Numa altura em que a Europa atravessa uma segunda vaga da pandemia (ou uma segunda fase da primeira vaga, consoante as opiniões) mas que Itália continua a não ter os aumentos tão acentuados como Espanha, Reino Unido, França ou Alemanha, a receção da squadra azzurra à Holanda no Estádio Atleti Azzurri d’Italia, em Bérgamo, tinha um especial significado tratando-se de uma das zonas mais fustigadas pelo novo coronavírus e do próprio recinto da equipa transalpina que ficou mais ligada ao aparecimento da Covid-19 na Europa por aquela “bomba biológica” invisível que se verificou no encontro entre Atalanta e Valencia realizado ali próximo, em Milão, mas com mais de 40.000 adeptos a rumarem a San Siro. E também a equipa comandada por Roberto Mancini teve um problema com a Covid-19, depois do falso positivo a El Shaarawy que se transformou em negativo.

Presidente de Bérgamo diz que Atalanta-Valencia foi “bomba biológica”: “Se o vírus já circulava, 40 mil ficaram infetados”

“Não foi um dia assim tão estranho mas sim, admito que houve alguma distração”, assumiu antes da receção aos Países Baixos o selecionador italiano, fazendo depender a equipa titular da última ronda de testes a todos os convocados mas tendo algumas ideias de antemão definidas: “Sei bem como tem sido um calendário cheio para estes atletas e com três jogos internacionais tentarei dar uma oportunidade a cada um na frente. Amanhã [Hoje] vai ser a vez do Immobile na frente. O Chiellini vai voltar e posso fazer mais quatro ou cinco mudanças”. “Falta de golos? Somos uma equipa nova, temos tempo para melhorar e os golos aparecerão nos jogos grandes. O importante para a equipa é jogar bem e criar oportunidades, depois também é preciso ter um pouco de sorte, faz parte. Estamos ainda no início do trajeto, não é algo que me preocupe”, disse ainda, após o empate a zero na Polónia.

Do outro lado, os Países Baixos agora comandados por Frank de Boer tinham um jogo decisivo para poderem ainda aspirar a ficar no primeiro lugar de um grupo que tinha ainda a Polónia e a Bósnia, repetindo a presença na primeira Final Four da Liga das Nações (ou mesmo na final, como em 2019 frente a Portugal). E o antigo treinador do Atlanta United, que passou antes por Ajax, Inter e Crystal Palace, procurava também ele uma redenção depois de um início menos conseguido com uma derrota diante do México num particular e do empate sem golos na Bósnia. “Dormi bem depois desse jogo. Pensamos que a Holanda pode ganhar a qualquer seleção mas já não é o caso. Cada vez há menos equipas de pequenos países e a Bósnia também mostrou isso. O grupo continua em aberto, se ganharmos o mundo vai parecer logo diferente mas sei que não tivemos o melhor início”, assumiu.

Mancini não precisou de óculos para ver Barella a tomar conta da terra de Frenkie de Jong (a crónica do Holanda-Itália)

À semelhança do que tinha acontecido no primeiro encontro entre os dois conjuntos na Liga das Nações, a Itália mostrou-se mais forte no arranque e com Barella mais uma vez a assumir-se como uma das principais caras desta nova geração transalpina que se começa também a assumir na seleção. Foi dos pés do médio do Inter, neste caso a combinar com um recente reforço da Juventus, Federico Chiesa, que nasceu o primeiro golo do encontro, com Pellegrini a romper de trás para isolar-se e rematar de pé esquerdo sem hipóteses. Pouco depois, Immobile ficou também perto do golo mas Cillessen impediu o remate certeiro. Havia mais Itália e melhor Itália porque os Países Baixos abusavam do jogo pelo corredor central; quando conseguiram soltar-se pelas laterais, o jogo mudou. E até podia ter mudado mais: Van de Beek, numa recarga após remate de Depay após cruzamento da esquerda, fez o empate (25′) e De Jong, após novo centro de Blind, cabeceou com perigo à baliza de Donnarumma (36′).

No segundo tempo, com Depay e Immobile em principal evidência, Itália e Países Baixos podiam ter ganho o jogo mas os guarda-redes levaram sempre a melhor e o empate não mais foi desfeito, o que beneficiou a Polónia que passou para a liderança do grupo com mais um ponto do que a Itália e mais do que a Holanda. No entanto, as duas equipas que falharam o último Campeonato do Mundo estão a conseguir fazer uma boa regeneração. Ainda não são de topo como antigamente mas têm qualidade e juventude para isso. O futebol agradece, Bérgamo também.