A Human Rights Watch (HRW) criticou esta sexta-feira o “desapreço total” do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, pelo trabalho das organizações não-governamentais de defesa do ambiente, que atuam no país, acusando o mandatário de acelerar a destruição da floresta amazónica.

A posição da HRW surge um dia após Bolsonaro ter afirmado, numa transmissão em direto na rede social Facebook, que não consegue “matar o cancro” que as ONG são para a Amazónia.

– Live de quinta-feira (03/09/2020). Com os resultados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, sob o comando do Ministro (André Mendonça) e mais. Assista! . Link no YouTube: https://youtu.be/2tB4XLKXSeI

Posted by Jair Messias Bolsonaro on Thursday, September 3, 2020

“Numa live veiculada esta semana, o Presidente Jair Bolsonaro disse que não consegue ‘matar esse cancro’, referindo-se às ONG que defendem a Amazónia, desacreditou denúncias baseadas em dados públicos que indicam enorme aumento de queimadas e de desflorestação na Amazónia durante o seu Governo, e acusou ribeirinhos e indígenas pelas queimadas”, indicou a organização em comunicado.

A Human Rights Watch advogou ainda que, “além de continuar a demonstrar desapreço total pela atuação das ONG“, Bolsonaro “quer esconder o facto de que suas políticas anti-ambientais têm acelerado a destruição da floresta, com consequências muito graves para a segurança daqueles que tentam defendê-la, incluindo agentes ambientais e indígenas, e para a saúde de milhares de pessoas que respiram o ar tóxico associado às queimadas na Amazónia”.

Várias organizações não-governamentais ambientais têm atribuído o aumento na degradação daquele que é o maior pulmão vegetal do planeta às políticas “agressivas” de Bolsonaro, que encorajam a expansão de todas as atividades económicas naquela região.

Também a ONG Greenpeace Brasil se juntou às críticas, declarando que Bolsonaro “dá a entender que quer que o Brasil se adapte aos seus desejos, em mais um claro rompante autoritário onde a palavra ‘matar’ é recorrente”.

Enquanto procura culpar terceiros pelo estrago da sua própria política, a floresta queima e a imagem brasileira se desintegra internacionalmente. (…) A sua fala, violenta e inaceitável, só demonstra que ele não está disposto a tomar qualquer tipo de ação efetiva para evitar que a Amazónia seja destruída e que não está à altura da responsabilidade do cargo que ocupa”, defendeu a ONG.

“Os dados dos satélites mostram quem é o verdadeiro cancro da floresta. Bolsonaro pode tentar, mas não conseguirá matar a esperança dos brasileiros que lutam em defesa da vida e da floresta em pé”, concluiu a Greenpeace em comunicado.

Na quinta-feira, no mesmo dia em que Bolsonaro chamou as ONG de “cancro”, a Amnistia Internacional (AI) alertou para o “número alarmante” de novos incêndios que lavram na Amazónia brasileira, acusando as autoridades do país de não protegerem a terra e os direitos humanos naquela floresta tropical.

No alerta, a AI — ONG de defesa dos direitos humanos —, lamentou o facto de já terem sido detetados este ano, até 31 de agosto, cerca de 63 mil incêndios, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) brasileiro.

Incêndios na Amazónia brasileira diminuem em agosto mas aumentam no Pantanal

A Amnistia destacou ainda que a desflorestação na região aumentou 34,5%, entre agosto de 2019 e julho de 2020, em comparação com o mesmo período de 2018 e 2019, destruindo uma área total de 9.205 quilómetros quadrados.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta, com cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados, e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).