A cripta de Notre Dame reabre esta quarta-feira ao público com uma exposição que relembra os antigos e atuais debates sobre a reconstrução do monumento histórico, enquanto os trabalhos de renovação continuam à superfície.

“Não temos a pretensão de dizer que a nossa exposição vai influenciar o que se passa em cima de nós nas obras na Catedral de Notre Dame, mas o que é marcante é perceber que há 150 anos nos colocávamos exatamente as mesmas questões. Criticámos o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc por querer uma nova flecha e ele teve de justificar as suas escolhas”, afirmou Charles Villeneuve de Janti, diretor das coleções e comissário-chefe dos Museus de Paris, em declarações à Lusa.

Para marcar esta reabertura, num espaço de 2.200 metros quadrados que revela o coração de Paris entre o I e o IV séculos e que fica imediatamente abaixo do adro da catedral parisiense, os Museus de Paris escolheram como tema de exposição “Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo a Eugène Viollet-le-Duc”.

Entre fotografias e citações do romance de Victor Hugo que nos anos 30 do século XIX veio despertar a paixão dos parisienses pela Catedral, os curadores quiseram contar a história de quase 500 anos de abandono a que esta igreja esteve sujeita e os esforços posteriores à publicação do livro para a renovar. “Foi Victor Hugo que transformou esta igreja num Monumento Nacional”, disse Vincent Gille, conservador da Casa Vitor Hugo, em Paris, e um dos comissários da exposição. Antes do romance de Victor Hugo, as autoridades da capital ponderaram mesmo demolir a Catedral, mas após a publicação do livro, houve financiamento público para limpar e renovar a estrutura, incluindo a construção de uma nova flecha. Os trabalhos ficaram então a cargo dos arquitetos Jean-Baptiste Lassus e Eugène Viollet-le-Duc.

Apesar de se encontrar por debaixo do adro da catedral que ardeu em abril de 2019, a cripta não foi afetada e, após uma avaliação estrutural, a ideia dos Museus de Paris era reabri-la o mais rápido possível, mas não foi assim. “Demorou muito tempo. Ao início, queríamos abrir logo após o incêndio. Portanto preparámos logo esta exposição, para a reabertura da cripta apenas poucas semanas depois do incêndio. [Mas] disseram-nos que havia o problema do chumbo. E foi logo interdito o acesso à catedral, ao adro da catedral e a cripta também fez parte deste perímetro de segurança”, indicou Charles Villeneuve de Janti.

A Covid-19 e o confinamento vieram atrasar ainda mais esta reabertura.

Tal como os outros museus da cidade, a cripta vai receber um número limitado de visitantes e a compra de bilhetes antecipadamente é recomendada.

Além da nova exposição, a cripta apresenta ainda aos visitantes um novo percurso arqueológico, onde se pode percorrer a cidade de Lutece, que antecedeu Paris, com estruturas como casas e portas ainda preservadas com quase 2.000 anos e um acesso ao antigo porto.