São mais 1800 e podem ser contadas uma a uma. Um estudo levado a cabo por investigadores da Universidade de Copenhaga e a Universidade Estatal do Novo México permitiu a descoberta de centenas de árvores nos desertos do Sahara e do Sahal, abrangendo zonas da Argelia, Sáhara Occidental, Mauritania, Senegal e Malí. A investigação, publicada na revista Nature, revela uma densidade inesperada de vegetação nestas zonas consideradas muito áridas.

Até agora, o mapeamento de árvores era uma tarefa complicada, uma vez que são usadas imagens satélite com resoluções entre os 10 e os 30 metros, o que não é suficiente para distingui-las individualmente. No entanto, a equipa liderada por Martin Brandt encontrou a solução: combinar as imagens satélite de alta resolução com a técnica de aprendizagem profunda.

Escolhido o método, faltava apenas começar a contagem. Foi analisada uma área 1.3 milhões de quilómetros quadrados, considerando árvores e arbustos com uma copa com pelo menos três metros quadrados. Analisaram-se mais de 11 mil imagens satélite com uma resolução espacial de 0,5 metros. A inovação dos recursos utilizados abre agora portas a que se possa, futuramente, contabilizar individualmente todas as árvores do planeta.

“Normalmente a atenção que se presta a árvores solitárias e bosques não está bem documentada, porque as imagens de satélite normais não conseguem vê-los. Com os novos métodos de aprendizagem profunda e imagens de satélite com uma resolução de 0,5m, isto mudou e agora podemos mapear e medir cada árvore”, explicou Brandt à espanhola ABC.

A tecnologia de inteligência artificial na aprendizagem a fundo, funciona como as redes neurais do ser humano. Replicam a forma de aprender e são muito úteis no que toca a identificar padrões complexos. Neste caso, o software estava desenhado para reconhecer as copas das árvores com base nas suas formas e cores dentro de uma imagem maior. Estas redes dependem da disponibilidade de dados inseridos, que neste caso foram as imagens de satélite em que os contornos das árvores e arbustos eram mais percetíveis.

Segundo explica Martin Brandt à ABC, “para as áreas com terras secas, as árvores são cruciais para o sustento. Muita gente rural depende dos seus produtos”. São também importantes “para mitigar a degradação e as alterações climáticas, uma vez que são que reservas de carbono”.

No estudo consta ainda que o número de árvores está diretamente relacionado com a precipitação na área. Nas zonas hiperáridas do deserto, a densidade de vegetação é de menos de 1% (0,7 árvoes por héctar), nas áridas encontramos 9,9 árvores por héctar e nas semiáridas 30,1 árvoes por héctar.

Há, no entanto, um artigo publicado em jeito de comentário ao estudo. Niall Hanan e Julius Anchang, do departamento de ciências medioambientais e plantas no Novo México, afirmam que o estudo está repleto de imprecisões, especialmente no que toca às zonas mais secas. Uma das limitações também apontada é o facto não ser possível detetar vegetação cuja copa tenha menos três metros de diâmetro. Os investigadores consideram que os métodos precisam de um ajuste e automatização para que sejam precisos a uma escala mundial.