A necessidade de um maior investimento público e da revisão do sistema regulatório são os principais desafios à internacionalização apontados pelos operadores económicos do setor da ourivesaria e relojoaria, segundo um estudo a divulgar esta sexta-feira.

De acordo com as conclusões de um inquérito desenvolvido pela Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP), com o apoio da consultora Deloitte, 87% dos respondentes concordam que o reduzido investimento público para a promoção do setor representa um obstáculo para a internacionalização das marcas e dos produtos nacionais.

Esta necessidade de investimento público é também reclamada com vista à modernização industrial do setor, à digitalização da operação e à presença internacional das empresas nacionais e da marca portuguesa de ourivesaria como um todo.

O estudo aponta ainda que 84% dos inquiridos considera relevante para a promoção da internacionalização o desenvolvimento de canais digitais que facilitem a venda internacional de produtos de ourivesaria portuguesa, de forma centralizada, para clientes B2B (Business to Business) e B2C (Business to Consumer).

Em declarações à agência Lusa, o presidente da AORP recordou que a associação tem vindo a defender a urgência de incentivar a transição do setor da joalharia portuguesa para o novo contexto da Indústria 4.0, designadamente através de uma linha de apoio que possibilite às empresas investir na sua modernização e capacitação, bem como na adoção de processos industriais mais sustentáveis.

“A reindustrialização do setor é fulcral, porque temos de trazer a indústria para o pleno século XXI”, afirmou Nuno Marinho, salientando que “o setor se autofinanciou durante todo este tempo e é agora altura de, à imagem de outros setores, haver uma aposta do Estado numa indústria que é a imagem de Portugal”.

Segundo a secretária-geral da AORP, Fátima Santos, há em Portugal “empresas que já chegaram à chamada ‘Liga dos Campeões’ e que estão a produzir para grandes marcas e a criar as suas próprias marcas”, mas o facto é que “o setor compete numa dinâmica mundial”.

E, sendo a muita manualidade a base que define a ourivesaria portuguesa — e isso não vai mudar — não há milagres, ou seja, há uma fase prévia de equipamentos, de digitalização de processos, de produção de impressões em 3D que as nossas empresas não podem deixar de lado e que nos tira competitividade”, explicou à Lusa.

A necessidade de revisão do sistema regulatório é o outro imperativo reclamado pela indústria da ourivesaria e joalharia, que tem vindo continuamente a contestar o atual monopólio estatal do sistema de certificação, considerado “um entrave à competitividade e modernização do setor”.

Conforme destaca o presidente da AORP, “no período de pandemia de Covid-19 e consequente declaração de estado de emergência, o impacto do encerramento das contrastarias evidenciou as fragilidades do sistema e a dependência absoluta do setor de uma única entidade”.

De acordo com o inquérito realizado, cerca de 80% dos operadores económicos consideram que “a falta de concorrência na atividade de certificação, a reduzida eficiência do processo atual e o respetivo custo associado” representam desafios à internacionalização do setor.

Neste contexto, a associação recorda que tem vindo a cooperar com a Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) no sentido de “identificar soluções que otimizem processos e desbloqueiem obstáculos à atividade do setor, já muito fragilizada pelo atual impacto económico”.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2018 as atividades de ourivesaria e relojoaria abrangiam um total de 3.942 empresas, das quais 714 industriais e 3.201 de comércio (por grosso, retalho e reparação), tendo registado um volume de negócios de 1.049 milhões de euros e exportações de 208 milhões de euros, contra 169 milhões em 2015.

França, Espanha, Brasil, Hong Kong e Itália são os principais mercados de exportação da ourivesaria portuguesa, enquanto a relojoaria exporta sobretudo, por ordem de importância, para Hong Kong, Estados Unidos, Suíça, França e Emirados Árabes Unidos.

Joalharia portuguesa unida em campanha internacional para relançar exportações

O setor português de joalharia apresenta esta sexta-feira uma nova campanha de promoção internacional para retomar, mesmo num contexto de pandemia, a “trajetória positiva” dos últimos cinco anos, em que as exportações aumentaram 23% para 208 milhões de euros.

“É urgente voltar a colocar o setor na sua rota de crescimento e expansão internacional, mas não podemos simplesmente retomar. É necessário ajustar estratégias e uma profunda adaptação ao novo contexto”, sustenta a AORP, salientando que “as empresas não podem nem devem fazer este percurso sozinhas, mas encontrar no coletivo a força e resiliência necessárias à sua recuperação”.

Intitulada “Portuguese Jewellery — Together We Stand”, a nova campanha visa responder à “reestruturação dos modelos de negócio” que a associação diz ter sido imposta, “de forma profunda e irreversível”, pela pandemia de Covid-19.

Conforme explicou Nuno Marinho, o objetivo é reforçar “uma mensagem de união e força coletiva como solução à recuperação da positiva trajetória que o setor vinha a registar nos últimos anos”.

Segundo o estudo da Delloite, o setor português de joalharia e relojoaria registou um crescimento de 17% do volume de negócios entre 2015 e 2018, para os 1.049 mil milhões de euros, tendo o número de trabalhadores aumentado 20%, para 10.337, e o Valor Acrescentado Bruto (VAB) progredido 15%, para 233 milhões de euros.

“Os resultados revelam um setor mais robusto, mas ainda tímido na sua estratégia de internacionalização face aos congéneres europeus”, considera a associação, segundo a qual, “apesar da dinâmica positiva registada de 2015 a 2018” nas exportações, com um crescimento de 23% para os 208 milhões de euros, “as taxas de exportação continuam muito abaixo de mercados como Espanha, França ou Itália”.

A AORP admite que “os índices de exportação podem ser ainda reduzidos”, mas lembra que “este é um percurso recente, que se iniciou de forma sólida, há apenas 10 anos e alcançou um reconhecimento notável”.

A última década foi revolucionária para a joalharia portuguesa. A marca Portugal impôs-se, tanto no segmento B2C [Business to Consumer], como B2B [Business to Business], o que revela um enorme potencial de expansão e nos obriga a encontrar novos caminhos e soluções para fazer face ao contexto pós-pandémico. E essa solução reside, sem dúvida, no coletivo”, afirma Nuno Marinho.

É nesse sentido que surge a nova campanha “Together We Stand”, promovida pela AORP e que se propõe ser “uma afirmação de coletivo que convoca toda a cadeia de valor, da indústria ao retalho, a unir-se para recuperar a trajetória positiva que vinha a registar”.

A campanha apresenta sete histórias de empresários do setor, que retratam “a nova dinâmica da joalharia portuguesa, na sua aposta em inovação, design e internacionalização”, representando cada empresa os diferentes segmentos que caracterizam a diversidade do setor e complementaridade necessárias à sua afirmação: Anselmo 1910, Eugénio Campos, JCF — Joalheiros, TMB, José Martins Barbosa, Juliana Bezerra e Maria João Bahia.

Esta iniciativa é a face mais visível da estratégia de internacionalização do setor, liderada pela AORP, com o apoio do Compete 2020, e que tem previsto um investimento de três milhões de euros em ações de promoção internacional entre 2020 e 2021.

Depois de apresentada, esta sexta-feira, ao setor e aos associados da AORP, a nova campanha promocional será divulgada no próximo fim de semana na Moda Lisboa, numa ativação aberta ao público, e no dia 16 num evento privado para convidados no âmbito do Portugal Fashion.

A ideia de nos associarmos à Moda Lisboa e ao Portugal Fashion para este lançamento prende-se com a nossa estratégia de integrarmos cada vez mais o setor na afirmação da marca Moda Portugal, criando várias sinergias com as nossas congéneres do têxtil e calçado e marcando presença nestes eventos que são essenciais para colocar Portugal na rota da moda internacional”, explicou à Lusa o presidente da associação.

Segundo adiantou, a campanha terá também uma forte componente digital, sendo o mote da futura plataforma ‘portuguesejewellery.pt’, que a AORP pretende “que se torne no endereço digital da joalharia portuguesa, atraindo novas oportunidades tanto no segmento B2C como B2B”.