A pandemia do novo coronavírus agravou a situação de crise humanitária na Venezuela, em particular a alimentação, alertou esta quinta-feira o bispo de San Carlos, localidade venezuelana a 270 quilómetros a sudoeste da capital, Caracas.

Segundo o bispo Polito Rodriguez Mendez, “o pior da pandemia ainda está para vir” e a igreja Católica local mantém apoios à população com a distribuição de alimentos casa a casa, mas cuja continuidade está ameaçada pela falta de ajuda económica externa.

“A Venezuela entrou numa fase de fome. Pioramos a cada dia que passa. A economia está paralisada e o produto interno bruto está abaixo de zero”, disse o bispo à Fundação Ajuda a Igreja que Sofre (AIS-ACN).

Polito Rodríguez Mendes é uma das vozes que mais se tem erguido na Venezuela , na denúncia da crise humanitária em “um país onde falta quase tudo e onde há cada vez mais pessoas na miséria” uma situação que afeta de maneira particular os “mais pobres, os que não têm que comer nem a possibilidade de viver uma vida digna”.

“É por eles que a Igreja se bate em primeiro lugar. Precisamos de ajuda externa para poder dar-lhes algo nutritivo, pelo menos uma vez à semana”, explicou o bispo, alertando que “as pragas do Egito não são nada comparadas com o que se está a viver na Venezuela”.

Segundo Polito Rodríguez Mendes, na Venezuela “está tudo dolarizado”, os preços são afixados em dólares apesar de a população receber os seus salários em bolívares, uma moeda cada vez mais desvalorizada pela crise económica e a elevada inflação.

“Uma família ganha entre 3 e 4 dólares (entre 2,5 e 3,4 euros) mensais e uma caixa de ovos custa 2 (dólares). Antes as pessoas eram pobres, agora (a situação) é inviável. O Estado de Cojedes é conhecido pelas mangas (frutos), por isso muita gente come manga no café da manhã, ao almoço e ao jantar. Em outros lugares, não sei o que farão. Estamos há meses em quarentena e tudo ficou muito caro. É impossível continuar assim”, disse à AIS-ACN venezuelana.

Por outro lado, o bispo de Carúpano, Jaime de Villarroel, explica que os padres e as irmãs procuram desdobrar-se na ajuda às famílias mais aflitas, mas é difícil chegar a todos.

Com os refeitórios das paróquias fechados por causa da pandemia do novo coronavírus, os sacerdotes e as religiosas passaram a distribuir casa a casa também ‘kits’ de higiene com água sanitária, sabonete, luvas e máscaras, especialmente para os idosos.

“Fazemos o possível para apoiar o povo e agradecemos toda a ajuda que nos possam dar”, acrescentou o bispo de Carúpano (530 quilómetros a oeste da capital).

A Fundação AIS lançou em Portugal e a nível internacional uma vasta campanha de ajuda de emergência para a Igreja venezuelana, apelando à generosidade dos portugueses para com o povo da Venezuela, país onde residem também milhares de compatriotas.

Segundo o último Estudo Nacional de Condições de Vida (ENCOVI), elaborado pelo Instituto de Investigações Económicas e Sociais da Universidade (venezuelana) Católica Andrés Belo, “96% dos lares venezuelanos estão em situação de pobreza e 79% em pobreza extrema” dado que as receitas alcançadas são insuficientes para cobrir o cabaz básico alimentar.

“Pelo menos num de cada quatros lares a insegurança alimentar é severa”, explica o ENCOVI 2019-2020, precisando que “a Venezuela se distanciou consideravelmente dos outros países da América do Sul, aproximando-se da situação de alguns países do continente africano”.

Na Venezuela estão confirmados 80.404 casos de pacientes com a Covid-19. Estão ainda confirmadas 671 mortes associadas ao novo coronavírus e 71.531 pessoas recuperaram da doença.

A pandemia de Covid-19 já provocou mais de um milhão e cinquenta e sete mil mortos e mais de 36,2 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela