O cheiro a madeira sente-se ainda antes de cruzarmos a porta. Na estante, que denuncia marcas de vários tempos, à mesa de trabalho, a matéria está presente no mobiliário que aconchega este atelier nos arredores de Lisboa, mas não só. É ela própria o objeto de manipulação. Entre milhares de pequenas peças, há três que se complementam — um carpinteiro e dois arquitetos, que comunicam através de um inglês universal. O pó forma uma fina película sobre as superfícies e não engana — aqui corta-se, lixa-se e pule-se madeira, e muita.

Há cerca de dois anos que o Woometry tomou conta de uma das muitas salas deste complexo de armazéns, em Santa Iria da Azoia. Apresenta-se como um estúdio criativo sustentável, rumo ao desperdício zero e de olhos postos no design de interiores. Madeira não falta e está toda pronta a ser reciclada, muito provavelmente na forma de minuciosos painéis decorativos que já são uma imagem de marca.

Detalhe dos painéis feitos no estúdio Woometry © Filipe Amorim/Observador

O acumular de experiências à volta da bancada de ferramentas trouxe Mike e Kate até aqui — um mundo de pequenos triângulos, cilindros e losangos. Combinados entre si, formam imagens e composições geométricas que ameaçam saltar da parede. A técnica, essa, está em constante aperfeiçoamento. “Tornaram-se mais complexos e foi assim que a arquitetura entrou no projeto”, explica Kate, arquiteta de formação, ao Observador.

Fala em axonometria e isometria, palavrões que traduzem o efeito tridimensional criado nas peças planas. “Usamos tons diferentes para criar esse efeito e temos essa possibilidade porque conseguimos extrair pedaços de madeira de qualquer peça que encontremos. É isso que nos distingue dos carpinteiros, é o que faz com que sejamos diferentes”, conclui.

Woometry. Um projeto de recoletores

Dentro da oficina não há matéria-prima comprada, apenas vestígios de peças que já ninguém queria. Se por um lado a dupla começou a trabalhar madeira por esta ser, a par com a cerâmica, um material “quente”, “confortável” e que “nos faz sentir bem”, foi também a chamada de atenção para o desperdício que os fez começarem a acumular quilos e quilos numa espécie de arrecadação, entretanto também alugada.

“De vez em quando, víamos objetos como mesas ou portas que as pessoas deitavam fora e nem sempre eram coisas lindas e em bom estado que quiséssemos levar para casa. Normalmente até eram coisas estranhas e velhas que desmontávamos e trazíamos”, conta. A busca começou por ser tão simples quanto uma corrida matinal — “depois chamava o Mike para vir buscar”, continua.

Os três trabalham entre máquinas, moldes e bancadas, sempre com a madeira no centro © Filipe Amorim/Observador

Quatro braços e uma carrinha, não eram necessários mais meios. “A verdade é que não tínhamos um grande orçamento quando começámos, mas também ainda não pensávamos em incutir a questão da reciclagem no estúdio”. É caso para dizer que a ocasião fez a filosofia, embora os primeiros (e ambiciosos) planos para o Woometry passassem por uma linha de mobiliário, antes de o casal começar a fazer as contas aos recursos necessários. “Tínhamos acesso a imensa madeira pela qual não tínhamos de pagar, o que é que podíamos fazer com ela? Já tínhamos feito algumas experiências com painéis, mas eram sobretudo repetições de padrões, nada de muito artístico”, recorda Kate.

Sem a premissa da reciclagem totalmente fechada, o ano de 2019 trouxe aquele que até hoje foi o maior projeto do estúdio. Kate e Mike foram contactados pelo atelier de arquitetura AnahoryAlmeida para integrarem um mega projeto no centro de Lisboa — de um lado o Wood, um espaço de cowork que ocupa um prédio de oito andares, do outro o Selllva, um restaurante de comida saudável do grupo Capricciosa. “Foi uma quantidade de trabalho louca. Cortamos toneladas e peças à mãe, polimos, colámos. A certa altura, tivemos que pedir a ajuda a uma amiga. Era como se tivéssemos montado uma fábrica, mas só com três pessoas”, conta.

O volume da empreitada é quantificável. Em vez de pequenos painéis, o desafio foi cobrir de pequenas peças de madeira 120 metros quadrados de parede. O exercício foi ligeiramente mais simples na receção do espaço de cowork do que no restaurante, onde as paredes recriam elementos de vegetação, em harmonia com as pinturas naturalistas de Henriette Arcelin.

O processo e o resultado final na parede do restaurante Selllva, em Lisboa © Divulgação

“Tivemos de dividir tudo em painéis de 150 por 80 centímetros, muitos deles numerados porque tinham uma ordem específica. As bordas eram deixadas vazias e preenchidas diretamente na parede para fazer a junção de todas as partes e ainda cortar algumas peças com medidas muito específicas no próprio local”, detalha. O Selllva abriu portas a 15 de junho, depois de três meses fechado, e continua a ser o melhor sítio para perceber do que é que esta carpintaria moderna é capaz. No total, foram cortados e aplicados mais de 40 mil pequenos losangos.

“Basicamente, foi o nosso primeiro projeto e também o maior”, sublinha. A dimensão obrigou a dupla a comprar madeira para poder concluir a encomenda. “Quando chegámos ao fim, percebemos que o mais lógico era continuar apenas a reciclar. Não gostamos da ideia de alimentar o abate de árvores, não tem a ver com o nosso estilo de vida”.

Desde então que o estúdio se cinge ao material recolhido na rua — portas, tampos e os mais diversos móveis. O plástico não entra na oficina. As embalagens são feitas em cartão, também ele reaproveitado para o efeito. Em todas as outras decisões, vigora a lei do menor impacto possível. Há processos que requerem equipamento e mão de obra específica e, por isso, têm de ser feitos fora. Ainda assim, tem sido sempre possível manter todo o trabalho numa escala local.

A nova vida de Mike e Kate

Conheceram-se há seis anos, quando ela ainda era uma estudante de arquitetura e ele um jovem empresário com formação em economia. O cenário não era Portugal, mas sim a Ucrânia, onde viviam e onde acabaram por casar. Pouco tempo depois, Kate (nome adaptado ao novo estilo de vida internacional, tal como o dele) concorreu ao programa Erasmus. Já de aliança no dedo, aterrou na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa.

“A Ucrânia não tem muitos bons exemplos de arquitetura. Vim para dois anos de aulas e adorei. A educação é outra, mais prática. É outro universo”, conta. A Mike restou dividir-se entre os negócios no leste da Europa e visitas frequentes à capital portuguesa. Passados dois anos, Kate começou a trabalhar num gabinete de arquitetura português e renovou a autorização de residência.

Kate, Diogo e Mike, a equipa do Woometry © Filipe Amorim/Observador

“Houve um dia em que ele foi comigo às oficinas da faculdade e experimentou várias ferramentas. Ele sempre adorou fazer coisas com as mãos, mas a vida que tinha não lhe dava muitas oportunidades. Foi aí que decidiu alugar um sítio e fazer umas experiências”, relembra. O YouTube tornou-se a sala de aula do esforçado Mike, enquanto Kate se preparava para deixar o escritório definitivamente. “Queria canalizar a minha energia e o meu tempo para algo que pudéssemos fazer juntos. Ambos queríamos criar alguma coisa, temos o mesmo gosto, a mesmo visão. Eu não trabalho com estas máquinas, mas desenho”, continua.

Do cruzar de técnicas e conhecimentos nasceu o Woometry, um espaço de engenho e criatividade ao qual, já em junho deste ano, se juntou um terceiro elemento. Diogo Vasconcelos é arquiteto e veio consolidar uma estratégia de dar a conhecer o estúdio ao mundo. O leque de opções está aberto, dos pequenos objetivos decorativos e utilitários aos famosos painéis.

“Experimentamos à medida de construímos, nunca temos uma ideia definitiva de como vai ficar. De certa maneira, também somos artistas”, remata Kate. Da última experiência criativa nasceu Ondanova, uma prancha de surf revestida a escamas feitas a partir de restos de outros peças, minuciosamente encaixadas. Um objeto como este pode demorar até dois meses a produzir. Dúvidas houvesse, trabalhar a madeira é também treinar a calma e a paciência.