A oficialização do acordo entre W52 e FC Porto foi tudo menos pacífico no final de 2015, até porque uns dias antes a equipa tinha sido apresentada em Alvalade com o Sporting num contrato que nunca chegou depois a passar a realidade. Todavia, e a partir do momento em que seguiu em frente, cedo se percebeu que estava ali a equipa que iria dominar os próximos anos do calendário nacional, como acontecera antes com a W52-Quinta da Lixa. E se os dragões já tinham conquistado entre outras modalidades o penta no futebol (único no país, entre 1994 e 1999), no hóquei em patins (dez títulos seguidos de 2002 a 2011) e no andebol (sete Campeonatos entre 2009 e 2015), no ciclismo era uma questão de tempo. E esse tempo chegou esta segunda-feira, em Lisboa.

Depois do triunfo de Gustavo Veloso no prólogo, um curto contrarrelógio de menos de oito quilómetros, Luís Gomes ganhou no Alto da Santa Luzia com os portistas a controlarem a tirada e Amaro Antunes foi o mais forte na chegada à Senhora da Graça. Ainda haveria outras tiradas de relevo, como aquela que terminou na Torre, mas o avanço estava ganho e a equipa de Nuno Ribeiro conseguira uma almofada de conforto que permitiu uma gestão bem pensada do resto da prova até ao decisivo contrarrelógio final em Lisboa, de 17,7 quilómetros, num feriado de 5 de outubro especial não só para os muitos adeptos que saíram à rua da capital mas também para outro nome carismático do ciclismo nacional, Marco Chagas, antigo vencedor da Volta por FC Porto e Sporting que colocou um ponto final na carreira há exatamente 30 anos (quando tinha “apenas” 33 anos).

Muda o nome, continua o domínio azul e branco: Amaro Antunes vence na Senhora da Graça e conquista amarela a Veloso

Os tempos mudaram e foi por isso que, a par do favoritismo de Amaro Antunes para a camisola amarela, havia uma possível surpresa à espreita entre as legítimas aspirações de Frederico Figueiredo de recuperar os 13 segundos de desvantagem para o corredor da W52 FC Porto: Gustavo Veloso, antigo vencedor da Volta em duas ocasiões (em 2014 e 2015) que curiosamente nunca tinha ganho a competição com a camisola dos azuis e brancos, e que, apesar de ter 1.13 minutos de atraso, surgia também como possibilidade ao triunfo da etapa e da própria Volta, num final emocionante como aconteceu em grande parte desta edição especial que, acrescente-se, trouxe uma excelente réplica da Efapel, da Rádio Popular-Boavista e do Tavira pelos lugares da frente.

Com Anthony Delaplace, da Árkea-Samsic (equipa que brilhou em etapas consecutivas, pelo trabalho para duas vitórias ao sprint de Daniel McLay), a ter o melhor tempo na saída dos dez primeiros classificados (21.51), depois da liderança provisória de Rafael Reis (Feirense), António Carvalho, oitavo classificado a 2.15 minutos que ganhara na véspera em Setúbal depois de um grande trabalho em etapas anteriores para Jóni Brandão, ficou com a melhor marca (21.42) mas as atenções já estavam centradas nos três primeiros, com Gustavo Veloso a confirmar todo o seu potencial em contrarrelógio e Amaro Antunes a ter uma ligeira quebra a meio que foi recuperada para o triunfo final na competição, sucedendo a João Rodrigues já depois das vitórias de Rui Vinhas e Raúl Alarcón. A vitória na etapa, essa, pertenceu a Gustavo Veloso, com o tempo de 21.34… aos 40 anos, que permitiu ainda ficar com o segundo lugar de Frederico Figueiredo, que deu tudo mas não aguentou a vice-liderança na corrida. E, puxando um pouco o filme atrás, a diferença final entre os companheiros azuis e brancos ficou nos 43 segundos.

“Agora já posso respirar um pouco de alívio… Foram dias de muita tensão mas era o que dizia, tinha de ser dia a dia. Sentia-me bastante confiante pelo grupo que tinha, não há palavras para os meus colegas. Foram incansáveis, deram tudo por mim. Hoje quando parti para o contrarrelógio só pensava que podia ganhar para retribuir o esforço todo que eles fizeram por mim. Tenho vindo a fazer um percurso bastante bonito, talvez tenha faltado um pouco de sorte em certos momentos, mas, felizmente, fazendo as coisas bem, ele mais tarde ou mais cedo chega. É incrível, não consigo explicar. Sinto-me realizado e, acima de tudo, quero agradecer a este grupo, ao Nuno Ribeiro e a toda a minha equipa sem exceção por tudo o que fizeram por mim”, comentou o vencedor à RTP.

“Festejos contidos? Obviamente que sim, nem sei o que é que se pode fazer, mas isso agora é o que menos importa. O que importa é aquilo a que nos propusemos na equipa, vencer a Volta. Ainda não caí na realidade mas conseguimos e obrigado a todas as pessoas que me têm apoiado. Obrigado ao concelho de Vila Real de Santo António, à freguesia de Cacela por todo o apoio. É mais um marco que consegui conquistar”, acrescentou.