17 de outubro de 2010. O Everton de David Moyes recebia o Liverpool de Roy Hodgson no dérbi de Merseyside. Cahill, na primeira parte, colocou os toffees a vencer, enquanto que Mikel Arteta, o atual treinador do Arsenal, aumentou a vantagem no segundo tempo e confirmou a vitória da equipa de Moyes. De lá para cá, nos últimos 10 anos, nunca mais o Everton conseguiu ganhar ao Liverpool.

17 de outubro de 2020. Exatamente 10 anos depois, o Everton de Carlo Ancelotti recebia o Liverpool de Jurgen Klopp. Em primeiro lugar e com quatro vitórias em quatro jogos, os toffees estavam na melhor posição da última década para tentar enterrar a maldição de Merseyside e derrotar os reds. Num início de temporada em que o Liverpool tem tido alguns deslizes, em que o Manchester City não está na melhor fase e em que o Manchester United não está a conseguir corresponder às expectativas que criou no fim da época passada, o Everton tem surgido como a grande surpresa da Premier League e podia este sábado vencer os cinco primeiros jogos do Campeonato pela primeira vez na história.

No regresso do futebol de clubes depois da pausa internacional, Klopp continuava sem poder contar com o guarda-redes Alisson, que está lesionado, mas tinha Thiago Alcântara e Mané de volta, dois jogadores que testaram positivo para a Covid-19 e que entretanto recuperaram. O médio espanhol era titular ao lado de Henderson e Fabinho e Diogo Jota, que esteve em grande plano ao serviço da Seleção e tinha estado nos últimos onzes face à ausência do avançado senegalês, voltava ao banco de suplentes. Do outro lado, o trio de ataque que tem feito estragos esta época: James Rodríguez, Calvert-Lewin e Richarlison. André Gomes, de forma natural, era titular no meio-campo.

O Liverpool só demorou três minutos a abrir o marcador: numa jogada que divergiu da direita para a esquerda e que foi demasiado rápida e pragmática para a defesa do Everton conseguir acompanhar, Robertson apareceu na esquerda a desequilibrar e a cruzar para Mané, que surgiu na grande área a atirar para dentro da baliza (3′). Apesar da vantagem embrionária na partida, as más notícias não tardaram em chegar aos reds — e passaram pela lesão e consequente saída de um dos elementos mais importantes da equipa. Num lance difícil de compreender, Pickford teve uma entrada muito dura sobre Van Dijk no interior da grande área do Everton e lesionou o central, que teve de ser substituído por Joe Gomez. A atitude irrefletida do guarda-redes inglês só não deu grande penalidade porque Van Dijk, no início da jogada, estava em posição de fora de jogo.

Calvert-Lewin cabeceou por cima depois de um cruzamento de Digne vindo da esquerda (12′), naquela que foi a primeira reação digna desse nome à desvantagem, mas era o Liverpool quem ia mantendo uma presença muito acutilante no último terço, com Firmino a cabecear também por cima da trave na sequência de um alívio de Pickford a uma bola perdida (13′). Depois de alguns minutos em que as balizas pouco apareceram nas imagens da transmissão televisiva, acabou por ser Michael Keane a igualar o marcador: James Rodríguez bateu um canto perfeito a partir da direita e o central inglês atirou de cabeça para bater Adrián (19′). Com esta assistência, o jogador colombiano só é agora superado por Harry Kane e Son Heung-min no que toca a envolvimento em golos esta época, já que leva três golos e três assistências.

Até ao intervalo, Ancelotti também foi forçado a realizar uma alteração, devido a uma lesão de Coleman, e o Liverpool manteve a superioridade que tinha demonstrado durante toda a primeira parte — e que teve o seu epíteto numa oportunidade de Mané depois de combinação com Firmino e Robertson (34′). Na segunda parte, Richarlison foi o primeiro a beneficiar de uma grande oportunidade para desfazer o empate, ao acertar no poste na sequência de mais um cruzamento perfeito de James (59′), mas acabou por ser o Liverpool a recuperar a vantagem.

Henderson conduziu pelo corredor direito e cruzou mas Yerry Mina desviou para a entrada da grande área; aí, totalmente sozinho, Salah não precisou de dominar e rematou de primeira e de pé esquerdo para dentro da baliza (72′). Ao 159.º jogo pelo Liverpool, o avançado egípcio marcou o centésimo golo ao serviço dos reds, tornando-se o terceiro mais rápido da história do clube a chegar a esse registo, e fez a diferença no dérbi de Merseyside. Ancelotti reagiu com a substituição que já tinha preparada, ao trocar André Gomes por Sigurdsson, e o jogo entrou numa fase que não favorecia à equipa de Klopp, com transições rápidas, contra-ataques de parte a parte e dinâmicas quebradas e sem grande discernimento. O treinador alemão deu força ao ataque com a entrada de Diogo Jota mas, novamente, o Everton estava longe de estar fora da discussão da partida.

Num lance que até parecia estar controlado pela defesa do Liverpool, Digne cruzou muito bem da esquerda e descobriu Calvert-Lewin ao segundo poste: o avançado inglês subiu ao terceiro andar, deixou Robertson pregado ao chão e cabeceou para empatar novamente o resultado (81′). Calvert-Lewin chegou aos seis golos esta temporada na Premier League e marcou em cada uma das cinco primeiras jornadas, algo que um jogador do Everton não fazia desde os anos 30 do século passado, confirmando novamente o enorme momento de forma que também ficou patente na estreia na seleção inglesa que coroou com um golo.

Até ao fim, Richarlison ainda foi expulso com vermelho direto depois de uma entrada muito dura sobre Thiago — deixando o Everton sem o brasileiro durante, pelo menos, as próximas três partidas — e o Liverpool viu o golo da vitória ser anulado a Henderson, já durante o período de descontos, devido a um fora de jogo de Mané no início do lance. Num jogo com muitas incidências, duas substituições forçadas, uma expulsão e um golo anulado, o Everton perdeu os primeiros pontos da temporada mas mantém-se invicto e na liderança da Premier League. A história dos últimos dez anos no dérbi de Merseyside teima em não terminar: mas nunca os toffees estiveram tão perto de abrir um novo capítulo contra o principal rival.