Uma investigação revelou que Roman Abramovich, o dono do Chelsea, deteve investimentos secretos em jogadores que não jogavam no clube inglês. De acordo com a BBC, que teve acesso aos documentos, um desses jogadores era André Carrillo, o avançado peruano que entre 2011 e 2016 representou o Sporting.

De acordo com os FinCEN Files, um conjunto de documentos que reúne os “relatórios de atividade suspeita” dos bancos, Abramovich é o nome por detrás de uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, a Leiston Holdings. Ora, esta Leiston Holdings comprava parte dos passes de jogadores de futebol através de uma operação chamada third-party ownership, propriedade de terceiros em português — uma ação que envolve investidores que compram uma fatia do futuro valor de transferência de um atleta a um clube com dificuldades financeiras. A prática está proibida no futebol inglês desde 2008 mas só foi banida a nível internacional em 2015.

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Ora, de acordo com a BBC e com os FinCEN Files, a Leiston Holdings ficou com 50% dos direitos económicos de Carrillo em 2011, quando emprestou um milhão de euros ao Sporting para ajudar o clube de Alvalade a contratar o avançado peruano, na altura a jogar no Alianza Lima. Alegadamente, o negócio incluía várias cláusulas — como era comum em acordos de propriedade de terceiros — e indicava que, caso o Sporting recusasse uma proposta de mais de seis milhões de euros pelo jogador, os leões teriam de pagar 45% do valor da dita proposta à Leiston. O Sporting aceitou ainda pagar uma taxa de risco de mais de 127 mil euros por cada temporada em que Carrillo jogasse pelo clube e, de acordo com o Relatório e Contas de 2014/15, o clube devia nessa altura 2,6 milhões a Leiston.

Além de Carrillo, que depois ainda representou o Benfica e está atualmente no Al-Hilal, outros dois jogadores que passaram pelo Sporting tinham ligações à offshore de Abramovich: Gael Etock, um avançado camaronês que nunca chegou a jogar pela equipa principal, e Valentín Viola, avançado argentino que fez apenas dois jogos pelos leões. Entretanto, através do Twitter, o jornalista britânico Tariq Panja recordou que o responsável pelas transferências ligadas à Leiston Holdings era Pini Zahavi, o “super-agente” israelita que trabalha com Lewandowski, Alex Telles, Aboubakar e Kevin Trapp, entre outros. O jornalista acrescenta ainda uma confirmação que pode abrir a porta a outras ligações a Portugal e adianta que um dos negócios mais lucrativos para a Leiston e para Abramovich foi a venda de Lazar Markovic ao Liverpool, por parte do Benfica, em 2014, por 25 milhões de euros.

Para explicar o conflito de interesses que envolve Abramovich, a BBC recorda que Sporting e Chelsea se encontraram na fase de grupos da Liga dos Campeões no início da temporada 2014/15 — e que Carrillo atuou pelos leões nas duas partidas contra os ingleses, tanto em Alvalade como em Londres. Ou seja, nessas duas partidas, o bilionário russo tinha interesses pessoais em 12 jogadores que estavam em campo e só 11 pertenciam ao Chelsea.

O bilionário russo é dono do Chelsea desde junho de 2003, há 17 anos

Em comunicado, uma porta-voz de Roman Abramovich lembrou que as atividades em causa ocorreram antes de a FIFA alterar as regras. “O facto de estas transações terem sido confidenciais não significa que foram ilegais ou que tenham quebrado as regras e regulações que se aplicavam na altura”, lê-se no comunicado em nome do dono do Chelsea, que refere ainda que estes relatórios de atividade suspeita não significam automaticamente que alguma lei tenha sido violada.

Por outro lado, David Triesman, antigo presidente da Federação inglesa de futebol, não considera “adequado” que Abramovich tenha interesses paralelos em jogadores que não pertencem ao Chelsea. “Não acho que possa ser adequado que o dono de um clube de futebol detenha jogadores noutros clubes de futebol. Foi precisamente por isso que a propriedade de terceiros foi banida. Gera suspeitas e uma sombra por cima do futebol. Pelos documentos que vi, como presidente da Federação, eu quereria investigar”, explicou, em declarações à BBC.

Roman Abramovich, bilionário russo com ligações próximas a Vladimir Putin e à cúpula russa, tem 53 anos e é dono do Chelsea desde junho de 2003. De acordo com a Forbes, em 2019 a fortuna do empresário chegava aos 12,9 mil milhões de dólares, tornando-o o décimo homem mais rico da Rússia e o 113.º mais rico do mundo.