O líder do partido sul-africano EFF (Economic Freedom Fighters), Julius Malema, acusou esta quinta-feira os agricultores sul-africanos de serem “racistas” e “terroristas”, ameaçando “defender” a democracia na pequena cidade rural onde um agricultor branco foi brutalmente morto alegadamente por dois negros.

“Não vamos permitir que os brancos nos tratem assim, julgam que damos atenção ao que ele [ex-Presidente Kgalema Mothlante] diz, julgam que ouvimos Mbeki, Zuma e Mandela, nunca iremos tolerar este estado de coisas, isto tem de acabar”, disse quinta-feira Julius Malema em entrevista ao canal de televisão por cabo sul-africano Newsroom Afrika.

O líder da esquerda radical referiu que planeia protestar na sexta-feira em Sekendal, mais de 200 quilómetros a sudoeste de Joanesburgo, salientando: “Estes brancos devem saber que não somos crianças, este é o nosso país, também pertencemos a esta terra”.

“E se ir a Senekal vai originar uma guerra civil, se por um homem exercer os seus direitos constitucionais vai haver uma guerra civil, então que assim seja”, adiantou.

Questionado pelo canal se os membros do partido irão também estar armados durante o protesto, o político de esquerda radical declarou: “Nós vamos defender o tribunal de justiça com os nossos próprios corpos, se alguém morrer por defendermos a justiça e a polícia, então que assim seja, se alguém disparar [uma arma de fogo], nós disparamos também”.

Na entrevista, Julius Malema, antigo líder da Liga da Juventude do ANC, o partido no poder desde 1994 na África do Sul, acusou a polícia de ser “incapaz de se defender apesar de ter a proteção da lei”, frisando ainda que a sua organização política não defenderá os dois suspeitos negros do homicídio do jovem agricultor branco Brendin Horner, 22 anos.

“Os criminosos devem apodrecer na prisão quando condenados, não temos interesse naqueles que matam pessoas inocentes, particularmente civis que estão a tentar fazer uma vida honesta”, salientou.

Malema, que em setembro liderou uma ação de vandalização de 40 farmácias em cinco províncias do país, adiantou: “Vamos a Senekal para defender a nossa democracia, a nossa Constituição que está a ser ameaçada por agricultores racistas e terroristas que atacam um tribunal de justiça, uma esquadra da polícia, e perseguem agentes policiais, isso é uma declaração de guerra contra o Estado”, declarou.

Segundo um porta-voz policial, os dois homens acusados do homicídio do jovem agricultor, que devem comparecer pela segunda vez na sexta-feira no tribunal de Senekal, foram detidos a 3 de outubro, um dia depois de o corpo de Brendin Horner ter sido encontrado pela polícia pendurado num poste num terreno próximo da fazenda agrícola onde trabalhava como gerente.

Um dos suspeitos já havia sido detido por 16 vezes por vários crimes, incluindo roubo de gado, tendo sido condenado a 18 meses de prisão num dos casos e a 12 meses noutro, segundo o ministro da Polícia, Bheki Cele.

O Aliança Democrática (DA, na sigla em inglês), principal partido da oposição na África do Sul, apresentou na segunda-feira uma queixa-crime contra o líder da esquerda radical, Julius Malema por “incitação à violência”, anunciou a deputada Natasha Mazzone.

“De que lado estão o Presidente Cyril Ramaphosa e o ministro da Polícia Bheki Cele: do lado dos ‘bandidos fascistas’ do EFF ou do lado dos sul-africanos que querem paz e prosperidade?”, questionou.

O Governo destacou já um contingente militar das Forças Armadas (SANDF, na sigla em inglês) para a pequena cidade agrícola do Estado Livre.

O ex-presidente sul-africano Kgalema Motlanthe advertiu esta quinta-feira que o agravamento da situação económica e da violência racial na África do Sul pode precipitar o país para uma “guerra civil”, salientando que “os seus direitos [dos agricultores] devem ser protegidos também, e a sua segurança também deve ser garantida”.

Na última semana, as tensões raciais elevaram-se depois de um grupo de agricultores brancos ter incendiado uma viatura da polícia à porta do tribunal de Senekal, onde os suspeitos negros do assassínio do jovem agricultor branco estavam a ser ouvidos, em protesto contra o agravamento da violência e criminalidade naquela província do centro do país.

Há várias décadas que os agricultores, principalmente agricultores brancos e os seus grupos de ‘lobby’, alegam que a polícia não age contra a violência em áreas rurais.

Fonte do sindicato dos agricultores comerciais na África do Sul (TLU SA, na sigla em inglês), a organização agrícola mais antiga no país, disse esta quinta-feira à Lusa que 287 ataques e 43 assassínios em fazendas agrícolas foram registados este ano.

Desde 1990, referiu a mesma fonte, a organização agrícola registou até à data 2.091 homicídios e 5.637 ataques deste tipo, sendo o Estado Livre a sexta província do país (de um total de nove) mais afetada com 616 ataques a fazendas e 220 assassínios.