Foi o assunto da semana da Premier League. Numa semana em que as competições de clubes estiveram paradas e muitos dos jogadores estavam ao serviço das seleções, acabou por ser uma proposta de remodelação da estrutura do futebol inglês a fazer as capas dos jornais. O “Project Big Picture”, apresentado como um conjunto de medidas que tinham o objetivo de apoiar os escalões inferiores e o futebol amador, foi comentado, dissecado em discutido em todos os meios de comunicação ingleses. E a ideia praticamente unânime era só uma: o projeto era um primeiro passo para que alguns clubes tomassem o comando da modalidade.

Mas vamos por partes. A proposta, apresentada pelo Manchester United e o Liverpool — o clube com mais títulos conquistados em Inglaterra e o atual campeão inglês, assim como dois dos big six da Premier League –, era composta por vários pontos. Praticamente todos com uma componente financeira, a justificação dada era a necessidade de a Premier League apoiar com fundos e recursos não só os escalões inferiores do futebol inglês como também o futebol amador e as estruturas de formação de jogadores.

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Rick Parry, o presidente da Liga Inglesa de Futebol, foi o mais vocal do apoiantes do “Project Big Picture”

À cabeça, uma das medidas era reduzir a Premier League de 20 para 18 clubes, com o Championship, a League One e a League Two (segunda, terceira e quarta divisão) a ficarem com 24 clubes cada. Ou seja, os dois últimos classificados da Premier League seriam automaticamente despromovidos ao Championship, enquanto que o 16.º iria discutir o lugar na primeira liga no playoff da segunda. O “Project Big Picture” incluía também o fim dos chamados parachute payments, pagamentos pára-quedas, uma quantia associada aos clubes que caem da Premier para o Championship e que tem o objetivo de evitar o descalabro financeiro. O projeto previa também a criação imediata de um fundo de resgate para a Liga Inglesa de Futebol no valor de 250 milhões de libras, para evitar a falência de clubes (como aconteceu recentemente com o Bolton ou o Bury), e ainda o direito por parte do mesmo organismo a 25% de todos os futuros contratos de transmissões televisivas. Por fim, e além da abolição da Taça da Liga e da Community Shield (Supertaça), a proposta pretendia que os clubes da Premier League se juntassem para dar 100 milhões de libras à Federação inglesa, para compensar as perdas associadas à pandemia, e defendia que nove clubes (os big six mais Southampton, Everton e West Ham) tivessem “direitos de voto especiais” em certos tópicos, com base na longevidade na primeira liga.

Ora, de forma natural, depressa estas propostas se tornaram polémicas. Não só pela abolição das duas competições, não só pelo fim dos parachute payments mas principalmente pela ideia subjacente de que os big six ingleses — Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal — sairiam ainda mais beneficiados e reforçados se o projeto fosse aprovado. Ainda assim, o “Project Big Picture” ganhou força com o apoio de Rick Parry, presidente da Liga Inglesa de Futebol, ainda que esse patrocínio tenha sido o aval definitivo do organismo à ideia e a cisão com a Premier League, que se opunha às medidas.

Depois de 134 anos de história, o Bury foi expulso do futebol profissional inglês (e o Bolton tem 14 dias para evitar o mesmo destino)

“O ‘Project Big Picture’ oferece um novo começo que vai revitalizar a pirâmide do futebol a todos os níveis. Este novo começo vai revigorar os clubes nas ligas inferiores e as comunidades em que estão baseados. Isto tem a ver com construir com base no que está bem e tirar o maior proveito possível do que funciona bem para beneficiar o jogo como um todo, ao mesmo tempo que se aborda os problemas que nos preocupam a todos. Isto é uma planta para o futuro do futebol inglês e para toda a gente que o preza (…)”, explicou, há alguns dias, Rick Parry. Entretanto, o ministério inglês  do Digital, da Cultura, da Comunicação Social e do Desporto posicionou-se sobre o projeto e garantiu que não passava de um “acordo de bastidores” que iria “criar um grupo fechado no topo mais alto do jogo” — uma crítica que Rick Parry, em reação e em representação da proposta, garantiu que “não iria deter” as ideias.

A Federação inglesa também se opôs, recordando que “o futebol não é só dinheiro”, e depressa surgiram notícias que davam conta de que os big six tinham ameaçado retirar-se da Premier League caso o projeto não fosse aprovado — algo manifestamente exagerado e que, provavelmente, só teve consequência prática o facto de as associações de adeptos de Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal também terem vindo a público condenar as propostas.

Certo é que o “Project Big Picture” foi a votos esta quarta-feira, numa reunião por vídeoconferência entre todos os clubes da Premier League, e acabou rejeitado de forma não unânime. Em comunicado, porém, a competição garantiu que os clubes concordaram em “trabalhar em conjunto” num novo “plano estratégico” para o “financiamento do futebol inglês” e decidiram desde já a criação de um pacote de resgate de 50 milhões de libras para a League One e a League Two, enquanto que as negociações com a Liga sobre o apoio financeiro ao Championship “vão continuar”.

“Os clubes vão trabalhar de forma colaborativa, num processo aberto e transparente, e vão focar-se na estrutura da competição, no calendário, na governança e na sustentabilidade financeira. Este projeto tem o apoio total da Federação e vai incluir interação com todos os stakeholders relevantes, como os adeptos, o Governo e, claro, a Liga. Existe claramente alguma frustração com o facto de um proposta que não teve o input dos clubes ter sido tão comentada pelo público. Não existe qualquer conflito com a Liga. Temos uma relação histórica e que queremos que seja construtiva. Foi uma reunião cândida, positiva e, no fim, unânime. Decidimos ir para lá do ‘Project Big Picture’ e avançar para um novo processo de revisão. A solidariedade é incrivelmente forte e, embora muitas coisas tenham sido ditas, acho que não danificou a Premier League de forma irreparável”, podia ler-se no comunicado da Premier League, assinado pelo CEO, Richard Masters.

Certo é que, e tal como escreve David Conn esta quinta-feira no The Guardian, a vitória inicial de Manchester United e Liverpool (e, por associação, dos outros quatro “gigantes”) já está conquistada: o modelo de todo o futebol inglês, que é também a base para grande parte do futebol europeu, vai mesmo ser revisto. E o mais provável é que as medidas que tinham o objetivo de retirar poder a uns para dar a outros acabem por ser uma realidade daqui a poucos anos.