Nasceu em Cabo Verde, onde fundou o grupo de dança Compass, aos 18 anos chegou a Portugal e fez a sua formação entre Lisboa e Bruxelas. Como bailarina e coreógrafa, Marlene Monteiro Freitas trabalhou com Emmanuelle Huynh, Loïc Touzé, Tânia Carvalho ou Boris Charmatz e criou peças como Bacantes – Prelúdio para uma Purga (2017), Jaguar (2015), Guintche (2010), A Seriedade do Animal (2009-10), A Improbabilidade da Certeza (2006), Larvar (2006) ou Primeira Impressão (2005).

Em 2017, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu a Jaguar o prémio de melhor coreografia e, no mesmo ano, a coreógrafa foi distinguida pelo governo cabo-verdiano pelas suas realizações culturais. Em 2018, a Bienal de Veneza atribuiu-lhe o Leão de Prata na categoria de Dança e atualmente é cofundadora da P.OR.K, uma estrutura de produção sediada em Lisboa.

Este mês, o Teatro Municipal do Porto dedica-lhe parte da sua programação. “Um dos pontos altos é o foco à volta do trabalho de Marlene Monteiro Freitas, uma das grandes coreógrafas mundiais da atualidade, com três peças, entre as quais uma nova (Mal-Embriaguez Divina) e o seu primeiro solo (Guintache)”, adiantou o diretor artístico Tiago Guedes em entrevista. Antes de subir ao palco do Rivoli e do Campo Alegre, de 21 a 30 de outubro, Marlene Monteiro Freitas falou com o Observador.

“Mal – Embriaguez Divina” (Foto: Peter Hönnemann)

Sabemos que não gosta de dar entrevistas. Trabalha para que os outros vejam a sua obra, mas não quer ou não gosta de falar sobre ela? Porquê?
É através da coreografia que comunico da forma mais completa, complexa, rica, profunda, que posso imaginar. No meu caso, a palavra fica sempre aquém da coreografia. Trabalhar em dança requer tanto trabalho físico, quanto trabalho sobre os inúmeros aspetos que envolvem a criação e a difusão de espetáculos. E, enquanto artista independente, recaem sobre mim um número considerável de tarefas e decisões. Disto resulta que, não consiga responder positivamente a todas as solicitações para me exprimir através da palavra, que são cada vez mais. É parte do trabalho artístico, conversas com público, entrevistas, textos de programas, a participação em catálogos, etc. A estas atividades dou o meu melhor e dedico algum tempo, mas tenho a convicção de que estas são atividades complementares sendo o trabalho fundamental, o coreográfico. Sem a coreografia não há entrevistas para dar.

O que expõe a falar que não expõe em cima do palco?
Privilegio a comunicação com o público de forma direta, através dos espetáculos. O público é parte essencial do meu trabalho. Se uma performance corre bem, entusiasma o público e atrai mais público. É esta a minha estratégia, ou seja, conjugar os esforços de uma equipa artística, técnica e de produção, para que todos façam o seu melhor. Os teatros e festivais têm uma estratégia mediática e nós colaboramos sempre, na medida das nossas possibilidades.

A dança nunca será mainstream ou isso é um preconceito?
Criar uma peça implica investigar, refletir, trabalhar sobre um problema, tema ou ideia; traduzir os estímulos e conteúdos resultantes de um trabalho de pesquisa numa linguagem coreográfica, essencialmente poética, emocional, empática, ou seja, no meu caso, as peças pouco ou nada têm de pedagógico e nem pretendem comunicar uma mensagem específica, unívoca. O que apresentamos é o resultado de um longo processo digestivo: comemos imagens, salivamos ideias e trituramos medos. O que me interessa é a possibilidade de mobilizar uma equipa de trabalho, no sentido de proporcionar ao público uma experiência marcante. Se esse resultado é ou não, pode ou não, ser mainstream, não me preocupa.

“Mal – Embriaguez Divina” (Foto: Peter Hönnemann)

Disse numa entrevista que não se imagina a fazer outra coisa que não dançar. Ainda mantém esta ideia?
Considero um privilégio poder fazer aquilo que gosto e é certamente esse mesmo privilégio que me permite fazer tal declaração. Gosto muito de dançar e coreografar, mas também já criei Cattivo, uma instalação com objetos, um género artístico novo para mim e que me deu muito prazer.

Hoje, em plena pandemia, todos queríamos dançar mais. Acha que estamos mais tristes porque também não podemos dançar?
São as limitações de movimento que nos deixam tristes. E é natural que assim seja em sociedades onde se cultiva um forte sentido de liberdade individual. No entanto, existem regiões do mundo e povos, onde as restrições são uma constante e não tem a ver com a coabitação com um vírus estranho, mas sim com os regimes políticos, sociais eventualmente religiosos a que as pessoas estão sujeitas. Esperemos que a restrição de movimento, uma certa privação de liberdade, nos venha a sensibilizar para a sua importância e para importância desta para os povos e pessoas que não gozam da mesma.

O que a pandemia mudou no seu trabalho? Teve tempo para criar mais?
O trabalho é produzido com o apoio de teatros ou espaços culturais, nacionais e internacionais, que proporcionam meios como por exemplo, residências artísticas, períodos em que decorrem os ensaios ou, a apresentação dos espetáculos numa fase posterior. Cada projeto tem os seus parceiros, resultando assim nos espaços/cidades onde o trabalho se desenvolve, por exemplo em relação ao “Mal- Embriaguez Divina”, ensaiámos na Madeira, em Munique, em Florença, em Hamburgo e também fiz uma residência na Islândia para preparar o projeto. Com a pandemia interrompeu-se bruscamente os ensaios; houve alterações no elenco, nos parceiros, nos espaços de ensaio, data e lugar de estreia, datas de apresentações do espetáculo foram canceladas, outras adiadas, etc. Daí que passei o confinamento, a trabalhar junto da equipa de produção e alguns parceiros, no sentido de construirmos planos que rapidamente se viam ultrapassados à medida que a situação pandémica evoluía e, inventarmos formas que tornassem possível, seguro, coerente, prosseguir nosso trabalho num período destes. Hoje, trabalhamos com uma incerteza ainda maior do que a que já era intrínseca a esta atividade profissional.

Jaguar (Foto: Laurent Paillier)

Já disse que o palco pode ser um espaço de ficção e de liberdade. O que faz ele de si e por si?
O palco é o lugar que estimula, fortalece e concede elasticidade ao músculo da imaginação.

Em “Mal – Embriaguez Divina” explora o mal e questiona-o. Deque forma ele se manifesta em si e também no seu trabalho?
A peça é a manifestação do que eu entendo ser o mal. Para chegar a esse resultado colecionei imagens artísticas, fotojornalísticas, artigos, livros, poesia, filmes, etc., de autores que se debruçaram sobre o tema ou, que em meu entender estariam indiretamente relacionados ao mal. Interessámo-nos por tribunais, tribunas, burocracia, paradas militares, esferas religiosas e pedagógicas, etc…e, foi assim que em parte e também fruto do acaso, o papel, foi ganhando espaço e protagonismo no nosso trabalho. Estes são elementos sobre os quais trabalhámos no sentido de extrair deles conteúdos expressivos e construir um espetáculo, um mundo, uma ficção.

O facto de o Teatro Municipal do Porto lhe dedicar um foco tão grande na sua programação, é um reconhecimento? Uma espécie de distinção sem prémio?
É um convite muito especial, porém o fundamental é que consigamos juntos proporcionar ao público, uma experiência interessante, única. A possibilidade de reunir 3 trabalhos num tempo curto, na mesma cidade, permite leituras comparadas -recorrências e diferenças – que de outra forma seriam mais difíceis de fazer. Faremos o nosso melhor para que corra tudo bem.

O que espera e quer fazer no futuro?
Num futuro próximo, o projeto (un)common ground, que é uma programação de artistas visuais, cineastas, historiadores, arquitetos e geógrafos que têm refletido sobre a ideia de território como mecanismo de poder e coerção. É um projeto que a P.OR.K, a estrutura de produção do meu trabalho.