“Dodeskaden”

O título deste filme, o primeiro rodado a cores por Akira Kurosawa, em 1970, é o equivalente nipónico da nossa onomatopeia “pouca-terra, pouca-terra”, que traduz o andamento de um comboio. A história passa-se num bairro de lata de Tóquio, seguindo as vidas difíceis dos seus moradores, e também as fantasias de alguns deles. É o caso de um jovem com uma deficiência mental, que julga conduzir um comboio. Um Kurosawa menor mas mesmo assim curioso, “Dodeskaden” foi um severo fracasso de bilheteira e crítica, mergulhando o realizador numa depressão, seguida de tentativa de suicídio. Só voltaria a filmar em 1975, o triunfal “Dersu Uzala — A Águia da Estepe”, na então União Soviética. Inédito em Portugal e exibido em cópia digital restaurada no ciclo 7 Filmes de Akira Kurosawa, no Nimas (Lisboa) e Teatro Campo Alegre (Porto).

“O Sal das Lágrimas”

Os filmes do já septuagenário Philippe Garrel sucedem-se e parecem-se todos uns com os outros. O protagonista de “O Sal das Lágrimas”, Luc, é um jovem carpinteiro que vem da província para Paris fazer um exame numa grande escola técnica, e um salta-pocinhas amoroso, que conquista três mulheres de rajada (o tipo de situações implausíveis que acontecem apenas nos filmes franceses “arty”) e as vai deixando pelo caminho, acabando numa posição de “quem tudo quer, tudo perde”. Tudo em “O Sal das Lágrimas” é familiar e escassamente cativante: o preto e branco tristonho, o formato peso-pluma, o realismo ao alcance da mão, as interpretações naturalistas, o carrossel das relações amorosas e a forte sensação de estarmos a ver um filme da Nova Vaga cuja data de validade caducou há muito, muito tempo.

“O Ninho”

Desde a sua primeira longa-metragem, “Martha Macy May Marlene”, em 2011, um estupendo “indie” sobre o tormento de uma rapariga que escapa de uma seita cujo líder a rebatizou, e procura adaptar-se à vida normal e reintegrar-se na família, que o canadiano Sean Durkin não rodava um filme, preferindo dedicar-se à produção. Nove anos depois daquele, Durkin regressou à realização com “O Ninho”. Jude Law interpreta  Rory O’Hara, um ambicioso gestor de fundos inglês que vive em Nova Iorque com a mulher americana, Alison (Carrie Coon), a filha adolescente e um filho mais pequeno. Rory decide regressar a Inglaterra e à sua antiga empresa em Londres, comprando uma dispendiosa e enorme mansão no campo onde se instala com a família. “O Ninho” foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.