Em 1977 uma jovem atriz, grávida de cinco meses, perdeu a vida ao cair da varanda de sua casa. A queda do quarto andar, a 23 de agosto, deixou Sandra Mozarowsky em coma durante 22 dias para, no final, acabar por morrer quando estava prestes a completar 19 anos. Mais de 40 anos após o episódio, os rumores de uma possível ligação da atriz ao atual rei emérito de Espanha subsistem, ainda que não haja quaisquer provas, bem como as dúvidas em torno da misteriosa morte de Mozarowsky e uma eventual implicação de Juan Carlos.

Também em 1977, Juan Carlos tinha assumido a liderança do Estado nem há dois anos na sequência da morte do ditador Franco. Espanha começava a abrir-se aos poucos em busca de liberdade, com mudanças a sentirem-se também no sector da cultura, em particular no universo do cinema com a explosão de um novo género, o “cinema de destape“, marcado pela sensualidade e pelo erotismo das películas, nas quais era comum as mulheres despirem-se. O contexto ajuda a explicar a fama de Mozarowsky, que se sagrou num dos nomes mais conhecidos nesta indústria, pese embora tenha falecido com apenas 18 anos.

Filha de pai russo e mãe espanhola, o “estranho” acidente, tal como refere a imprensa espanhola, fez manchetes em revistas e jornais da época, com o assunto a voltar à tona da água mais de quatro décadas depois por diferentes motivos: seja porque a escritora espanhola Lucía Etxebarria dedicou alguns tweets ao assunto, seja porque o polémico jornalista Javier Bleda prepara um livro sobre esta história, com o nome “Su Majestad Sandra Mozarowsky: la reina rota del cine español”. Isto numa fase em que os escândalos não deixam de morder os calcanhares do rei emérito.

No Twitter, Etxebarria enumera algumas das ideias que permitiram que os rumores sobre o caso não caíssem no esquecimento: que nos círculos de Madrid a jovem atriz “se relacionava intimamente” com Juan Carlos e que a autópsia feita ao corpo desapareceu “misteriosamente”. O La Razon recorda que antes de Lucía Etxebarria, outros escritores dedicaram-se ao tema, incluindo Clara Usón com a obra “O Assassino Tímido”, e Andrew Morton, o biógrafo oficial de Lady Di, que refere a jovem no livro “Ladies of Spain”.

Segundo a publicação acima citada, nunca se chegou a confirmar a hipótese de suicídio uma vez que a autópsia desapareceu “misteriosamente” dos arquivos policiais, ainda que a investigação tenha concluído que a queda do quarto piso, no apartamento onde Sandra vivia em Madrid, resultou “numa morte provocada e desejada”. A ideia de que a atriz tirou a própria vida foi contestada por amigos e familiares. A suposta ligação a Juan Carlos ajudou à proliferação dos rumores que duram até hoje.

Um mês antes da sua morte, Sandra deu uma entrevista a uma revista espanhola durante a qual ocultou a gravidez e na qual abordou o fim da relação com um ator mexicano, além do facto de afirmar que queria abandonar o género de filmes onde costumava figurar. Ao entrevistador, a jovem atriz que até à data já tinha participado em 21 títulos, deixou fugir o lamento: “Só me oferecem papéis em que tenho de me despir”. Nessa mesma entrevista deixou claro que queria ir para Londres estudar representação: “Quero preparar-me, continuar a fazer o que mais gosto, que é cinema… Não quero ser um objeto (…) Quero tornar-me numa atriz e não ter apenas de mostrar um corpo. Não vão voltar a ver uma foto minha sexy”.

Como assinala o El Español, o facto de Sandra ter estado alegadamente envolvida com Juan Carlos, juntamente com o rumor de que tinha intenções de desabafar sobre o caso a uma revista italiana, provocou mais de quatro décadas de rumores, embora nunca tenham existido provas capazes de os sustentar.