Designer do norte, guardião da feminilidade e das silhuetas clássicas, Diogo Miranda foi outro dos nomes a apresentar a coleção para o próximo verão à margem dos dois principais eventos nacionais — a ModaLisboa e o Portugal Fashion, cujo calendário de desfiles tem integrado consecutivamente desde a estreia, em 2007. Mas o atual contexto é excecional e o criador decidiu-se por manter a distância. Mesmo sem o contacto físico com convidados e clientes, as propostas de Diogo Miranda nunca foram tão calorosas.

Tudo começou com uma ida ao Alentejo, a primeira sem ter o tempo contado. “Fui passar uns dias à quinta de um amigo, em Vila Viçosa. Fiquei totalmente apaixonado”, conta ao Observador. A experiência, em pleno desconfinamento, foi de tal forma marcante que, dois meses depois, em agosto, regressou para uma segunda estadia. “Porque não fazer uma coleção inspirada no Alentejo?”, pensou.

Dito e feito. Muitas das silhuetas propostas são aquelas a que o designer já habituou o seu público, mas agora tingidas pelos tons da paisagem alentejana. Beges e amarelos surgem diretamente ligados às planícies ensolaradas, enquanto o branco e o azul Klein — ora juntos, ora separados — derivam do casario caiado e com as barras azuis. “Esta coleção é um dia no Alentejo. Ao final da tarde, os ocres e os dourados ganham destaque. Com o cair da noite, vêm os pretos e brancos”, acrescenta.

A tradição foi incorporada na linguagem do designer — das rendas brancas, responsáveis por trazer laivos de romantismo ao verão de Miranda, às franjas dos xailes, subtilmente introduzidas em vestidos, mas também em lenços de seda. As camisas sublinham a leveza da coleção, ao passo que as peças em lamé brilham, fazendo assim cumprir aquele que, para Diogo Miranda, é um dos propósitos da moda: fazer sonhar.

“É preciso trazer a beleza outra vez, mas sem descuidar a usabilidade das peças”, continua. Este não é um exercício novo para o designer, apenas se evidenciou com as atuais exigências do mercado. “Tudo gira em torno do material, da peça e do corte. Obviamente que é preciso trazer sempre novidade, de coleção para coleção, mas num momento com este, as clientes tendem a valorizar peças chave, que possam usar mais vezes — agora com uns loafers, quando tudo voltar ao normal com uns saltos altos”, refere.

Alguns dos looks mais descontraídos da coleção de Diogo Miranda para o verão de 2021 © Frederico Martins

“Quando tudo voltar ao normal”, Diogo Miranda tenciona retomar as apresentações sazonais no Portugal Fashion. A ausência nesta 47ª edição, que arranca já na próxima quinta-feira, deve-se a preocupações com a segurança. “O desfile estava previsto, mas com a atual situação não fazia sentido estar a pôr-me e à minha equipa em risco. Achei que era o melhor a fazer. Mas espero que seja pontual, apenas enquanto não houver uma solução para o que estamos a passar”, remata.

O formato pelo qual optou — o de uma sessão em estúdio com o fotógrafo Frederico Martins — não é inédito. Já em março deste ano, o criador acabou por divulgar a coleção outono-inverno 2020/21 numa produção fotográfica, depois da última edição do Portugal Fashion ter sido cancelada ao fim de um dia de desfiles, por causa do agravamento da situação epidemiológica em Portugal.

Tal como Diogo aprendeu a valorizar o património e a paisagem do Alentejo, a valorização do que é português parece ser das lições mais certas da atual pandemia. Elástica, a moda adapta-se, tornando-se mais sóbria e dotada de sentido prático. Para um criador, há outras lições a reter. Com uma obra pautada por silhuetas de cocktail, Miranda fez por se moldar às circunstâncias. Aos vestidos, blusas e saias adicionou pijamas de seda (depois de ter usado o próprio atelier para fazer algumas para si, nos últimos meses) e confortáveis robes, novo dress code na hora de receber amigos para jantar.