Isiah Thomas deu o tiro de partida. No final do jogo 4 das Finais que opuseram os Lakers aos Miami Heat, o antigo base dos Detroit Pistons atirou: “LeBron James é o melhor da história”. O que é uma forma de dizer que Michael Jordan não é. Ok, Isiah e Jordan nunca foram grandes amigos, mas outros se seguirão e a discussão ocupará a mente de todos os fãs de basquete até ao regresso da NBA, não se sabe quando: agora que tem quatro anéis, já se pode dizer que Lebron é melhor jogador do que Jordan, mesmo no seu prime, foi?

Se formos pelos títulos, há uma resposta muito simples: Jordan alcançou seis anéis e Lebron, com o desta madrugada, tem “apenas” quatro. Até Kobe, que sempre foi visto como o novo Jordan, até em termos de estilo, alcançou cinco, todos pelos Lakers, e não falhou tantas finais.

Esse é um dos argumentos que os defensores de Jordan (e de Kobe) usam contra LeBron: o número de finais perdidas, seis, contra “apenas” quatro vitórias. Jordan, por sua vez, venceu seis finais – todas as que disputou. Kobe venceu cinco finais em sete. O que dizem estes números? Assim, isolados, muito pouco: os detractores de Jordan dirão que ele tinha muito melhor equipa do que parecia; os defensores de LeBron argumentarão que ele só foi a dez finais graças ao seu talento, porque tirando quando esteve em Miami nunca teve equipa à altura; e os odiadores de Kobe lembrarão que três dos seus títulos foram lado a lado com Shaq.

Eis um exemplo de como o mesmo facto basquetebolístico pode levar a interpretações opostas: os Lakers foram campeões com uma equipa que consistia, basicamente, na dupla formada por LeBron e Anthony Davis, rodeados por um bando de veteranos por quem ninguém dava nada (Rondo, Dwight Howard) e até jogadores que nunca haviam sido escolhidos no draft, como o magnífico Caruso. Isto, para todos os efeitos, na era da correria, em que uma jogada dura sete segundos, o tempo para alguém lançar um triplo é um feito, mais ainda se tivermos em conta que os Lakers jogam um jogo old-school, com muita ação perto do certo.

LeBron James reuniu ainda antes de chegar à NBA o maior circo mediático de sempre em torno de um rookie (Foto: Getty Images)

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O ponto de vista alternativo seria: os Lakers tinham melhor plantel do que o crédito que davam ao mesmo, e para isso basta pensar que Rondo é um base de eleição, de outra era, é certo, do tempo em que os bases geriam os jogos, faziam assistências e marcavam poucos pontos, um base que quando chega aos play-offs melhora os seus números e passa de 25 para 40% de percentagem de triplos. E esta foi uma época atípica, a começar no defeso, com imensas mexidas, jogadores ausentes (Kevin Durant, em particular), equipas que não encontraram coesão, outras que a perderam depois da pandemia. É outro ponto que os detratores usam: foi precisa uma pandemia para que os Lakers fossem campeões.

Mas não é assim que se deve olhar para o jogo e para um legado. Jordan inventou uma forma de jogar (ou aperfeiçoou ao limite o que viu em potência em Dr. J) e Kobe foi o último dessa espécie – o lone shooter, o jogador que carrega o peso todo da equipa às costas, que baila por entre oponentes e lança em queda à retaguarda, sofre falta e marca.

Era LeBron James começou quando a era Michael Jordan tinha acabado. Pelo meio, houve Kobe Bryant (Foto: Getty Images)

Esse tipo de jogador está quase em extinção e LeBron é uma espécie de transição dessa espécie para o que se suponho que o basquete viria a ser: jogadores técnicos, rápidos e com elevada percentagem de triplos, um pouco à imagem de Steph Curry. Não era suposto que Lebron voltasse a ser campeão – os anéis, dizia-se, estavam guardados para as equipas de jogadores baixinhos, rápidos, tecnicistas e que não precisavam de entrar para o cesto para fazer muitos pontos.

Mas este LeBron não é o outro LeBron que entrou na NBA com o maior circo mediático jamais visto para um rookie – era um garoto e já alcançara o estatuto de estrela, mesmo sem lançar uma vez ao cesto. Era rápido, era forte, fazia passos muitas vezes, o seu drible era tosco (ele melhorou muito o jogo de pulso) e tinha um lançamento incerto, mas a sua força e velocidade permitiam-lhe entrar para o cesto com facilidade. Nesse sentido, era mais Charles Barkley que Jordan ou Kobe. Certamente ninguém lhe gabaria a elegância.

Como todos os jovens com alguma coisa a provar, foi muitas vezes demasiado egoísta, pese embora isso também tenha significado que desde o início aceitou a responsabilidade de carregar uma equipa às costas, mesmo quando (ou especialmente quando) não tinha colegas à altura.

Este LeBron é outra coisa – por um lado é admirável que aos 35 anos de idade ele ainda consiga (e isto são dados dos play-offs) 26,9 pontos, 10,5 ressaltos e 8,8 assistências por jogo, com uma média de 35,7 minutos jogados (cerca de 3 minutos a menos do que costumava jogar). Mas mais que as estatísticas, o que impressiona no LeBron veterano é a sua liderança, a sua inteligência, o seu trabalho de equipa – ele é a cola que une aquele bando de misfits, o cérebro que os põe a jogar, e a jogar melhor do que eram capazes.

LeBron não se tornou Jordan – a serem feitas comparações elas devem apontar para outro Laker, igualmente alto e forte, capaz de jogar a base e base lançador, extremo e e extremo/poste e poste e às vezes ocupar as cinco posições no mesmo jogo: Magic Johnson. Johnson demorou menos a chegar a este estado de compreensão do jogo que Lebron agora exibe. E basta ver como James combina com Anthony Davis para o perceber: Davis desce e assiste para a entrada de LeBron, LeBron vai para poste alto, Davis esconde-se na linha e Lebron descobre-o no momento certo para um afundanço e uma falta.

Dupla LeBron-Davis ganhou duelo de Los Angeles a Leonard-George, sendo que Clippers nem foram à final de Conferência (Foto: Getty Images)

Os desempenhos de Davis nos play-offs têm sido de tal forma sumptuosos que os detractores de LeBron dizem que agora LeBron é o parceiro de Davis e não o contrário, mas isso, novamente, é a forma errada de ver o jogo: é LeBron quem impõe o ritmo, quem decide a jogada, quem pede o bloqueio, quem resolve mudar de posição ou decide defender o jogador mais perigoso do adversário. As mãos que colocam a bola no cesto podem agora, com mais regularidade, ser as de Davis, mas é LeBron quem lhe passa a bola.

O jogo mudou – hoje marcam-se mais faltas que no tempo de Jordan e Kobe, lança-se mais de três (porque há mais e melhores lançadores), o que “abre” o campo e torna mais difícil defender. Os jogadores têm um poder imenso e decidem com quem vão jogar – como ficou exemplificado nesta pré-época, com a ida de Kawhi Leonard para os Clippers, na condição de ser acompanhado por Paul George, ou mesmo na forma como o próprio LeBron decidiu que iria emparelhar com Anthony Davis.

Mas apesar de todas as mudanças, Lebron resiste e adapta-se, joga em todas as posições, faz os companheiros jogarem melhor, cede o controlo do jogo aos colegas quando estes correspondem e assume a liderança quando eles estão perdidos. Para além do exemplo que é fora do campo, Lebron já conseguiu o maior dos feitos: convencer aqueles que achavam que ele não era mais que um bruto que não conhecia a regra dos passos de que ele é um jogador do mais completo que a NBA alguma vez viu, em termos técnicos, mentais e de superação.

Aos 35 anos de idade ele terá mais dois, três anos a este nível para alcançar os seis anéis de Jordan. Mas mesmo que não consiga, e até porque esta contagem de anéis ou de estatísticas é meio ridícula e diz-nos pouco sobre cada época e sobre cada jogador, mesmo que ele não consiga os seis anéis, o que ele fez já não é mais que suficiente para estar na galeria dos monstros do jogo?

Não é uma pergunta retórica e a resposta é sim.