O professor universitário Kishore Mahbubani defendeu esta terça-feira que os Estados africanos devem unir-se para tratar a questão da dívida com a China e devem ficar equidistantes do conflito estratégico entre os EUA e o gigante asiático.

“Recomendo que nas reuniões regulares entre os Estados africanos e a China, os líderes africanos devem levantar a questão da dívida em conjunto, mas ao mesmo tempo devem se muito honestos e dizer quais são os termos que o Ocidente está a dar aos países nos empréstimos”, disse Kishore Mahbubani na Palestra Babacar Ndiaye, organizada esta terça-feira pelo Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank).

As negociações, disse, “são essencialmente um braço-de-ferro entre as duas partes”, lembrando que quando o Quénia quis pagar antecipadamente um empréstimos com juros elevados a um grande banco norte-americano, “a consequência foi que o Banco Mundial, instado pelo Tesouro norte-americano, acabou por cortar a ajuda ao Quénia”.

De acordo com o Instituto Financeiro Internacional (IFI), que representa os credores da dívida privada, a China é o maior credor oficial não só dos países africanos, mas também das nações mais vulneráveis. “Entre os credores oficiais bilaterais, a China é de longe o maior credor, tendo aumentado o volume em dez vezes desde 2009 para mais de 102 mil milhões de dólares [86,6 mil milhões de euros] no ano passado; o Japão é o segundo maior credor destes países, com uma exposição de mais de 23 mil milhões de dólares [19,5 mil milhões de euros]”, lê-se numa análise ao prolongamento da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI), noticiada pela Lusa na segunda-feira.

Na conferência, Kishore Mahbubani, que dá aulas de Economia em Singapura, defendeu que o século XXII vai ser o século afroasiático, essencialmente devido à enorme vantagem demográfica que as duas regiões têm. “Há uma grande vantagem demográfica, os africanos podem aprender com os sucessos e os falhanços doas asiáticos, as pessoas jovens são um fantástico recurso, a questão é dar-lhes educação, trazer investimento externo, abrir o comércio, e com isso consegue-se ter sucesso no desenvolvimento, não é propriamente ciência espacial. O Vietname esteve em guerra durante 50 anos e nos últimos 30 teve um desenvolvimento enorme, é só copiar o exemplo”, argumentou, citando também o forte crescimento económico do Bangladesh.

Sobre a questão do conflito geopolítico entre a China e os Estados Unidos, com influência em África, Kishore Mahbubani defendeu que os países africanos devem manter-se equidistantes e lembrou um ditado segundo o qual quando dois elefantes lutam, quem sofre é a relva. “O melhor que os governos africanos têm a fazer é ficar unidos e mandar uma mensagem aos dois lados, defendendo boas relações com ambos e salientando que não querem envolver-se nesta competição, e que o único lado que devem tomar é o lado pró-africano”, conclui o académico.

O Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank) começou a série de palestras internacionais em 2017 como forma de homenagear o economista Babacar Ndiaye, que teve um papel fundamental na criação do banco. Babacar Ndiaye foi o quinto presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, em 1985, e o primeiro funcionário da entidade a chegar ao lugar de líder desta instituição financeira multilateral.