Com 189 anos de história, o Garrick Club é um símbolo da cidade de Londres. Década após década, foi ali, no emblemático clube de Convent Garden, que se reuniram os mais ilustres cavalheiros — um grupo seleto que incluiu os escritores Charles Dickens, HG Wells e JM Barrie, figuras de proa da elite britânica oitocentista. Em quase dois séculos, eis algo que nunca aconteceu: uma mulher conseguir o estatuto de membro do clube.

Agora, Emily Bendell, uma bem sucedida empresária, fundadora e CEO da marca de lingerie Bluebella, entrou com uma ação legal para que o Garrick Club permita que mulheres integrem a sua assembleia de membros, um rol maioritariamente composto por empresários e magnatas que conta com cerca de 1.400 nomes (o número é de 2016, altura em que a lista de espera para conseguir tal privilégio era de, aproximadamente, sete anos). À luz do seu sucesso nos negócios, Bendell, de 39 anos, demonstrou vontade de se tornar membro do clube. O desejo foi-lhe negado pelos próprios estatutos da instituição, o que a levou a tribunal.

Victoria's Secret Launches UK Lingerie Label Bluebella At The Fifth Avenue Flagship Store With Founder Emily Bendell And Campaign Muse Ali Tate

Emily Bendell é funddora e CEO da marca de lingerie Bluebella, presente no mercado europeu, nos Estados Unidos e na Austrália © Monica Schipper/Getty Images for Victoria’s Secret

“O Garrick Club é obrigado, ao abrigo da Lei da Igualdade de 2010, a não discriminar uma pessoa que requeira ou pretenda usufruir dos seus serviços, seja não lhe disponibilizando esses mesmos serviços, seja condicionando os termos em que é prestado”, pode ler-se no documento entregue em tribunal pelos advogados contratados por Bendell, citado pelo Daily Mail.

De portas abertas há quase 200 anos, e com instalações luxuosas que incluem quartos, zonas de refeição, bares e uma sala de estar, entre outras áreas, eis a forma como funciona o Garrick Club. Apenas homens podem aspirar a membros e, portante, a usufruir de todos os serviços que o clube tem para oferecer. Têm sempre de ser propostos por dois membros e posteriormente apoiados por, pelo menos, 15 elementos do clube. Só depois o pedido será submetido a votação.

As mulheres podem entrar, mas como convidadas. Exemplo disso foi a passagem de Elizabeth Taylor pelo clube nos anos 70, na companhia do seu quinto marido, o ator britânico Richard Burton. Não podem pagar nenhum tipo de serviço, nem aceder a todos os espaços do clube. Alguns, estão reservados aos membros. “No fundo, as mulheres só podem ter acesso aos serviços do clube como cidadãs de segunda classe e por capricho dos homens que as convidam e que lhes paga a conta”, refere o mesmo documento, no qual assenta a ação legal.

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A fachada do clube inaugurado em 1831 © Jonathan Brady/PA Images via Getty Images

Um ato “discriminatório” e “ilegal” que impeliu Emily Bendell a exigir por vias legais que o Garrick Club seja obrigado, a admiti-la não só a ela como membro, mas a abrir o direito a qualquer pessoa do género feminino. A empresária espera agora que o clube responda durante os próximos 28 dias, de forma a aceder à tentativa de Bendell de se tornar membro da histórica organização, fundada em 1831 em homenagem ao ator David Garrick. Até ao momento, o clube ainda não se pronunciou.

A questão não é de hoje. Em 2015, o clube levou o tema a votação entre os seus membros. Metade votou a favor da alteração nos estatutos, percentagem insuficiente já que teriam sido necessários dois terços para consumar a mudança. Algumas caras conhecidas que fazem parte da assembleia de membros, nomeadamente os atores Damian Lewis e Stephen Fry, afirmaram publicamente apoiar a inclusão de mulheres no estrito circuito.

Elizabeth Taylor File Photos - 1970's/1980's

Elizabeth Taylor e Richard Burton, algures nos anos 70, à saída do Garrick Club © Tom Wargacki/WireImage

A juíza Branda Hale foi, na altura, uma das vozes a pronunciar-se sobre o tema, afirmando-se surpreendida ao ver outros juízes, membros do clube, a agir de forma a manter o acesso à assembleia do Garrick Club vedado às mulheres. A organização referiu na altura que voltaria a levar o tópico a votos em 2020, mas até agora nenhuma votação foi proposta.

O Garrick Club está entre os poucos clubes de cavalheiros londrinos que ainda negam direitos às mulheres. Entre eles, encontram-se também o White’s, Boodle’s e Pratt’s (os dois primeiros bem mais antigos do que o Garrick). Emily Bendell pode ser a primeira a levar o assunto a tribunal, mas não é a primeira a tentar circular livremente nos corredores do clube. Em 2011, a escritora e fotógrafa Lucinda Lambton avançou com uma proposta para se tornar membro, à semelhança da atriz Joanna Lumley, conhecida pelo papel na série “Absolutamente Fabulosas”. Ambas viram o pedido negado.