Além de quinta-feira, há outros dias. Esta terça-feira, no Museu Nacional de Arte Antiga, é um desses dias com direito a história política. No lançamento do livro Uma experiência de Social-Democracia Moderna, Aníbal Cavaco Silva defendeu mais um capítulo do seu legado — o de primeiro-ministro — e argumentou que só nos seus mandatos em São Bento é que o PSD que conseguiu aplicar este modelo. Os outros governos PSD, “anteriores ou que se seguiram”, por “vicissitudes próprias” ou “circunstâncias do país“, não “tiveram o tempo e a oportunidade para aplicar a social-democracia”, defendeu. Pedro Passos Coelho — antigo primeiro-ministro a quem deu posse duas vezes, uma delas por 21 dias — estava na assistência a ouvir, mas não quis fazer qualquer comentário no fim: “Estou fora da conversa“.

Assinalam-se esta terça-feira, aliás, precisamente 19 anos desde a segunda maioria absoluta de Cavaco Silva. Na apresentação do livro,  o antigo primeiro-ministro sublinhou que o modelo que defendeu na altura é hoje mais necessário que nunca. Para Cavaco, uma “governação reformista orientada pelos valores da social-democracia moderna, é aquela que melhor serve as populações“, um modelo que se torna ainda mais necessário “tempo de pandemia”. Isto ao mesmo tempo que lembrou algumas das bandeiras da sua governação, como a “independência da comunicação social, o acesso aos cuidados de saúde, a economia de mercado, a livre iniciativa ou a justiça social”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em mais uma defesa do seu legado, Cavaco Silva não desvalorizou o betão. E lembra que no livro tem “informação factual” sobre como “foram executados projetos de grande vulto”, que correspondem a “infraestruturas e projetos diariamente utilizados por milhares de pessoas”. Na obra, exemplifica, estão as cartas que trocou com a Ford e a Volkwagen para a instalação da Autoeuropa em Portugal, mas também documentação sobre a construção da barragem do Alqueva.

Cavaco Silva diz que “são muitos aqueles que hoje pensam” que questões como o “ambiente e as alterações climáticas” ou o “realojamento de famílias com carência económica” são temas novos na política. Mas a esses quer lembrar que “há 30 anos estas matérias foram prioridades políticas” dos seus governos. O antigo primeiro-ministro puxou dos galões da governação (1985-1995), lembrando que alojou mais de 40 mil agregados familiares.

Segundo o próprio, outras das provas de que teve razão antes de tempo é que muitos são os que defendem que o “país precisa de atrair uma outra fábrica automóvel” dessa dimensão ou os que falam em “construir uma nova Expo” noutra zona de Lisboa.

O antigo Presidente da República assumiu que escreveu o livro também para que a “geração dos netos” saiba quem foi Sá Carneiro, a quem — contou indo ao arquivo — escreveu ao longo dos últimos anos 10 textos de homenagem. Uma questão de gratidão, disse. “Foi pela sua mão que entrei na vida política e que procurei inspiração na minha política (…) Na minha vida política nunca esqueci o que devo a Sá Carneiro”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A apresentação do livro ficou a cargo do antigo presidente do PSD e antigo ministro de Cavaco Silva, Luís Marques Mendes. O também comentador político disse que a imagem de marca de Cavaco é de uma “pessoa que gosta de trabalhar” e que atualmente há um “enorme défice de produção de pensamento de políticos e ex-políticos“. Além de que “são muitos os que gostam de falar, mas são poucos os que gostam de escrever”. “A escrita que mais contribui para a história, que vai para além da espuma dos dias”, sugeriu o antigo líder social-democrata.

Marques Mendes enumerou várias conquistas da década de governação de Cavaco Silva e explicou que o sucesso que ocorreu “não foi milagre, nem por endeusamento” de uma figura, que  “foi humana, com erros e falhas”, mas com um “balanço positivo”. O antigo líder do PSD lembrou que “habilidade política é importante, ajuda, mas não chega”. Sobre lições para o futuro, Mendes notou que Cavaco Silva era um “político de causas” e não dos que se “limitam a ocupar o poder.” Lembrou ainda que uma “forte imagem de marca de Cavaco Silva” foi a aposta na “rutura política”. E a esse propósito recordou que rompeu com com o governo Bloco Central, mesmo sabendo que isso criaria “anti-corpos dentro do próprio partido”.

Pedro Passos Coelho foi o primeiro a cumprimentar Cavaco Silva depois do seu discurso de apresentação do livro. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Cavaco Silva saiu como chegou, de mão dada com a mulher, Maria Cavaco Silva. Antes do fim da cerimónia o antigo Presidente, que esteve de máscara sempre que não esteve a falar, pediu que todos respeitassem o distanciamento social.

O ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, chegou acompanhado da antiga ministra e ex-líder do CDS, Assunção Cristas, e ficaram ambos sentados na primeira fila, junto à antiga presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves. O antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, e a ex-líder do PSD e antiga ministra de Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, também marcaram presença. O presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD, Joaquim Miranda Sarmento, e o antigo comissário europeu, Carlos Moedas, foram outros dos presentes.