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Tinha tudo para ser mas não foi e até se falou na maldição da Netflix. Partindo da pole position no Grande Prémio da Rússia na semana em que estava a ser acompanhado pela plataforma de streaming para a terceira temporada da reconhecida série “Formula 1: Drive To Survive”, Lewis Hamilton não destruiu a parte dianteira do carro nem fez piões como na Alemanha em 2019 mas condicionou toda a corrida com duas penalizações por arrancar durante o período de safety car quando não o podia fazer e não foi além do terceiro lugar atrás de Valtteri Bottas e Max Verstappen, adiando por mais umas semanas o inevitável momento em que se tornará o piloto com mais vitórias em Grande Prémios a par do alemão Michael Schumacher entre muitas críticas à FIA.

“Tenho a certeza de que nunca ninguém sofreu uma penalização de cinco segundos antes por algo tão ridículo. Excessivo? Claro que é. Mas já era de esperar. Eles estão a tentar parar-me, não estão? Sempre que uma equipa está na frente, fica debaixo de escrutínio. Tudo o que temos no carro é triplamente verificado, estão a mudar as regras, como as regulamentações do motor e outras coisas para manter a corrida excitante, acho eu. Não sei se as regras em termos do que aconteceu hoje [na Rússia] têm algo a ver com isso mas é o que me faz sentir. Parece que estás a remar contra a maré mas está bem. Não é como se eu não tivesse enfrentado adversidades antes. Vamos ver o livro das regras e destacar as áreas em que eles podem criar regras, áreas em que as penalizações nunca foram dadas antes. Vamos tentar proteger-nos. Só tenho de ter a certeza de que não lhes dou razões para eles fazerem seja o que for”, queixou-se Hamilton, perante uma reação mais ponderada da FIA, que decidiu até tirar a penalização de dois pontos na superlicença, argumentando que tinha sido a Mercedes a pedir para fazer o que fez.

O ano mudou, o país era diferente, mas a maldição de Hamilton com a Netflix voltou a repetir-se: e foi Bottas a aproveitar

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Seguia-se o Grande Prémio de Eifel, no reconhecido circuito germânico de Nürburgring. Desta vez, Bottas acabou por ser o mais rápido na qualificação, à frente de Hamilton e Verstappen, com Charles Leclerc a fazer também um surpreendente quarto lugar à frente do Red Bull de Alexander Albon e dos Renaults de Ricciardo e Esteban Ocon. “É uma sensação muito boa estar na pole, especialmente quando a última volta é muito boa. São sentimentos destes que nos levam a fazer isto. A minha última volta foi perfeita, acertei em todos os detalhes, apesar de ter dificuldades no primeiro setor ao longo de toda a qualificação. Gosto muito da ideia de haver alguns pontos de interrogação amanhã. Estamos no melhor lugar da grelha, por isso vamos ver”, comentou o finlandês ao site oficial, antes de uma corrida onde Nico Hülkenberg foi chamado para substituir Lance Stroll (por motivos de saúde).

“Este é um circuito fantástico e é ótimo voltar aqui mas hoje [sábado] não era o meu dia. Senti o carro bem na Q2 mas, na Q3, perdi um pouco de ritmo e por isso teremos de olhar para os dados para melhorar algum tempo. O Valtteri [Bottas] fez um grande trabalho, parabéns para ele. Penso que haverá várias oportunidades na corrida, teremos de ver o que acontece com o tempo e como estará a temperatura. O comportamento dos pneus será também crucial, tal como a saída ou a existência ou não de safety cars em pista. Ainda tempos tudo para disputar, estou ansioso pela prova de amanhã e vou assentar a cabeça para aparecer da melhor forma na corrida”, destacou Lewis Hamilton ao F1.com, numa análise mais abrangente às forças e fraquezas para a prova, passando ainda pela questão meteorológica que obrigou a que os treinos de sexta-feira fossem cancelados.

O arranque não trouxe alterações na formação inicial, a não ser na quinta posição com Ricciardo a passar Albon, mas o primeiro lugar do finlandês sofreu aí a primeira ameaça real, sendo que na curva inicial chegou mesmo a dar a ideia que Hamilton conseguiria ficar na frente, algo que não se confirmou. Pelo menos aí. No entanto, e quando Ricciardo já tinha também superado Leclerc, uma saída numa curva de Bottas acabou não só por afetar e muito os pneus do finlandês, que teve de parar de imediato, como a própria potência do seu Mercedes. A corrida estava em definitivo comprometida e Bottas estava fora da corrida, deixando a discussão limitada a Hamilton e Verstappen, que a meio da corrida tinham cinco segundos de diferença entre si mas 53 segundos para o terceiro.

Se na frente a corrida limitava o seu interesse à distância (a aumentar) entre o britânico e o holandês, percebendo-se desde cedo que só mesmo um problema técnico, um furo ou uma saída de pista poderia desfazer a vitória de Hamilton e a segunda posição que iria aproximar Verstappen de Bottas na classificação do Mundial, um pouco mais atrás (que é como quem diz quase a um minuto…) havia uma luta muito interessante pelo terceiro posto, com Ricciardo a deixar de ter Leclerc como adversário mais direto e a ter de preocupar-se com  Sergio Pérezpor forma a garantir não só o pódio mas os 15 pontos que permitiam a subida ao quarto lugar do campeonato. A 15 voltas do final, e de novo por problemas mecânicos, Lando Norris, que seguia em sexto, teve também de abandonar, naquela que foi a quinta desistência depois de George Russell, Bottas, Esteban Ocon e Albon.

A bandeira amarela foi uma janela de oportunidade para Ricciardo parar, seguindo-se Carlos Sainz, Pérez e todos os outros. A entrada do safety car era uma espécie de respirar fundo antes das últimas dez voltas, com Hamilton a não demorar a conseguir vantagem sobre Verstappen, Ricciardo a defender o terceiro posto perante a pressão de Pérez e Leclerc, que tinha uma volta de atraso do britânico, a ganhar nova esperança na luta pela sexta posição de Gasly.  No entanto, tudo ficaria na mesma, com o britânico a igualar as 91 vitórias em Grandes Prémios de Schumacher e logo na Alemanha, naquele que foi mais um passo de gigante para o sétimo título mundial.