” (pp. 92-93).

Se o recato de templos e museus convida a variadíssimas evocações artísticas e históricas (na nova catedral de Salamanca, “um esqueleto [que] irrompe de uma abertura escavada na parede” convoca-lhe o pintor e escultor Lucio Fontana, 1899-1968; em Burgos, um novo museu ainda em estaleiro remete para o aprazível Musée du Quai d’Orsay parisiense, pp. 29-30), também o desdobrar de paisagens no vidro da janela de autocarro atrai paralelismos sortidos: na região valenciana “o sol aberto, os campos de fruto e a pressentida aproximação do mar lembram-me a Grécia e, como na Grécia, subitamente, ao dobrar de uma colina, surge o mar: verde esmeralda, brilhante, generoso” (p. 39), enquanto, mais a sudoeste, nos arredores de Granada “colinas e colinas de campos de trigo ceifado, além de extensos campos de girassóis queimados, flores festivas e efémeras” (p. 63) fazem lembrar o artista alemão Anselm Kiefer (1945-) e julgo que a sua “floresta cultural” na nossa alentejana Comporta. Em Madrid, o estádio Vicente Calderón faz pensar na “vitalidade que estes circos despertam em nós como o de Mérida excitou os estremenhos de outrora” (p. 100); em Sevilha, uma tourada tem o seu ponto final na frase-estocada “Cai, enfim, a noite nesta Roma Antiga” (p. 73). O bom das viagens — “necessidade humana” (pp. 110) — é também este exercício comparativo e inclusivo, de que o páteo renascentista da Universidade de Salamanca, visitado a 25 de Agosto, acaba por ser símbolo antigo e moderno, do mesmo modo que a própria instituição universitária globalmente considerada tinha obrigação de o ser mas manifestamente não é.

Ainda que Jacques Lemière indique que o olhar de João Sousa Cardoso é “um olhar português” (p. 10), e dificilmente deixaria de o ser — em Valência, versos de Sophia de Mello Breyner Andersen lembram a praia da Granja (pp. 46-47), em Bilbau um quadro do uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949) remete para “as cartografias de viagens e as cores férteis de Joaquim Rodrigo” (p. 33) —, não encontramos infelizmente no livro uma perspetiva crítica capaz de colocar frente a frente um e outro países, o carácter das suas cidades e variegadas gentes, ou, para ser muito claro, o desnível entre os dois, sobretudo diante da monumentalidade impactante de algumas cidades médias de Espanha, das quais o sincretismo cultural ou o fundo imperial não foram banidos, e nas formas do viver quotidiano que a complementam: “A noite avança nesta esplanada castelhana e a alegria da conversa desdobra-se infinitamente” (ainda Salamanca, p. 111).

Em contrapartida, temos observações e comentários avisados e incisivos sobre precaridades várias em museus, desde logo o afamado Guggenheim de Bilbao: “a programação [2011] é modesta, destinada ao grande público que visita o museu [desde 1997], mais interessado na extravagância do edifício de Frank Gehry do que nas exposições” (p. 31); “iluminação descuidada” (p. 52) no Museu da Capela Real, em Granada; em Córdova, o Museu da Inquisição “anuncia uma revisitação histórica dos objetos de tortura da Igreja com o sensacionalismo de uma barraca de feira” (p. 70); o recinto da Exposição Universal de Sevilha 1992 é “o espaço desencantado de uma feira popular abandonada, onde sobram os sinais de propaganda dum tempo histórico” (p. 78); na Mesquita de Toledo, o autor é forçado a travar argumentos sobre descontos em bilhetes de entrada com a funcionária da bilheteira, a quem dá uma lição de “boas práticas internacionais de acolhimento em museus e monumentos” (p. 99); o Instituto Valenciano de Arte Moderna “é tristonho e um lugar perdido no mapa imprevisto dos museus de arte da Europa” (p. 43).

João Sousa Cardoso fez bem em resgatar estes seus registos de puro “nomadismo”, sobre uma territorialidade comum — ou incomum — que convida e exige discussão, mas como a distância duma década tem sempre efeitos inexoráveis ou imprevistos, um posfácio para atualização e reexame traria certamente trazido algum benefício a este simpático livro.

Apresentação na Feira do Livro do Porto: 1 de setembro, às 19h, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett.