João Concha, responsável por uma editora lisboeta de poesia e teatro, esteve quase seis meses sem poder fazer apresentações de livros. Eles foram impressos e distribuídos nas lojas, mas por causa das normas sanitárias perante a covid-19 os encontros do público com os autores estiveram suspensos e são agora uma raridade — o que prejudica as vendas.

“Algumas livrarias têm receio de organizar eventos, outras organizam-nos desde junho mas para grupos de dez pessoas no máximo ou com condições que dificultam momentos profícuos e agradáveis”, diz ao Observador. “Dez pessoas de máscara numa livraria pequena não é a melhor forma de celebrar a partilha de um livro. Há soluções digitais, mas essa é uma forma de apresentação com a qual não tenho afinidades”, acrescenta o editor, de 40 anos.

E, no entanto, os livros não param. Quando chegarmos a dezembro, o número de obras dadas à estampa pela editora de João Concha não deve ficar aquém da média de sete dos anos anteriores. O que significa que as normas sanitárias, pelo menos neste caso, têm sido um obstáculo que se vai contornando.

A Não Edições, assim se chama a editora, foi fundada há sete anos e no catálogo inclui autores como Golgona Anghel, José António Almeida ou Valério Romão. Os livros costumam ter tiragens de poucas centenas e são acompanhados de ilustrações e trabalhos visuais de artistas como André da Loba, Júlio Dolbeth ou Sónia Baptista.

É essa ligação entre a palavra impressa e o cuidado na apresentação visual — “a ideia de que o suporte livro tem uma identidade material que deve ser pensada em consonância com o texto”, como resume aquele responsável — que leva a Não Edições a participar na Feira Gráfica de Lisboa, encontro anual de artes visuais, editores, livreiros e leitores que regressa este sábado para a terceira edição. Além disso, João Concha integra um dos quatro debates programados para a Feira Gráfica, sob o tema “Publicar em tempo de pandemia: constrangimentos e oportunidades”.

Uma “exposição de edições independentes e de livros de artista” marca a edição deste ano da Feira Gráfica de Lisboa (FILIPA PINTO MACHADO)

“Claro que não vamos vender um décimo do que era costume”

Desta vez, ao contrário do que vinha sendo hábito, a Feira Gráfica não acontece no Mercado de Santa Clara, perto de Santa Apolónia, e sim no Pavilhão Branco do Museu de Lisboa, no Campo Grande — até 11 de outubro, das 14h30 às 19h00, com entrada livre e dez pessoas de cada vez. Os sete mil visitantes diários das outras duas edições não será por certo imaginável este ano.

A organização do espaço é nova: bancas de livros e debates com público dão lugar a uma “exposição de edições independentes e de livros de artista”. Estarão representadas dezenas de editoras, publicações e autores de nicho maioritariamente sediados em Portugal: Abysmo, Averno, Barricada de Livros, Companhia das Ilhas, Edições Húmus, Imprensa Canalha, Kunsthalle Lissabon, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Pierre von Kleist, STET, entre muitos outros. Apresentam “objetos da cultura impressa” saídos nos últimos 10 meses. Serigrafias, t-shirts ou desenhos também têm lugar.

Há possibilidade de compra e venda no local, mas a maior parte das transações acontece através da internet — num modelo híbrido, presencial e virtual, que se deve à pandemia, de acordo com a organização, a cargo da Câmara de Lisboa, com o apoio da EGEAC (empresa municipal de cultura de Lisboa).

Um dos objetivos da feira é o de demonstrar que os livros não estão confinados, que a edição de nicho é possível num período de crise. Tanto assim que “Continuar a Publicar!”, com ponto de exclamação, é o tema genérico desta terceira edição. “Os editores e os artistas tiveram a força de continuar a publicar nestes meses e esse ato de resistência está patente no tema”, resume Filipa Valladres, comissária da Feira Gráfica e responsável pela livraria STET, em Alvalade.

“Temos situações muito díspares. Se há pessoas que faziam fanzines com fotocópias e nem isso hoje é viável porque ficaram financeiramente afetadas pela pandemia, também surgiram editoras novas e outras que passaram a vender mais pela internet. Claro que não vamos vender um décimo do que era costume, mas vamos dar a ver e a conhecer”, explica Filipa Valladares.

O programa online divide-se entre lançamentos (por exemplo, na segunda-feira, dia 5, o livro Singular Form, da artista visual Ana Margarida Matos) e quatro debates. A saber:

domingo, 4, 16h30: “Ativismo Gráfico — O território da edição como espaço de afirmação de identidades”, com Cecil Silveira, André Teodósio, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Rodrigo Saturnino e Sílvia Prudêncio, com moderação de Filipa Valladares e Xavier Almeida;

segunda, 5, 18h00: “A criação como afronta”, com António Cabrita, Gisela Casimiro e Regina Guimarães, com moderação de Emanuel Cameira;

quarta, 7,  19h00: “Publicar em tempo de pandemia: constrangimentos e oportunidades”, com Bruno Borges, Joana T. Silva, João Concha e João Paulo Cotrim, com moderação de Filipa Valladares e Xavier Almeida;

sábado, 10, 18h00: “Independência e apoios à edição: uma relação incompatível?”, com Alex Vieira, Catarina Domingues, Celina Brás e Nuno da Luz, com moderação de Emanuel Cameira e Gonçalo Duarte.

[vídeo divulgado pela Feira Gráfica com um resumo da edição do ano passado]

“Componente online reforçou-se e muito por causa da pandemia”

Antecipando o que irá dizer no debate de quarta-feira, João Concha assinala que “a circulação e a maneira como o livro é partilhado com os leitores tem tido muitos constrangimentos”. Refere-se ao encerramento compulsivo do comércio, devido à declaração de “estado de emergência” pelo Presidente da República, a 18 de março. As livrarias puderam continuar a trabalhar, mas de porta fechada, com “vendas pelo postigo”, na expressão que ficou consagrada. O decréscimo de vendas superou, grosso modo, 80% e muitas livrarias optaram pelo encerramento total durante largas semanas, caso de grandes cadeias como a FNAC ou a Bertrand.

“É importante pôr os livros a falar com os leitores. No caso da poesia, que me diz particularmente respeito, os leitores não puderam ouvir poemas em sessões de leituras ou em apresentações dos livros. Aí, os constrangimentos têm sido vários e isso repercute-se em dificuldades económicas para os editores.”

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A Não Edições só voltou às apresentações de livros em inícios de setembro, com Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos, de Susana Araújo, no jardim da Biblioteca Municipal de Belém. Mas, por exemplo, o livro de estreia de Inês Francisco Jacob, Sair de Cena, não teve apresentação pública em maio, quando da publicação, e tentativas não faltaram. “Os espaços que contactámos não respondiam, não aceitavam acolher eventos ou colocavam entraves que tornavam impossível avançarmos”, lamenta João Concha. Só já em setembro é que se deu a apresentação de Sair de Cena, na Livraria Poesia Incompleta, em Lisboa.

As edições propriamente ditas foram acontecendo. As vendas pela internet também — vendas de livros em papel, já que os livros eletrónicos não são um formato que interesse a esta editora.

“Sempre vendemos mais nas livrarias, mas a componente online, que é importante, reforçou-se e muito por causa da pandemia. Muitos leitores, até do Brasil, que nem sei se seriam nosso leitores habituais, fizeram-nos pedidos diretos, por email, por exemplo, o que em alguns casos permitiu uma proximidade nova com o leitor. Alguém que perguntava por um livro tinha também perguntas de pormenor ou de fundo sobre a edição”, descreve o editor.

Neste sentido, fazendo  ligação com o título do debate em que vai participar, João Concha admite que, através da internet, conseguiu “uma maior proximidade com alguns leitores, num tempo paradoxalmente marcado pelo distanciamento físico”. O responsável pela editora também estimulou isso, ao pedir a leitores e autores em confinamento que gravassem excertos de livros com a própria voz, que foram compilados e ainda estão disponíveis na página da Não Edições na plataforma SoundCloud.

Que outros problemas irá o sector do livro enfrentar nos próximos tempos e que oportunidades estão à espreita, talvez o debate de quarta-feira esclareça.

Notícia alterada às 11h18, com informação adicional sobre a apresentação do livro Sair de Cena.