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Os EUA vão colocar na “lista negra” todo o setor financeiro do Irão, um reforço das sanções existentes que deverá ser anunciado oficialmente esta quinta-feira. A notícia, avançada por vários jornais norte-americanos incluindo o The Washington Post, surge numa altura em que a administração Trump tem sido avisada – incluindo por responsáveis europeus – que agravar as sanções ao Irão nesta fase arrisca piorar ainda mais a crise económica e financeira com que o Irão está confrontado, em parte causada pela pandemia.

Este reforço das sanções, que na prática irá fazer com que passem a estar também na “lista negra” os poucos bancos iranianos que já não estavam, é uma tentativa da administração Trump de pressionar os líderes políticos iranianos e levá-los a interromper o programa nuclear que foi retomado depois de os EUA terem, em 2018, saído do acordo nuclear que tinha sido obtido com o Irão por Barack Obama.

Uma das organizações que têm pressionado Trump a avançar com este reforço das sanções é uma organização norte-americana, com ligações a Israel, que luta por uma mudança de regime no Irão: a Foundation for Defense of Democracies. Num artigo publicado no The Wall Street Journal, Mark Dubowitz e Richard Goldberg, dois responsáveis do organismo, escreveram que “para levar o Irão a um knock out (KO) económico no 12º round, chegou o momento de o sr. Trump desferir mais um golpe: colocar na lista negra toda a indústria financeira do Irão”.

Desde janeiro que Trump deu a Mike Pompeo, o Secretário de Estado norte-americano, e Steven Mnuchin, responsável pelo Tesouro, “carta branca” para aplicar sanções a quaisquer partes da economia iraniana. Segundo o The Washington Post, a pressão feita por alguns senadores republicanos como Ted Cruz e Tom Cotton, a par do trabalho das organizações contra o regime iraniano, acabou por convencer a administração a desferir mais este golpe a uma economia que já está de rastos devido às sanções já aplicadas, ao impacto da pandemia e à quebra dos preços do petróleo.

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Também citado pelo The Washington Post, um responsável de Bruxelas (não identificado) comentou que esta decisão de criminalizar qualquer relação financeira com o Irão pode agravar a crise cambial que existe no Irão, ao ponto de tornar impossível a importação de bens alimentares e médicos, entre os quais medicamentos essenciais à sobrevivência de algumas pessoas.

O presidente irianiano, Hassan Rohani, fez no final de setembro um discurso em tom desafiador e inflamado na Assembleia Geral da ONU, afirmando que os EUA não terão outra alternativa que não seja ceder às exigências do Irão e levantar as sanções. “Não somos uma moeda de troca ligada às eleições americanas e à política interna dos EUA”, disse Rohani no seu discurso pré-gravado difundido na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Dirigindo-se a quem saia vencedor das próximas eleições presidenciais americanas, agendadas para 3 de novembro, Rohani disse que “qualquer governo saído das eleições não terá alternativa senão ceder perante a resiliência iraniana”.

EUA sem alternativa terão de ceder e levantar sanções ao Irão