Lewis Hamilton nem sequer teve um resultado muito negativo em Sochi. Cruzou a meta em terceiro, atrás do vencedor Bottas e de Verstappen, mas ficou no pódio. Falhou a conquista do Grande Prémio, mas continua na liderança da classificação geral. Não conseguiu igualar o recorde de vitórias Michael Schumacher, mas o mais provável é chegar lá já na próxima corrida. Ainda assim, o piloto inglês estava para lá de insatisfeito pela forma como as coisas decorreram na etapa deste domingo.

Em resumo, Hamilton assegurou a pole-position na qualificação, arrancou bem e agarrou o primeiro lugar e era lá que estava quando o safety-car entrou em ação, logo nas primeiras curvas, devido aos acidentes de Carlos Sainz e Lance Stroll. Uma dupla penalização por fazer testes de arranque a caminho da grelha mas fora da zona designada, porém, obrigou o piloto da Mercedes a cumprir 10 segundos parado na box, algo que o atirou para o 10.º lugar: ultrapassar toda a gente até ao pódio não foi grande tarefa mas chegar ao ritmo de Verstappen e Bottas, que entretanto já tinham fugido, já não foi possível. Desde que foi castigado até ao fim da corrida, o inglês mal respondeu à equipa nas comunicações rádio e manteve-se em silêncio, levando o Mercedes até à reta da meta quase sem comentar o que se tinha passado. Os comentários ficaram para o fim.

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“Tenho a certeza de que nunca ninguém sofreu uma penalização de cinco segundos antes por algo tão ridículo. Excessivo? Claro que é. Mas já era de esperar. Eles estão a tentar parar-me, não estão? Sempre que uma equipa está na frente, fica debaixo de escrutínio. Tudo o que temos no carro é triplamente verificado, estão a mudar as regras, como as regulamentações do motor e outras coisas para manter a corrida excitante, acho eu. Não sei se as regras em termos do que aconteceu hoje têm algo a ver com isso mas é o que me faz sentir. Parece que estás a remar contra a maré mas está bem. Não é como se eu não tivesse enfrentado adversidades antes”, disse Lewis Hamilton, campeão mundial em cinco dos últimos seis anos, depois do final do Grande Prémio da Rússia. Mais à frente, o piloto acabou por garantir que a equipa vai agora preparar-se mais e antecipar este tipo de situações.

“Vamos ver o livro das regras e destacar as áreas em que eles podem criar regras, áreas em que as penalizações nunca foram dadas antes. Vamos tentar proteger-nos. Só tenho de ter a certeza de que não lhes dou razões para eles fazerem seja o que for”, terminou o piloto da Mercedes. Certo é que, apesar da dupla penalização e do terceiro lugar, as coisas acabaram por correr melhor do que o esperado para Hamilton. Este domingo, com os dois castigos, o inglês tinha atingido os 10 pontos na superlicença de Fórmula 1, ficando a apenas outros dois de ser suspenso de uma corrida futura — algo que nunca aconteceu na história da modalidade.

Ainda assim, e já depois das palavras de Lewis Hamilton, a Fórmula 1 anunciou que voltou atrás na decisão de acrescentar outros dois pontos de penalização à superlicença e do piloto e optou, ao invés disso, por multar a Mercedes em 25 mil euros. “Os comissários receberam informações da equipa de que o piloto do carro 44 recebeu instruções da equipa para realizar o teste no local incorreto. Isto foi confirmado pelos comissários através dos áudios da conversa entre a equipa e o piloto. Com base nesta informação, informamos a substituição dos pontos com a imposição de uma multa à competidora [Mercedes-AMG Petronas F1] no total de 25 mil euros”, explicou a FIA em comunicado.

A FIA, na pessoa do diretor de corrida Michael Masi, respondeu ainda às acusações de Hamilton e garantiu que “a porta está sempre aberta” para receber inputs. “Na minha ótica, é muito simples. Se o Lewis quiser levantar algum problema — tal como eu sempre lhe disse a ele e a todos os pilotos inúmeras vezes –, a porta está sempre aberta. Fico mais do que feliz por discutir qualquer coisa, mas acho que na perspetiva da FIA estamos aqui como um regulador desportivo que quer administrar os regulamentos”, disse Masi, acrescentando que não existe dualidade de critérios e que a penalização teria sido administrada a qualquer outro piloto.

Hamilton queixou-se e acabou protegido pela própria equipa. Foi terceiro mas só em situações de exceção voltará a sê-lo até ao fim do Mundial. Não bateu o recorde de Schumacher mas daqui a duas semanas a grande probabilidade é de que todas as manchetes serão sobre isso. Foi um domingo mais difícil para o piloto inglês — mas parece que tudo voltou ao velho normal em poucas horas.