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“Sei que o melhor de mim está p’ra chegar.” Cristina Ferreira escolheu ter a fadista Mariza e a sua canção no dia do regresso à TVI. O mesmo dia em que Jorge Jesus, admirador confesso da artista e da música, iria ser entrevistado no programa. A amiga Cristina fez Jorge emocionar-se mais do que uma vez, ora com a música escolhida, ora com a família.

“É a música que me acompanhou muitos dias, no princípio, quando chegámos ao Brasil”, conta o atual treinador do Benfica sobre os primeiros tempos no Flamengo. “Quando acabava o treino, punha a música dela bem alto [no ginásio] só para eu ouvir.” Jorge Jesus conta que a música de Mariza estava relacionada com o que ele e a equipa técnica estavam a viver, quando chegaram ao Brasil, e as coisas não estavam a correr muito bem.

“É preciso perder para depois se ganhar. E mesmo sem ver, acreditar.” Os versos da música de Mariza que dão alento a Jorge Jesus.

Custou a arrancar, mas o tempo que passou no Brasil foram para o treinador português de muitos sucessos. O que o fazia pensar que continuaria por lá, pelo menos, mais um ano. Mas a pandemia trocou-lhe as voltas e o Luís Filipe Vieira deu o empurrão que faltava. “Trabalhei seis anos com ele, é o presidente que mais tempo trabalhou comigo, é o que melhor me conhece, e eu também o conheço muito bem. O projeto que tem para o Benfica é ambicioso, vencedor, para mudar o paradigma desportivo da última época.”

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“Só ele é que me poderia convencer a vir”, diz Jesus sobre Vieira.

Jesus conta como Vieira o queria convencer a assinar por quatro anos, mas ele só queria contrato por um ano. “Não queria que as pessoas pensassem que eu vinha para Portugal para me reformar.” Na entrevista a Cristina Ferreira diz: “Tenho na minha convicção que não acabar a minha carreira em Portugal”. Por agora, tem dois anos de contrato com o clube da Luz. Depois, logo se vê.

“Ainda tenho muitos projetos na minha cabeça.”

No regresso ao clube onde passou seis anos, o treinador destaca que encontrou um clube com condições únicas. “Quando cheguei ao Benfica [em 2009/10] o clube era uma coisa. Saí ao fim de seis anos e o Benfica já era outra coisa em termos desportivos. E, depois, continuou hegemónico, conquistando mais títulos com Rui Vitória e Bruno Lage”, diz. “Cheguei agora, depois de o clube perder o campeonato, a conquista mais importante para os adeptos, e encontrei um Benfica completamente diferente, para muito melhor.”

O treinador de 66 anos não esquece aquilo que conquistou no Benfica, o primeiro título nacional, e diz que agora lhe falta “ganhar uma Champions, um Campeonato do Mundo”. E não vê na idade um problema. “Quando temos amor e paixão pelo que fazemos, a idade não conta. Tenho tanta vontade de vencer agora como quando comecei a carreira.”

Também não deixa que as mudanças de clube o afetem. Jesus foi do Benfica para o Sporting ou do Flamengo para o Benfica e diz: “Mudei porque me sinto um treinador e não o treinador de um clube”.

“O meu orgulho foi ter começado na terceira divisão e ter subido todos os escalões até chegar à primeira divisão.”

Agora no Benfica, o treinador quer ganhar e promete ser exigente como sempre foi para os seus atletas. “Muitas vezes os jogadores dizem ‘este treinador é um paizão’. Mas os jogadores não me tratam assim. Eu não sou um ‘paizão’, sou um treinador. Tenho uma forma de trabalhar e de exigir que por vezes toca algumas suscetibilidades, mas também entendo que tenho uma forma de comunicar que eles percebem.”

Pode não ser um “paizão” para os jogadores, mas Jorge Jesus é um verdadeiro homem de família e deixou-se emocionar ao falar dos que lhe são mais próximos e ao ouvir a mensagem do seu irmão José Jesus. “Fui bem educado. Fomos habituados a partilhar o pouco que tínhamos e os meus pais ainda levaram mais três para casa, éramos seis. Foi uma experiência de vida e de amor. Não nos deram uma licenciatura, mas ensinaram-nos o que é o amor e o respeito pelos outros. E isso vou sempre agradecer.”