O antigo presidente da Comissão Europeia Durão Barroso elogiou a resposta da União Europeia à crise causada pela pandemia de Covid-19 e considerou que este processo está a resultar numa “Europa mais política”.

“Eu vejo uma Europa mais política, uma Europa que de certa forma perde a sua inocência, que está a chegar à idade adulta politicamente”, afirmou Durão Barroso, numa intervenção em vídeo gravada e que foi divulgada esta segunda-feira no início da segunda edição das “Sá Carneiro Talks”, uma iniciativa do Instituto Francisco Sá Carneiro transmitida através das redes sociais.

Para o antigo primeiro-ministro português, a União Europeia “aprendeu com a crise das dívidas soberanas” – embora faça questão de a distinguir da atual, causada por fatores externos e incontroláveis – e respondeu de forma “mais rápida e mais substancial”.

“A Europa está de certo modo a responder presente, confirmando que a sua resiliência é bem maior do que os observadores e analistas lhe reconhecem“, defendeu, dizendo ter ficado “muito satisfeito” por, apesar de todas as tensões, ter sido possível desenhar um “programa adequado e ambicioso” de resposta à crise sanitária e às suas consequências económicas e sociais.

Durão Barroso considerou que a atual crise reforçou também uma tendência que já se começava a desenhar antes, no sentido de uma maior politização do espaço europeu, dando como exemplos referências em documentos oficiais à soberania europeia ou a uma Comissão “mais geopolítica”

Isto quer isto quer dizer que a Europa, vendo potências mais agressivas como a Rússia, mais afirmativas como a China ou mais imprevisíveis como os Estados Unidos, começa a compreender que, se não formos nós, europeus, a defender os nosso interesses e valores, talvez não possamos contar com outros para o fazer, sublinhou.

O antigo governante e líder do PSD avisou que “não é indiferente qual o modelo que vai dominar a economia e a sociedade globais”, e defendeu que só unida num bloco a União Europeia pode discutir “de igual para igual” com Estados Unidos ou China.

“É óbvio que precisamos de uma dimensão europeia se quisermos defender esses interesses e valores, e é neste sentido que Europa está a avançar”, disse, considerando que, pela sua experiência, a Europa “sem arrogância, mas com algum orgulho” pode fazer propostas para uma ordem multilateral com base nos seus princípios.

A única referência à realidade portuguesa feita por Durão Barroso foi no elogio a importância do fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro, “não apenas na consolidação da democracia portuguesa, como na definição de um rumo estratégico para Portugal”.

“Foi em principal medida por causa de Francisco Sá Carneiro que eu aderi ao PSD, entusiasmou-me a sua vontade de modernização do país e para ele modernização queria dizer europeização”, afirmou.

As “Sá Carneiro Talks” integram-se no programa que assinala o 40.º aniversário da morte do fundador do partido Francisco Sá Carneiro e a primeira edição realizou-se em 14 de setembro, tendo tido como convidado o ex-comissário europeu Carlos Moedas.

De acordo com os seus estatutos, o Instituto Sá Carneiro – organização ligada ao PSD – tem como objetivos fundamentais “a defesa e divulgação do ideal democrático e o estudo dos fenómenos culturais, sociais, económicos e políticos, relativos a Portugal e à sua intervenção na comunidade internacional”.