Era hora da flash interview, Jorge Jesus estava no local marcado, o jornalista da BTV também. No estádio, porém, o volume da música era ainda muito elevado e tornava quase impossível a comunicação entre treinador e jornalista. E Jesus, como é seu apanágio, não escondeu o desagrado. Queixou-se do barulho, tentou começar a falar mas interrompeu porque não estava “concentrado” e soltou um “agora sim!” quando a música finalmente parou. E só a partir daí se percebeu o que o técnico encarnado tinha realmente achado da vitória contra o Moreirense.

Rúben pegou na braçadeira, cabeceou de olhos fechados e marcou. E um clube inteiro já está cheio de saudades (crónica do Benfica-Moreirense)

Foi uma demonstração de grande qualidade, num jogo que não teve nota artística. Porque este jogo tinha de ser 6 ou 7 a 0. O Benfica tinha de estar hoje melhor do que em Famalicão. Tivemos jogadas de grande qualidade técnica. Foi pena não traduzirmos isto em mais golos, que é a expressão da qualidade do jogo. Só uma equipa que faz 30 remates na baliza e marca dois golos, com a qualidade que tem. O Moreirense não criou uma oportunidade de golo. Fez um remate na primeira parte, que o Odysseas defendeu. Foi uma equipa que passou 90 minutos dentro do seu meio-campo, a jogar lá com todos os jogadores menos o Fábio Abreu, que ficava na frente. Mas, mesmo assim, não conseguiu parar a equipa do Benfica que, neste momento, já está muito difícil de parar. Falta traduzir esta qualidade de jogo em golos”, explicou Jorge Jesus, que acrescentou mais à frente que a equipa de Ricardo Soares poderia ter saído da Luz “com o saco cheio”.

“A equipa esteve bem defensivamente. O Moreirense não foi o Moreirense que no ano passado empatou aqui. Este ano nem teve hipótese de ir à nossa baliza. Com todo o respeito, é uma equipa bem trabalhada pelo treinador, que é jovem, mas hoje, como se costuma dizer, não saiu daqui com um saco cheio de golos porque não aconteceu. Parabéns à minha equipa, que fez um grande jogo”, terminou o técnico encarnado.

O Benfica venceu nas duas primeiras jornadas da Liga pela quarta época consecutiva e conquistou seis pontos em dois encontros onde, na temporada passada, ganhou apenas dois, já que empatou em Famalicão e em casa com o Moreirense. Os encarnados terminaram ainda a partida com 29 remates, o segundo melhor registo nos últimos três anos, e 71% de posse de bola e 87% de eficácia de passe. Tudo isto num jogo em que Rúben Dias foi o capitão, marcou o primeiro golo e despediu-se da equipa e da Luz, já que vai rumar ao Manchester City.

“Estou muito feliz, como é óbvio. Este foi um jogo muito importante para mim. E poder consagrar este jogo com um golo… Foi um momento especial. E acredito que toda a gente tenha noção do que se trata. As pessoas marcam. Foi sem dúvida alguma especial. A braçadeira também foi especial”, disse, visivelmente emocionado, o central encarnado na flash interview, mencionando o abraço que deu a Rui Costa logo depois de abrir o marcador.

Já na conferência de imprensa, Jorge Jesus deu como praticamente certa a saída de Rúben Dias e assumiu uma quota-parte de culpa pela transferência do central, devido à eliminação da Liga dos Campeões e à ausência desse encaixe financeiro. “Tenho quase a certeza que foi o último jogo que fez. No futebol às vezes tudo muda no último segundo, mas penso que isso não vai acontecer. Temos pena de o ver partir. É um produto do Seixal, um capitão, um jogador de Seleção… Mas eu também tenho alguma culpa por ele estar a sair. Tem a ver com a eliminação da Champions, há coisas que têm de se equilibrar e o Rúben tem um mercado alto”, explicou o treinador, que mostrou depois a vontade de contratar dois centrais, mesmo com a chegada de Otamendi.

“Já queríamos um central, com a saída do Rúben temos de contratar dois, disso não temos dúvidas. Não é fácil contratar um central para fazer face ao valor do Rúben Dias. No negócio está outro central, mas não sei pormenores, porque estava focado no jogo com o Moreirense, mas agora vamos ver. Otamendi? É um jogador que já demonstrou o seu valor no FC Porto, é um jogador da seleção da Argentina e foi sempre titular no Manchester City, só o deixou de ser agora. Claro que é um jogador que me agrada. Vai perceber que as minhas ideias são completamente diferentes das que tinha no Manchester City. Vai ter de se adaptar, caso seja ele. No caso do Rúben Semedo, que também tem sido falado, já não, pois já esteve comigo um ano e sabe perfeitamente o que quero”, acrescentou Jesus, voltando a abrir a porta à entrada do central do Olympiacos.