As ordens dos médicos e dos enfermeiros nos Açores estão preocupadas com a retoma dos atos médicos que ficaram suspensos devido à pandemia, mas o executivo regional acredita que é possível não aumentar as listas de espera em 2020.

Num ano marcado pela pandemia de Covid-19, a retoma da normalidade no circuito não dedicado a esta doença foi uma das questões levantadas pelos agentes do setor.

“Preocupa-nos principalmente os doentes que, nesta fase pandémica, ficaram para trás”, afirma à agência Lusa Pedro Soares, presidente da secção regional da Ordem dos Enfermeiros.

Pedro Soares acredita que, “até agora, a região conseguiu responder, dentro daquelas que são as suas limitações”, à situação pandémica, mas espera que tenha saído da primeira vaga com algumas lições aprendidas.

“A conclusão a que a Ordem dos Enfermeiros chega é que, em termos de recursos humanos, não aprendemos a lição”, afirma o dirigente, que se queixa de falta de enfermeiros no Serviço Regional de Saúde, mas espera que “se tenha aprendido que é necessário ter equipamentos de proteção individual em quantidade e que haja um circuito para doentes Covid separado de doentes ‘não-Covid'”.

Esse circuito existe, mas “é preciso melhorias, porque as listas de espera aumentaram drasticamente”, o que, considera o enfermeiro, “é sinal de que o circuito ‘não-Covid’ precisa de ser melhorado”.

A retoma dos atos médicos que foram suspensos para canalizar meios para o circuito dedicado à Covid-19 é também uma preocupação da Ordem dos Médicos, que defende que, “neste momento, há que verificar claramente o que não foi feito”, afirma a presidente da secção regional, Isabel Cássio.

“Não sabemos quais são os números da região e precisamos de saber, claramente, que consultas não foram feitas, que exames complementares de diagnóstico não foram feitos, que cirurgias não foram feitas. A partir daí é que podemos fazer um planeamento calendarizado, com objetivos mensuráveis”, defende a médica.

A dirigente desta ordem profissional lembra que já existiam “problemas com listas de espera para consultas, com listas de espera para exames de diagnóstico e terapêutica e com listas de espera para cirurgias”.

“A retoma da atividade assistencial aos outros doentes, na nossa opinião, foi feita tarde demais, e ainda não está retomada a 100%, não havendo uma noção clara do que não foi feito e de como se vai recuperar”, prosseguiu.

Sobre esta matéria, a secretária regional da Saúde, Teresa Luciano, garantiu à Lusa que “tudo o que era prioritário e urgente foi realizado”, mesmo durante o pico do surto na região.

Quanto à retoma, a governante adianta que foi feito um “ponto de situação do que foi realizado” e que todos os meses é feita uma validação dos dados, comparando com o mesmo período do ano anterior.

“O compromisso com as unidades foi de elaborar um plano de retoma para que se fizesse, no ano de 2020, exatamente igual ou o mais próximo possível dos atos realizados em 2019”.

A secretária regional adiantou ainda que, “neste momento, a título de exemplo, o hospital da Horta e o hospital da ilha Terceira, só no mês de julho, já realizaram mais cirurgias do que em igual período do ano anterior” e que, no caso do hospital de Ponta Delgada, “o ponto notório dessa retoma é a partir do mês de setembro”.

Nas consultas, o recurso à telemedicina permitiu que a situação não se agravasse drasticamente.

Quanto às lições que a Ordem dos Enfermeiros afirmava ser necessário retirar, Teresa Luciano admite que “é um facto que, quer os profissionais, quer as estruturas, estão melhor preparados agora do que em janeiro deste ano para esta situação”.

A secretária regional afirma que “na região nunca houve falta” de equipamentos de proteção individual”, mas sim “um racionamento destes equipamentos”, que eram “monitorizados ao dia”.

“Neste momento, continuamos com a monitorização diária dos equipamentos de proteção individual, não só nos hospitais e centros de saúde, mas também com o serviço regional de proteção civil e os corpos de bombeiros. Avaliamos médias e medianas de consumo, diário, quinzenal, etc. e vamos gerindo esses ‘stocks’. Temos ‘stocks’ para nove meses, neste momento”, concretiza.

Mas, em termos de lições e melhorias para o Serviço Regional da Saúde, a secretária regional aponta que o surto pandémico “acabou por trazer uma coesão entre hospitais, unidades de saúde de ilha e a Secretaria Regional da Saúde”.

“Percebemos que, cada vez mais, já o sabíamos, mas o trabalho em equipa, a coordenação e falarmos todos a mesma linguagem é fundamental”, reitera.

Uma coordenação, aliás, que a Ordem dos Médicos reivindica, já que permite uma melhor gestão dos médicos especialistas na região.

Isabel Cássio pede um “plano estratégico muito concreto” que faça um levantamento das necessidades em todas as ilhas, permitindo uma melhor alocação dos recursos, e “isso implica uma interligação entre os três hospitais, nomeadamente no intercâmbio de médicos”.

Reconhecendo que há espaço para melhorias, a secretária regional mencionou que, “relativamente às especialidades hospitalares, neste momento já estão a ser feitas reuniões periódicas entre os três conselhos de administração para essa interligação e, inclusivamente, na época covid, o Hospital do Divino Espírito Santo [em Ponta Delgada] ajudou o Hospital do Santo Espírito, na Terceira, em determinadas especialidades, porque havia alguma carência”.

“Sim, estamos em melhoria contínua, sim, podemos melhorar, sim, estamos a trabalhar”, finalizou a governante.

Gestão dos recursos humanos é maior preocupação na área da saúde

Os recursos humanos são a maior batalha na área da saúde nos Açores, com médicos e enfermeiros a pedirem uma melhor gestão dos recursos e o Governo Regional a lembrar a contratação de pessoal, mas admitindo que pode haver melhorias.

Reconhecendo a importância dos recursos humanos, a secretária regional da Saúde, Teresa Luciano, refere que o Serviço Regional de Saúde cresceu em “cerca de 300 profissionais de saúde, em quatro anos, nas nove ilhas”.

A governante adianta que, com as cinco vagas de medicina geral e familiar que estão a concurso na ilha Terceira, a região vai “chegar à cobertura total” nos cuidados primários.

“Neste momento, quase 230 mil utentes têm médico de família”, afirmou, esclarecendo que, assim que terminar o processo concursal, que já passou a fase da entrevista e agora aguarda o cumprimento “dos prazos legais”, “administrativamente, todos os açorianos terão médico de família”, uma conta que é feita dividindo o “número de médicos de medicina geral e familiar pelo número de açorianos”.

Ainda assim, o executivo vai “abrir mais algumas vagas de medicina geral e familiar porque, se houver alguns médicos que estejam a pensar em reformar-se, assim faz-se um reforço” que poderá permitir “reduzir o número de pessoas nas listas e fazer mais programas transversais, como de domicílio, [cuidados] paliativos, saúde escolar”.

Ainda assim, o executivo vai “abrir mais algumas vagas de medicina geral e familiar porque, se houver alguns médicos que estejam a pensar em reformar-se, assim faz-se um reforço” que poderá permitir “reduzir o número de pessoas nas listas e fazer mais programas transversais, como de domicílio, [cuidados] paliativos, saúde escolar”.

Mas a visão da Ordem dos Enfermeiros não é tão otimista como a da responsável pela tutela.

“A nível de enfermagem, a grande preocupação baseia-se muito no número de profissionais no terreno”, avança Pedro Soares, referindo que “é necessária a contratação e, acima de tudo, haver algum tipo de contrapartida para a alocação destes recursos nas ilhas mais pequenas”.

“A evolução não está a ser feita ao mesmo tempo em todas as ilhas e isso causa algumas assimetrias. Se é verdade que nas ilhas onde os hospitais existem há outras condições, também é verdade que não pode haver hospitais em cada ilha. Agora, também é verdade que temos de dar condições a todos os açorianos para que tenham uma acessibilidade igual aos cuidados de saúde”, prossegue.

As próximas eleições para o parlamento açoriano decorrem em 25 de outubro.

O PS governa a região há 24 anos, tendo sido antecedido pelo PSD, que liderou o executivo regional entre 1976 e 1996.