Mais de 1.600 mulheres assinaram uma carta aberta ao jornal dinamarquês Politiken denunciado abusos no local de trabalho, gerando um debate em torno da igualdade de género na Dinamarca, um país onde o problema sempre foi considerado pouco significativo. Entre as mulheres que decidiram tomar uma posição em relação à questão, encontram-se 300 políticas, com relatos de comentários inapropriados e assédio sexual.

O movimento, que está a ser apelidado de #MeToo dinamarquês, começou com as declarações da comediante Sofie Linde, na Zulu Comedy Galla, um evento de comédia. Linde, a segunda apresentadora em 14 anos, fez questão de lembrar o problema na igualdade de género na Dinamarca, revelando que recebe menos do que os seus colegas apresentadores. “podemos fingir que não existe diferente entre homens e mulheres na Dinamarca. Não é verdade”, afirmou, citada pela BBC.

Linde relatou como, quando tinha 18 anos e trabalhava na rádio nacional, um dos responsáveis pela estação exigiu que ela lhe fizesse sexo oral e a ameaçou com o fim da sua carreira.

As declarações da comediante foram alvo de duras críticas, mas também geraram uma onda de apoio que começou no jornalismo, estendendo-se depois a outras áreas, como a política ou o pessoal médico, refere a BBC. Uma carta aberta foi enviada ao jornal Politiken denunciando vários abusos no local de trabalho, onde predomina uma cultura sexista, segundo as subscritoras. A carta reuniu mais de 1.600 assinaturas de mulheres que tinham sido vítimas de algum tipo de assédio ou que conheciam alguém que tinha sido.

“Queríamos que fosse uma prova”, disse à BBC a jornalista Camilla Soee, responsável pela iniciativa. “Centenas de pessoas escreveram uma história pequena ou grande sobre o que experienciaram. Foi um bocado triste ler esses emails”, admitiu, acrescentando: “Não queremos continuar a falar se existe ou não, queremos falar sobre como podemos resolver o problema”.

Desde então, muitas outras denúncias surgiram: mais de 600 médicas e estudantes de medicina assinaram uma petição online denunciado o assédio sexual e a descriminação em hospitais, clínicas e universidades, e mais de 300 mulheres na política garantiram que o sexismo existe na sua profissão.

Reagindo às declarações das colegas, cujas histórias incluem relatos de comentários inapropriados e assédio sexual, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen pediu mudanças urgentes na cultura de trabalho na Dinamarca: “É necessária uma mudança de cultura. (…) Precisamos de fazer alguma coisa em relação a isso. E vamos começar agora”, declarou no Facebook.

Já o ministro da igualdade de género, Mogens Jensen, que se reuniu com Sofie Linde, jornalistas e membros de grupos que lutam pelos direitos das mulheres na Dinamarca, admitiu que ia tentar perceber se era preciso avançar com nova legislação. “Todos os chefes têm a responsabilidade de assegurar que é comunicado com clareza que o assédio sexual, as piadas e a cultura sexista não são aceitáveis no local de trabalho e que têm consequências”, afirmou, segundo a BBC.