Título: Epítome de Pecados e Tentações
Autor: Mário de Carvalho
Editor: Porto Editora
Páginas: 136

A capa de “Epítome de Pecados e Tentações”

Tal como é sugerido pela epígrafe de Catulo, bem como pela primeira frase de Epítome de Pecados e Tentações (“Eu detestava-a em desespero por amá-la demais”), o mais recente livro de Mário de Carvalho é uma antologia de contos onde amor e ódio se confundem.

A primeira destas histórias, “Fascínios”, e a história de Bártolo em “Hotel Azul” são as únicas em que temos acesso a uma perspetiva masculina sobre relações de cariz essencialmente sexual. De resto, encontramos nestas páginas encontros carnais (heterossexuais) mais ou menos fortuitos descritos a partir do ponto de vista feminino. As treze histórias reunidas em Epítome de Pecados e Tentações são, então, narrativas bastante homogéneas de galifões que se julgam arrebatadoramente sensuais e sedutores mas que são afinal, como cedo percebemos, simples marionetas nas mãos de mulheres que os manietam de forma a alimentar as líbidos destas, sendo as mulheres e não os alegados Casanovas as responsáveis por escolher, definir e calendarizar a concretização das tentações que elas, e apenas elas, primeiro geram e depois saciam.

A maior variação que encontramos nas narrativas aqui incluídas não é, ainda assim, ao contrário do que seria de esperar, a diferença do género dos protagonistas de “Fascínios” ou de “Hotel Azul”. A maior alteração narrativa na estrutura é a inserida na história de Maria das Mercês, em que, pela primeira e única vez, é trazida alguma luz à inescrutável insondabilidade das razões, ações e mistérios femininos. Apenas na história da viúva latifundiária temos acesso ao que poderia ser descrito com alguma boa-vontade como um contexto, uma vez que só aqui o desejo de libertação sexual da protagonista vem de um sítio minimamente compreensível para o leitor (Maria das Mercês entrega-se a frescuras no quarto de hotel com o jovem camareiro/ mestrando em Antiguidade Greco-Latina por uma mistura de vontade de emancipação das heranças que a viuvez lhe trouxera; por um secreto desejo de regressar aos tempos mais simples em que era também ela apenas uma estudante de História; e pela necessidade de se distanciar das responsabilidades de mãe e proprietária, uma responsabilidade constantemente trazida à baila pelos insistentes telefonemas das noras que, a meio da história, sem que se perceba porquê, se transformam em filhas. Responsabilidades essas que, em vez de contribuírem para a emancipação de Mercês, apenas a anonimizam e aprisionam).

Nos restantes episódios da vida erótica, as mulheres surgem como incompreensíveis viúvas negras que trazem os homens para junto de si apenas para os devorarem e cuspirem para longe, mal acabam as relações sexuais invariavelmente pouco satisfatórias a que, uma e outra vez, se entregam (as descrições de sexo pouco prazenteiro são, aliás, dos melhores pormenores que encontramos em Epítome de Pecados e Tentações, como vemos por exemplo em “Entre Cá e Lá” ou “Eu Não Sou Nenhum Capacho”). Com a honrosa excepção da história de Maria das Mercês, a narrativa começa na hora da sedução e termina após o coito, quase sempre com o afastamento repentino dos homens por parte das mulheres, sem qualquer referência ao que terá levado a este estado de coisas ou ao que acontecerá depois. Deste ponto de vista, a confissão da protagonista de “Eu Não Sou Nenhum Capacho” é, aliás, aplicável a todas as outras protagonistas: “Não sei como fui parar ao quarto dele”, embora nesta frase em particular se ofereça à mulher uma passividade que é negada quando recordamos como a ação se desenrola quase sempre nos seus aposentos e não no dos homens, vistos por Mário de Carvalho como presas ilusoriamente convencidas da sua mestria nas lides da caça.

Os fins das histórias que compõem o décimo segundo livro de contos do escritor são aliás bastante elucidativos desta ausência de variedade, visto que tendem a acabar com frases abruptas que são apenas mais uma forma de sacudir os amantes do colchão. Em “Hotel Azul”, Maria das Mercês, mal Raul se vê enfim saciado, diz-lhe “Ala!”, ao mesmo tempo que Bártolo, escorraçado da cama de Lina, “voava longe, auto-estrada fora”. O sexo de Jordão com Gerda, em “Entre Cá e Lá”, acaba também com Jordão farto de Gerda e Gerda farta de Jordão, a partilharem um duche embaraçoso para ambos. O sexo em “Eu Não Sou Nenhum Capacho” acaba com a exasperação da protagonista (“Enfim, andando…”), pouco diferente do incómodo da personagem principal de “Claro-Escuro”, que despacha Augusto com um sucinto “Desapareça” ou do de “Olga”, em que o amante ocasional é despachado com um “Toca a vestir!” e um “andou!”.

As melhores partes de Epítome de Pecados e Tentações são, ainda assim, aquelas que, pelo menos aparentemente, mais distam do que poderíamos designar muito genérica e absurdamente por ‘tópico do livro’. Ainda que as histórias se tornem por vezes demasiado repetitivas, ainda que Mário de Carvalho, por mais virtudes literárias que tenha, não seja o melhor criador de diálogos da literatura portuguesa, é impossível deixar de admirar Mário de Carvalho, por exemplo, pelo sentido de humor que permeia cada cena de Epítome de Pecados e Tentações, bem como pela descrição da culpa inapagável que Bártolo não consegue deixar de sentir pela falta de amor que tem pela sua própria filha; ou, finalmente, pelas condições impostas pelo protagonista de “Fascínios” aquando da sua entrada no lar de terceira idade, renegando qualquer criancificação ou meninizamento, ao mesmo tempo que exige ser tratado, precisamente na hora em que a morte se aproxima já a passos largos, com o respeito devido a si, o excelso doutor Augusto Costa Reimão, jurista com trabalhos publicados, agora que esses dias gloriosos de jurista consagrado mais parecem saídos de uma qualquer lenda urbana, agora que a velhice e a hipotética senilidade tornam desesperadamente importante manter presente e incontestável essa prova do ido prestígio.

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