A Bolívia foi a votos este domingo e apesar dos resultados não serem ainda oficiais, dado que se procede à contagem dos votos, as projeções à boca das urnas dão uma vitória contundente nas eleições presidenciais ao MAS (Movimiento al Socialismo), o partido populista de esquerda do antigo presidente Evo Morales.

Confirmando-se as projeções, Luis Arce — um antigo ministro da Economia de Evo Morales — terá vencido as eleições à primeira volta e tornar-se-á o próximo presidente da Bolívia.

O anúncio de vitória começou por ser feito, curiosamente, pelo próprio partido que teve como líder histórico Evo Morales, presidente da Bolívia entre 2006 e 2019.

“Há uma frente política que já superou os 45% [de votos], a segunda está perto de chegar aos 30% e a terceira já passou dos 15%, mas não chegará aos 20%”, declarou o porta-voz do MAS Sebastián Miche, lamentando a demora no anúncio das projeções e acusando o atual Governo interino de Jeanine Áñez de pretender “ganhar dois ou três dias para gerar violência, para tratar de criar um espaço de intervenção militar e para pôr em suspenso, outra vez, a democracia”.

As projeções feitas à boca das urnas reforçam a tese de que o MAS de Luis Arce poderá ter vencido as eleições presidenciais à primeira volta.

Before the election in Bolivia

O novo presidente da Bolívia (@ dpa/picture alliance via Getty Images)

Há poucas horas, foi revelada uma sondagem da empresa Ciesmori que indicava que o MAS teria vencido as eleições com 52% dos votos e com quase 20 pontos percentuais de diferença para o segundo partido mais votado, a Comunidade Ciudadana (31%), que apoiou o candidato e antigo presidente Carlos Mesa. A terceira força política mais votada será a Creemos, com 14%.

Um outro inquérito, este do grupo de pesquisa de base universitária Tu Voto Cuenta, apontou para resultados próximos: 53% para o candidato apoiado pelo MAS, Luis Arce, 30,8% para o candidato da Comunidad Ciudadana, Carlos Mesa, e 14,1% para o candidato do Creemos, Luis Fernando Camacho.

Na Bolívia, a vitória à primeira volta acontece quando um candidato ou formação política obtém mais de 50% dos votos ou, em alternativa, apenas mais de 40% dos votos mas com uma diferença de pelo menos 10% face ao segundo mais votado.

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O novo presidente já reagiu: “Recuperámos a democracia”

O candidato presidencial apoiado pelo partido populista de esquerda de Evo Morales, Luis Arce, também reagiu ao resultado das eleições e fê-lo antes mesmo do anúncio das projeções, reclamando uma vitória clara. “Recuperámos a democracia”, afirmou, citado pelo jornal de referência do país, Página Siete. Arce prometeu ainda “governar para todos” e “um Governo de unidade nacional” que irá “construir a unidade do nosso país”.

Também Evo Morales, antigo presidente da Bolívia que saiu do país — segundo ele, em exílio — em 2019, já reagiu. Na rede social Twitter, o histórico líder do MAS que continua a ser muito apoiado pela população indígena do país e pelos sindicatos e que prometeu regressar à Bolívia se Arce vencesse as eleições escreveu: “Irmãos e irmãs: a vontade do povo impôs-se. O MAS-IPSP teve uma vitória contundente. O nosso movimento político terá a maioria nas câmaras. Voltámos milhões, agora vamos devolver a dignidade e a liberdade ao povo”.

Quem também já reagiu foi a presidente interina da Bolívia — e forte crítica do MAS e de Evo Morales. Na sua conta oficial na rede social Twitter, Jeanine Áñez, que chegou a apresentar-se como candidata antes de se retirar da corrida, reconheceu a vitória de Luis Arce e do partido populista de esquerda nas eleições:

Ainda não temos resultados oficiais, mas com os dados disponíveis, o sr. Arce e o sr. Choquehuanca [David Choquehuanca, candidato a vicepresidente de Arce] ganharam a eleição. Felicito os vencedores e peço-lhes para que governem pensando na Bolívia e na democracia”.

Um ano conturbado para a Bolívia: eleições polémicas, confrontos e exílio de Morales

As eleições de este domingo na Bolívia serviram para eleger Presidente, vicepresidente, senadores e deputados para o período que vai do próximo ano de 2021 a 2025. Pela primeira vez desde 2002, Evo Morales — presidente entre 2006 e 2019 — não se apresentou a eleições.

Apesar do envolvimento na campanha presidencial, que aliás dirige, Morales não se apresentou sequer como candidato a deputado, algo inédito nas últimas três décadas. O pouco envolvimento não se deveu a falta de vontade. Um envolvimento maior foi vetado pela própria Justiça, dado que Morales não reside atualmente na Bolívia — critério considerado fundamental e que o antigo presidente não cumpre, por ter deixado o país em 2019. Está atualmente na Argentina, alegando ter-se exilado devido a um “golpe” político na sua Bolívia natal.

As eleições deste domingo estavam agendadas para setembro, mas foram adiadas para outubro pelo governo interino da Bolívia, devido à pandemia da Covid-19 — o que motivou alguns protestos. O sufrágio seguiu-se às polémicas eleições de outubro de 2019, que motivaram acusações de fraude e que levaram Evo Morales a sair do país, provocando também confrontos e ondas de violência da qual resultaram várias mortes. Morales e o MAS, aliás, nunca reconheceram legitimidade ao Governo interino que se seguiu.

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