Uma estudante lisboeta de 24 anos criou no início de 2020 uma página na rede social Instagram onde divulga imagens e histórias da arte medieval portuguesa e tem vindo a chamar a atenção de um número crescente de utilizadores. Inês Abreu diz que a Idade Média Pop, assim se chama a página, pretende chegar a um público jovem não-especializado, que não se revê na maneira clássica de divulgar a história, e garante que os conteúdos, além de originais, têm rigor científico. Mas a linguagem é contemporânea.

“Arquivo digital de aluna de mestrado de arte medieval que coleciona igrejas, santos e outras gemas do património medievo português”, lê-se no cabeçalho da Idade Média Pop, que apesar de estar no início contava esta semana mais de mil seguidores, com publicações recentes a rondar 300 likes. Ao Observador, Inês Abreu informa que está a preparar uma tese de mestrado em História da Arte, com orientação da professora Carla Varela Fernandes, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova — onde em 2017 terminou a licenciatura, que aliás a levou a fazer um estágio no departamento de escultura do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

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Na fachada principal da Sé de Lisboa, num silhar da parede à direita do portal, junto ao chão, está uma estrela de David, símbolo habitualmente atribuído ao judaísmo. Tudo parece indicar que esta foi insculpido na Sé durante o período medieval. A estrela de David, Selo de Salomão ou ainda sino-saimão e signum salomonis, tem a sua origem hebraica, segundo a tradição, nos escudos dos guerreiros que lutavam pelo rei bíblico David, que neles ostentavam este símbolo de protecção. Mas o signo não está exclusivamente ligado ao judaísmo: há milénios que é usado por civilizações do Médio Oriente, e na Europa da Idade Média surge associado a monumentos cristãos ou outros artefactos não-judaicos, nomeadamente na espada do túmulo de Bartolomeu Joanes da catedral de Lisboa, e noutras igrejas medievais, tais como a de Algosinho, ou ainda na inscrição funerária medieval de Afonso Peres em Alcobaça. Leite de Vasconcelos, no seu trabalho “Signum Salomonis. …”, também identifica outras utilizações da estrela de seis pontas, desligadas do contexto judaico: identifica-a em estelas islâmicas egípcias, moedas medievais islâmicas ibéricas, emblemas indianos, moedas gaulesas e artefactos romanos. Enquanto símbolo apotropaico, este hexalfa tinha o poder de um talismã, ligado a conotações mágicas e ocultas. No caso da Sé, sabemos que existiu um cemitério no adro da igreja durante a Idade Média e, após a demolição do mesmo na época pombalina, é bem possível que várias das suas lápides funerárias tenham sido depois relocizadas nas paredes da Sé. Este símbolo da estrela de seis pontas está insculpido no mesmo silhar no qual estão duas epígrafes funerárias do séc. XII, relativas aos cónegos Patainus e Romanel. Outro silhar mais afastado tem uma inscrição funerária de um Gonçalo (?) de Santiago e ainda noutro encontramos a gravação de uma tesoura, provavelmente da lápide de um alfaiate. A estrela de David da Sé parece ser testemunho, assim, da utilização deste símbolo em contextos não-judaicos, nomeadamente cristãos – tal como no caso de Bartolomeu Joanes – pelo seu significado mágico e de talismã protector.

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Vê a presença nas redes sociais como uma oportunidade de trabalho e caso a popularidade continue a crescer pensa vender este modelo de comunicação a instituições ou até à imprensa.

“O grande objetivo é alcançar um público mais jovem, provavelmente millennial [nascidos entre 1980 e meados da década de 90], porque a divulgação da história da arte e da história em geral está muito parada no tempo”, analisa. “Não evoluiu muito desde os programas de José Hermano Saraiva na televisão. A linguagem é muito conservadora e demasiado técnica, não consegue atingir um público mais jovem. Mesmo as páginas de instituições museológicas portuguesas têm alguma dificuldade em usar referências culturais que pessoas da minha idade percebam e nas quais se revejam.”

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Uma das publicações mais recentes fala sobre uma estrela de David na fachada da Sé de Lisboa: “Parece ser testemunho da utilização deste símbolo em contextos não-judaicos, nomeadamente cristãos, pelo seu significado mágico e de talismã protetor”, lê-se. Outra publicação, mais antiga, exibe o pormenor de uma escultura, com este texto a acompanhar: “Na exposição de escultura portuguesa do Museu Nacional de Arte Antiga está uma das minhas peças de imaginária medieval favoritas — um São Bartolomeu de meados do século XIV, com uma iconografia incomum no país e, vamos ser sinceros, um pouco horripilante para os mais sensíveis: um Bartolomeu que traz aos ombros a sua própria pele esfolada. Em Portugal, durante a Idade Média, preferiram-se outros dois modelos de representação deste santo, nos quais é representado com uma faca na mão, eufemismo mais simpático e menos gráfico para o seu esfolamento, ou com o demónio acorrentado e amansado a seus pés.”

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#repost Na exposição de escultura portuguesa do MNAA está uma das minhas peças de imaginária medieval favoritas – um São Bartolomeu de meados do século XIV, com uma iconografia incomum no país e, vamos ser sinceros, um pouco horripilante para os mais sensíveis: um Bartolomeu que traz aos ombros a sua própria pele esfolada. Em Portugal, durante a Idade Média, preferiram-se outros dois modelos de representação deste santo, nos quais é representado com uma faca na mão, eufemismo mais simpático e menos gráfico para o seu esfolamento, ou com o demónio acorrentado e amansado a seus pés. São Bartolomeu foi um dos bíblicos Doze selecionados por Cristo para levar a sua mensagem pelo mundo fora. A iconografia escolhida pelo escultor para a sua representação não tem, porém, origem bíblica, mas refere-se antes a uma narrativa apócrifa na qual o apóstolo sofre uma pena em Albanópolis por ordem do rei Astiago como castigo pela sua propagação da fé cristã em terras pagãs. Já na Lenda Dourada, fonte hagiográfica do século XIII, o seu autor relata o seu martírio, durante o qual o santo é crucificado, decapitado e finalmente esfolado, culminando na sua morte. Matar um apóstolo não era fácil. Esta iconografia, no entanto, mostra Bartolomeu com a sua própria pele às costas, com um ar sereno e sorridente. A sua pele não é mais do que uma roupa para o corpo, insignificativa, portanto, para um homem santo. Esta analogia simbólica da pele/roupa foi explorada pelo autor da peça: não fossem as mãos do santo em cada ponta da sua pele esfolada e o observador até pensaria que o apóstolo tinha acabado de sair do banho com uma toalha pousada à volta do pescoço. A pele é onde estão gravadas as nossas cicatrizes, rugas, características faciais, cabelo, ou seja, a nossa identidade física – e é por isto que, na Idade Média, o acto de esfolar era um acto simbólico de anulação identitária. Este jogo visual e simbólico entre a pele de São Bartolomeu e a roupa trazem assim um significado mais profundo a esta imagem do MNAA e à sua iconografia: por Deus, o santo sacrifica, felizmente (ele até sorri!) a sua pele – a sua mortalidade – em detrimento do seu novo corpo eterno, puro e celeste.

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“Vi um senhor a sair da igreja e ele é que nos abriu a porta”

No dizer de Inês Abreu não havia até ao início deste ano qualquer projeto online exclusivamente dedicado à arte medieval portuguesa e muito menos com a abordagem pop que autora pretende imprimir. “Há mais de um ano que andava a pensar criar um espaço na internet onde pudesse partilhar ideias, textos e imagens, mas não sabia bem em que plataforma ou com que linguagem”, conta.

“Sempre tive algum receio de me expor. O meio da história da arte é bastante exigente, há sempre pessoas atentas ao que escrevemos e ainda bem. Finalmente, em janeiro decidi avançar e achei que o Instagram seria a melhor opção, porque é uma plataforma de cliques e reações mais instantâneas e focada na imagem. Não queria uma página sobre arte medieval portuguesa com textos extensos e densos, que aborrecessem as pessoas, mas sim textos resumidos, com informações importantes e interessantes”. Entretanto, também criou uma página Idade Média Pop no Facebook, mas esta é menos popular e pauta-se pela republicação de conteúdos de outros utilizadores.

A autora não se limita a reproduzir fotos já existentes na internet ou a escrever textos com base em investigações e livros já conhecidos. Vai mesmo aos sítios, é ela a autora das fotografias, fala com pessoas que lhe contam histórias e com isso enriquece os conteúdos que publica. No último fim de semana, por exemplo, esteve na Guarda, com os pais, e aproveitou para visitar o museu regional — o que também lhe interessava para recolha de informações no âmbito da tese de mestrado.

“Estávamos em Valhelhas, um sítio muito bonito perto da Guarda, e quis ir fotografar a igreja matriz, mas a igreja estava fechada, o que é muito comum nos sítios rurais”, recorda. “Como sempre, tive de ir falar com os locais, à espera de encontrar alguém que tivesse a chave e pudesse abrir a porta. Normalmente, estas pessoas vivem perto das igrejas. Ninguém sabia. Finalmente, vi um senhor a sair da igreja, que pelos vistos já tinha sido presidente da Junta de Freguesia, e ele é que nos abriu a porta. Disse-me que atrás do altar principal havia frescos medievais, que não são visíveis aos visitantes. Abriu uma porta pequenina do altar, o que me permitiu ver e fotografar as pinturas murais.”

Em breve, aquele episódio dará mote a uma das publicações. Inês Abreu não tem dúvidas de que “há lendas e pormenores que não estão na internet, muitas vezes só são do conhecimento das comunidades locais”. Por isso, conclui: “É mesmo preciso ir aos sítios”.

“Espero conseguir monetizar”

Além de preparar o mestrado, Inês Abreu tem uma pós-gradução em história medieval e, noutra área totalmente distinta, colabora com o site Rimas e Batidas, para o qual fotografa músicos. Com duas amigas, formou entretanto o coletivo de DJs M3DUSA, que mistura música de mulheres do hip-hop e do R&B. Um dos objetivos profissionais é o de fazer crescer a Idade Média Pop e “vender o modelo a câmaras municipais ou instituições museológicas ou a órgãos de comunicação social”. Uma rubrica na rádio e na imprensa escrita, ou talvez um canal no YouTube com visitas guiadas, são algumas das hipóteses.

“O meu pai, que é uma das referências principais da minha vida, diz muitas vezes que tenho de criar o meu lugar no mercado de trabalho em Portugal. Na História da Arte e na História há quase sempre três saídas: professora, museóloga ou investigadora. São três áreas que adoro, mas se calhar vai ser muito difícil e tenho de começar a pensar como sobreviver e sustentar-me. Por isso, o Idade Média Pop é um projeto que levo muito a sério e que espero conseguir monetizar.”

Deslumbrada desde há muito pela Idade Média, a autora da página considera este período da história — que começa em 476, com a queda do Império Romano do Ocidente, e termina segundo alguns historiadores em 1453, com a queda do Império Romano do Oriente — é cada vez mais apelativo para o grande público, sobretudo em Portugal, que nasceu como país neste mesmo período.

“Penso que as pessoas olham a Idade Média como uma fase irracional, de fanatismos, lendas, magia, bruxas. Estamos cada vez mais distantes desse período e o que define o nosso tempo, que é a tecnologia, não existia”, resume. “Aquele era um mundo desprovido de todos os sistemas que conhecemos agora, desde logo os telemóveis e os ecrãs constantemente presentes na nossa vida. O interesse coletivo virá daí: a Idade Média é considerada o oposto do que temos hoje.”