O Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina foi entregue a Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice, três cientistas que descobriram o vírus que provoca a hepatite C. De acordo com a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska (Estocolmo, Suécia), os investigadores “tiveram uma contribuição decisiva contra a hepatite transmitida pelo sangue”, que causa cirrose e cancro no fígado.

Mesmo após a descoberta da hepatite A e da hepatite B, a maioria dos casos de hepatite transmitida pelo sangue permaneceram sem explicação. “A descoberta do vírus da hepatite C revelou a causa dos casos restantes de hepatite crónica e possibilitou exames de sangue e novos medicamentos que salvaram milhões de vidas”, nota a Assembleia.

Harvey James Alter é um virologista norte-americano nascido em Nova Iorque em 1935 que conduziu todas as suas investigaões no Instituto Nacional de Saúde, no departamento de transfusões no Centro Clínico de Bethesda. Michael Houghton é britânico e investigou o vírus da hpetatite C na Chiron Corporation, na Califórnia. E Charles M. Rice, norte-americano nascido em 1952, investigou a mesma matéria na Universidade de Washington.

Hepatite C, um mistério com décadas

Nos anos 40, a comunidade científica identificou dois tipos de hepatite (uma inflamação do fígado) infecciosa: a hepatite A pode ser transmitida através do consumo de água ou alimentos contaminados com o vírus VHA, mas o agente patogénico não causava uma doença grave, nem sequelas preocupantes; e o organismo adquiria imunidade ao vírus.

Já a hepatite B podia ser transmitida pelo sangue e pelos fluidos corporais; e podia levar ao desenvolvimento de cirrose e de cancro no fígado. A doença é especialmente preocupante porque o vírus pode alojar-se em indivíduos saudáveis durante muitos anos antes de se manifestar. Havia milhões de pessoas a sofrer de hepatite B — tantas que a dimensão deste problema comparava-se ao da sida ou da tuberculose.

A descoberta do vírus da hepatite B foi premiada com o Nobel da Medicina em 1976, entregue a Baruch Blumberg, microbiólogo. Nessa época, Harvey J. Alter estudava os pacientes que haviam adquirido o vírus da hepatite B à conta de transfusões de sangue, mas descobriu que, mesmo após o tratamento, alguns desses doentes continuavam doentes. Percebeu-se então que deveria haver outro vírus a provocar estes casos inexplicáveis de hepatite: era a “hepatite não A, nem B”, chamou-lhe a comunidade científica.

Nenhuma das técnicas utilizadas até ali para identificar os vírus causadores de doenças resultavam para a nova forma de hepatite C. Mas Michael Houghton, um virologista que trabalhava na Chiron Corporation, inventou uma. Primeiro, criou uma biblioteca de fragmentos de ADN com origem nos ácidos nucleicos (as moléculas que compõem os genes) encontrados no sangue de um chimpanzé infetado — uma parte desses fragmentos deveria pertencer ao vírus — não ao próprio animal.

Depois, utilizou o plasma dos pacientes infetados com a forma estranha de hepatite para identificar fragmentos clonados da informação genética que codifica as proteínas do vírus. Esse clone veio mesmo a ser encontrado: pertencia a um novo vírus de ARN da família dos Flavivirus. Mesmo assim, não havia certezas se este novo vírus poderia provocar sozinho os inexplicáveis quadros de inflamação no fígado que Harvey J. Alter tinha identificado. Conseguiria ele replicar-se e causar a doença?

Foi Charles M. Rice quem respondeu a esta pergunta. Ao analisar o genoma do vírus da hepatite C, reparou numa região, nas pontas da cadeia de ARN, que nunca tinha sido sequenciada e que podia ter implicações na capacidade de replicação do agente patogénico; e descobriu também variações genéticas entre as amostras vindas de diferentes pacientes que, para ele, poderiam reprimir a replicação do VHC.

É aqui que entra a engenharia genética: Charles M. Rice criou uma nova variante do vírus da hepatite C que continha a região identificada por ele, mas que não tinha as características que pareciam inativar a capacidade de replicação. Essa nova variante foi injetada em chimpanzés e, ao fim de algum tempo, provou alterações patológicas semelhantes às observadas em humanos. Ficava assim provado que o vírus da hepatite C era o úncio responsável pelos casos estranhos de hepatite adquiridos por transfusão de sangue.

Esta descoberta em três passos foi essencial para desenvolver exames de sangue altamente sensíveis aos vírus da hepatite C. À conta dos avanços feitos por estes cientistas, foram desenvolvidos medicamentos antivirais contra a hepattei C e o número de casos de inflamação hepática provocados após as transfusões de sangue é agora muito inferior. “Pela primeira vez na história, a doença pode ser curada e há mais esperança de erradicar o vírus da hepatite C da população mundial”, termina a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska.

Descoberta teve “impacto à escala global”: “Era uma verdadeira pandemia”

Em entrevista ao Observador, Guilherme Macedo, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia e diretor do serviço de gastroenterologia do Hospital de São João, explica que a hepatite C “era uma verdadeira pandemia” antes dos desenvolvimentos que se seguiram à descoberta do vírus.

Agora, “desde que existe esta terapêutica, vive-se “um momento único no sentido de evitar a progressão de doenças do fígado”. Segundo o médico, já foram tratadas mais de 25 mil pessoas em Portugal. Mas há muito trabalho pela frente: “A nossa estimativa é que ainda haja 40 mil pessoas por tratar”, apontou Guilherme Macedo.

Na altura da descoberta do vírus, “as transfusões de sangue eram, numa significativa porção dos casos, responsáveis por transmitir formas de hepatite que não eram nem a A nem a B”. Nos anos seguintes, percebeu-se que a doença também podia surgir de outro tipo de contactos com produtos de sangue, como a partilha de seringas, um comportamento de risco comum em quem sofre de dependência de drogas.

De acordo com o médico, a descoberta dos três cientistas laureados “teve um impacto enorme à escala global”: “Estamos a falar de muitas centenas de milhares de pessoas infetadas com hepatite C que gozam neste momento de um diagnóstico preciso, feito com testes muito simples, e de um tratamento eficaz em quase 100% dos casos, seguro e extremamente simples”.

Graças a estes avanços, a comunidade científica propõe-se agora a erradicar a hepatite C à escala global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê fazê-lo em dez anos, mas os especialistas acreditam que “seria possível que Portugal fosse um exemplo para a eliminação da hepatite C”: “Com um plano relativamente simples e muito assertivo, em quatro ou cinco anos, no tempo de uma legislatura, [Portugal] seria muito provavelmente um exemplo para o mundo”.

Para que isso aconteça, o primeiro passo é “a identificação de todas as pessoas potencialmente infetadas”, indica Guilherme Macedo. O problema é que a hepatite C é “uma infeção silenciosa” que pode demorar entre dez e 30 anos a manifestar-se. “O vírus atua da forma mais inteligente possível. Finge que não existe e, na maior parte das vezes, nem se dá por nada. Os sintomas são muito ligeiros, como uns dias de cansaço”, descreve Guilherme Macedo.

É exatamente graças a esta capacidade de se esconder que o vírus pode passar décadas a danificar o fígado. “Vai passando a ter um processo inflamatório crónico. O fígado vai tentar defender-se, fazendo cicatrizes para que a inflamação comece a desaparecer, mas essa organização de cicatrizes faz com que, alguns anos depois, esteja completamente substituído por um órgão fibrótico”, conta o médico. Só então surgem os sintomas.

O segundo passo é o tratamento — um tratamento que, ao contrário do que acontece com outras infeções víricas, “existe, é extraordinariamente eficaz, muito simples e, em poucas semanas, qualquer indivíduo de qualquer idade pode ter uma infeção por hepatite C completamente resolvida e curada”. “São medicamentos que funcionam de forma muito simples e direta. Não são dos que exigem que se encontrem anticorpos ou cocktails. São comprimidos que se tornam diariamente”, esclarece Guilherme Macedo.

Um prémio para os maiores contributos para a humanidade

Esta distinção é entregue anualmente a quem mais tenha contribuído para o desenvolvimento da medicina. Alfred Nobel, químico sueco que inventou a dinamite, reservou 94% da fortuna à criação deste e de outros quatro prémios (Física, Química, Literatura e Paz), que deveriam ser entregues “àqueles que fizeram o maior benefício para a humanidade”.

Este ano, o vendedor de qualquer Prémio Nobel ganhará 10 milhões de coroas suecas (cerca de 956 mil euros), mais um milhão (pouco menos que 96 mil euros) que nos anos anteriores. De acordo com o Conselho de Administração da Fundação Nobel, o aumento do valor do prémio é o resultado de um “reforço económico” feito na instituição nos últimos oito anos.

Em 2019, o Prémio Nobel da Medicina foi entregue a William G. Kaelin Jr, Peter J. Ratcliffe e Gregg L. Semenza “pelas suas descobertas de como as células sentem e se adaptam à disponibilidade de oxigénio”, que “abrem caminho para novas estratégias no combate à anemia, ao cancro e muitas outras doenças”. Apesar de há muito se saber a importância do oxigénio para o funcionamento das células, mas é graças a estes três cientistas que se descobriu como é que elas se adaptam às mudanças na quantidade de O2.

Portugal já venceu um Nobel da Medicina. Em 1949, o neurologista António Egas Moniz venceu o prémio graças ao desenvolvimento da lobotomia, uma técnica de cirurgia cerebral que já não é utilizada na atualidade. Foi o primeiro de dois Prémios Nobel entregues a uma personalidade portuguesa e o único na área da Medicina.