Quando perdeu o primeiro set da quarta ronda frente à checa Karolina Muchová, Victoria Azarenka, que chegava ao US Open como uma outsider que não passava à segunda semana de um Grand Slam desde 2016, enfrentou o primeiro revés num caminho até então imaculado. Reagiu da melhor forma, ganhou, “despachou” a seguir uma surpresa belga chamada Elise Mertens e melhorou o seu jogo a pique depois do primeiro set com Serena Williams para voltar à final de um Major sete anos e meio depois do triunfo no Open da Austrália. Mais calma, a falar de forma ponderada medindo cada palavra, teve uma abordagem diferente após alcançar o feito.

“Penso que quando estamos a vir quase do nada e depois nos tornamos a jogadora número 1 e a melhor do mundo às vezes podes começar a pensar que somos invencíveis e que somos melhores do que toda a gente. Não, isso não é verdade. Mas o ego começa a crescer, a crescer. É muito complicado quando depois se estraga… Em vez de ficar com o ego estragado, tentei sair dessa posição e aprender com os meus erros por causa desse ego, percebendo que uma jogadora de ténis não é nem melhor nem pior do que qualquer outra pessoa. Continua a ser humana e tudo o que se pode fazer é recuperar a melhor versão e continuar a melhorar”, comentou a jogadora bielorrussa de 31 anos após o encontro com Serena Williams, falando depois sobre os momentos em que fecha os olhos entre jogos para tentar manter a onda positiva e também do bom que a maternidade lhe trouxe.

Sofia Kenin, como vencedora do Open da Austrália, era um dos nomes mais falados no quadro feminino do US Open. Ela e Karolina Pliskova, a número 1 do ranking. E ainda havia Serena Williams, Kvitova, Sabalenka, Konta, Madison Keys, Garbiñe Muguruza e a inevitável Naomi Osaka. De todas, apenas a japonesa conseguiu chegar ao encontro decisivo. De Azarenka, poucos ou nenhuns falavam. Mas num torneio disputado em contexto especial, com a falta de público a ser também um desafio ao poder de concentração e à força mental de qualquer jogadora que leva anos a fio a conviver com aquele ruído típico de bancada, os aplausos e o apoio, percebeu-se de forma rápida que poderia haver uma surpresa na calha. Dentro das surpresas, Azarenka estava no top.

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Depois dos triunfos no Open da Austrália de 2012 e 2013, a bielorrussa que esteve 51 semanas como número 1 do WTA entrou numa espiral de erros, de derrotas, de quebra, de deceções. Ainda foi às meias de Roland Garros em 2013, somou cinco presenças em quartos do Grand Slam até 2016 mas não mais voltou a estar perto sequer das decisões nos principais torneios apesar das vitórias em Indian Wells e em Miami após uma fase complicada a nível pessoal onde sofreu com uma depressão. “Sim, é verdade, pensei retirar-me várias vezes do circuito. Em janeiro não sabia se ia ou não voltar a jogar mas lá decidi tentar uma última vez”, assumiu. Após ter sido mãe em 2016, falhou o US Open de 2017 e o Open da Austrália de 2018 devido a uma longa guerra nos tribunais pela custódia do filho com o antigo companheiro que a impedia de sair da Califórnia.

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No final de 2019, aceitou aquele que poderia ser o final da primeira vida no ténis ou o início de uma segunda vida no ténis. Foi trabalhar numa inovadora pré-temporada desenhada pelo francês Patrick Mouratoglou em Boca Ratón, no sul da Flórida. Mudou de treinador, teve outro preparador físico, “limpou o cabeça”, voltou a estar muito mais solta em termos físicos, recuperou o domínio do seu jogo com outra capacidade mental. Os resultados, esses, mudaram por completo. Ou pelo menos foram mais regulares ao longo de duas semanas. E esse é um problema ainda de Naomi Osaka, de 22 anos, representante de uma nova geração que luta por alcançar algo que ninguém está a conseguir nos dois últimos anos: conseguir alguma hegemonia no quadro feminino.

Desde que venceu aquela final do US Open de 2018 que continuará a ser mais recordada pela discussão de Serena Williams com o árbitro português Carlos Ramos, Naomi Osaka foi procurando um ponto de regularidade a nível de Grand Slams que ainda não encontrou: ganhou o Open da Austrália no último ano, não voltou a passar da quarta ronda entre Roland Garros, Wimbledon e US Open, caiu no terceiro jogo em 2020 na Austrália.

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Agora, com uma paragem forçada pelo meio por causa da pandemia, chegava com a dupla missão de chegar ao terceiro triunfo num Major e, em paralelo, dar visibilidade ao movimento Black Lives Matter: depois de ter recusado jogar as meias de Cincinnati depois do episódio de violência policial que envolveu Jacob Blake, chegou ao US Open com o objetivo de atingir a final e utilizar sete máscaras de vítimas nos EUA como o recente George Floyd. “Preparei sete máscaras para este torneio, com o nome de sete pessoas. Infelizmente sete máscaras não são suficientes mas espero poder utilizá-las todas”, explicou após primeiro jogo onde homenageou Breonna Taylor, mulher negra assassinada com tiros por policias em Louisville. Hoje, dia em que recordou Tamir Rice, um jovem de 12 anos que foi morto por um polícia em 2014 em Cleveland, também deixou uma mensagem no court, repetindo o triunfo de 2018 no US Open naquele que foi o terceiro Grand Slam ganho da carreira.

Azarenka começou o encontro a quebrar o serviço de Osaka, a ganhar depois os seus dois primeiros jogos a servir e a ter números verdadeiramente impressionantes numa final: colocou todos os nove primeiros serviços sem falhar e ganhou aí pontos. Enquanto a japonesa tinha dificuldades em explorar essa arma e ia somando erros não forçados, a bielorrussa manteve o ritmo certo, muitas vezes a colocar a adversária a correr no court para defender os pontos mais complicados e fechou o primeiro set com um surpreendente 6-1 com mais duas quebras de serviço a Osaka. Com uma percentagem de 94% de primeiro serviço, apenas três erros não forçados contra 13 da nipónica, oito winners e nenhuma dupla falta, Azarenka roçou a perfeição em sete partidas.

O triunfo frente a Jennifer Brady nas meias tinha sido um complicado teste que Osaka passara no limite e com o seu melhor jogo mas nada corria bem na final, o que levou mesmo a japonesa a ter uma reação invulgar de soltar a sua frustração na raqueta quase que a tentar libertar-se das amarras que condicionavam  a sua exibição. Depois, surgiu um break no segundo set que fez o 2-2. E menos erros não forçados. E o primeiro serviço a entrar mais vezes e a criar outros problemas a Azarenka. Quando voltou a fazer o break do 4-3 e de seguida segurou o seu serviço para aumentar para 5-3, o encontro tinha tomado de forma assumida um outro rumo, que foi confirmado no serviço de Azarenka, o mais longo até então da final, que fechou com o 6-3 um segundo set onde fez cinco ases, sem duplas faltas, 77% de primeiro serviço, 81% de respostas ao serviço e apenas cinco erros.

No terceiro e último set, e depois de um break inicial de Osaka, Azarenka desperdiçou três break points. Em vez de passar o jogo para 2-3 e servir para o empate, permitiu a recuperação da japonesa até ao 4-1. A bielorrussa ainda mostrou em algumas bolas que estava a voltar ao bom jogo do arranque da final, conseguiu segurar o 4-2 com pontos de break pelo meio, fez de seguida o 4-3 mas sofreu logo de seguida o contra break, com a japonesa a recuperar de vez o comando da partida, fechando o terceiro e decisivo set com 6-3.