20 jogos, 17 derrotas, três empates, 10 golos marcados, 51 sofridos. Nunca, em 20 viagens, o FC Porto tinha vencido em Inglaterra. Mais: há mais de sete jogos e 630 minutos que o FC Porto não marcava em Inglaterra, já que o último jogador dos dragões a fazê-lo tinha sido Mariano González, contra o Manchester United, há já 11 anos. Esta quarta-feira, a equipa de Sérgio Conceição voava até às terras de Sua Majestade com o objetivo de trazer muito mais do que um resultado positivo. Voava com o objetivo de trazer história na bagagem.

E o treinador dos dragões, apesar de assumir que não gosta de olhar para o passado, tinha noção da importância — a nível moral, desportivo e histórico — de uma eventual vitória. “Estou convicto que vamos fazer tudo para que isso aconteça. Temos respeito pela equipa adversária, respeito por aquilo que são os últimos anos desta equipa, principalmente com este treinador. Cabe-nos fazer o que trabalhámos, para contrariar essa estatística tão negativa. Como sabem, não sou um homem de estatísticas. Cada jogo tem a sua vida, a sua história. Não vale a pena lembrar o passado. No fundo, é preparar da melhor forma com os jogadores, a todos os níveis, dentro da dificuldade do próprio jogo”, explicou Sérgio Conceição na antevisão da visita ao Manchester City, a contar para a primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões.

Uma fase de grupos onde o FC Porto regressava dois anos depois, após ter falhado o apuramento na época passada ao cair na terceira pré-eliminatória com o Krasnodar. Novamente no topo da Europa, os dragões encontravam uma equipa que nunca venceu a Liga dos Campeões e que só há poucas temporadas passou a ser um sério candidato a uma presença na final — um palmarés que, apesar da disparidade óbvia entre os dois conjuntos, não deixava de cair para o lado do FC Porto na balança de comparação. E se Sérgio Conceição ressalvou precisamente isso na conferência de imprensa de antevisão, também Pinto da Costa fez questão de sublinhar esse ponto numa entrevista ao Porto Canal, entre farpas aos presidentes de Benfica e Sporting.

“O City há muitos anos que é um candidato sério, mas a realidade é que nunca a ganhou. Vamos ver. Hoje [terça-feira] já houve uma meia surpresa, com o PSG a perder com o Manchester United, um jogo que a nossa comitiva esteve a ver. Nós não somos favoritos, nunca fomos favoritos em nenhuma prova internacional, mas já ganhámos sete. Acho que só éramos favoritos na final com o Sp. Braga e essa foi muito bem disputada e difícil de vencer. De resto não éramos favoritos e vencemos. Os nossos jogadores sabem lidar com essas dificuldades. Que amanhã [quarta-feira] seja uma noite dessas, que possamos contrariar a tendências das apostas”, disse o presidente dos dragões.

Certo é que o FC Porto procurava a primeira vitória de sempre em Inglaterra contra um Manchester City que só venceu dos últimos três jogos para a Premier League, que já foi goleado pelo Leicester esta época e que parece estar ainda à procura do azimute depois de uma temporada muito longa que só acabou em Lisboa e na final eight desta mesma Liga dos Campeões. Sérgio Conceição respondia a esse panorama com algumas alterações no onze: Sarr estreava-se pelo FC Porto logo a titular, Fábio Vieira saltava para as opções iniciais e Otávio era mesmo a grande surpresa, já que nem sequer estava no banco de suplentes. Conhecido o onze, faltava saber qual seria afinal o desenho tático dos dragões contra um Manchester City que alinhava com Rúben Dias, João Cancelo e Bernardo Silva de início e que não podia contar com De Bruyne e Gabriel Jesus, ambos lesionados.

Os primeiros instantes da primeira parte depressa mostraram que o FC Porto ia mesmo atuar com três centrais, Pepe, Mbemba e Sarr, e que o esquema tático a defender seria quase um 5x4x1, com Marega isolado na frente e Corona e Zaidu a ocuparem as laterais. Com bola, os dragões atacavam precisamente com Corona e Zaidu nos corredores, Luis Díaz e Fábio Vieira no apoio a Marega pelas laterais e Uribe e Sérgio Oliveira a resguardar uma zona mais central. Os minutos iniciais do jogo foram de estudo mútuo, sem que nenhuma das equipas arriscasse, e o primeiro lance de destaque da partida foi mesmo o lance que inaugurou o marcador.

No resultado de uma pressão eficaz que se fazia sentir desde o apito inicial, Uribe aproveitou um passe errado de Rúben Dias para lançar Luis Díaz. O colombiano pegou na bola na esquerda, correu ao longo de toda a largura do campo até à direita, passou por vários adversários e rematou cruzado já no interior da grande área para bater Ederson (14′). Enorme golo de Díaz, que se estreou esta quarta-feira na Liga dos Campeões e logo a marcar. Nos instantes seguintes, sem que o FC Porto tivesse propriamente tempo para resguardar a vantagem, o árbitro da partida assinalou grande penalidade de Pepe sobre Sterling — ainda que Gundogan tenha feito falta sobre Marchesín no início da jogada. Na conversão, Agüero ainda tremeu quando o guarda-redes tocou na bola mas acabou por conseguir empatar (20′).

No que restou da primeira parte, os lances de perigo pertenceram apenas e só ao FC Porto: Uribe rematou por cima depois de um passe errado de Ederson (22′), Zaidu atirou rasteiro para o guarda-redes encaixar (33′) e Marega falhou uma assistência crucial para Sérgio Oliveira depois de um passe brilhante de Fábio Vieira (43′). Até ao intervalo, o Manchester City teve sempre mais bola mas eram os dragões que lideravam em remates e lances de perigo e que estiveram sempre mais perto de voltar a marcar. O FC Porto aproveitava principalmente a pressão intensa que estava a exercer e que ia forçando o City a vários erros na construção e era a melhor equipa em campo no Etihad, não permitindo grandes aventuras ao tridente ofensivo dos ingleses.

Na segunda parte, Sérgio Conceição foi o primeiro a mexer, ao trocar Luis Díaz — que parece ter saído com algumas dificuldades físicas — por Wilson Manafá. O lateral português foi precisamente para a direita mais recuada, com Corona a passar para uma posição mais adiantada no terreno para explorar a velocidade e a profundidade nas costas da defesa adversária. O FC Porto voltou para a segunda parte com a intenção de repetir a lógica da primeira, que passava por dar a bola ao City mas não perder a iniciativa de atacar e surpreender, mas foi perdendo concentração e energia com o avançar do relógio. Por volta da hora de jogo, a assertividade dos dragões já não era a mesma, a equipa de Guardiola estava cada vez mais dentro do meio-campo adversário e o conjunto de Sérgio Conceição defendia cada vez mais encostada à própria grande área.

E nesta altura, percebia-se que bastava um lance de inspiração individual para fazer a diferença entre as duas equipas. E foi precisamente essa porta que Fábio Vieira abriu quando fez falta sobre Gundogan à entrada da grande área, mesmo em posição frontal para a baliza de Marchesín. Na marcação, foi o próprio médio alemão a assumir, a bater de pé direito por cima da barreira e a bater o guarda-redes argentino com muita elegância (65′). Guardiola reagiu à reviravolta com as entradas de Phil Foden e Ferran Torres, para renovar e refrescar a movimentação ofensiva da equipa, e foi precisamente uma combinação entre os dois a aumentar a vantagem dos ingleses. Foden apareceu na esquerda, soltou Torres na grande área e o espanhol tirou Pepe da frenta para rematar em jeito para dentro da baliza (73′).

Até ao fim, Sérgio Conceição ainda lançou Nanu, Taremi e Nakajima, com o japonês a voltar aos relvados mais de sete meses depois, e Evanilson também entrou para se estrear não só pelo FC Porto como na Liga dos Campeões. Sterling ainda acertou no poste e desentendeu-se com Pepe, Fernandinho entrou para sair lesionado logo depois e o FC Porto já não conseguiu sequer ficar perto do segundo golo e acabou a segunda parte sem fazer qualquer remate. Os dragões entraram a ganhar, jogaram melhor do que o Manchester City durante grande parte do primeiro tempo mas foram traídos por uma grande penalidade e um livre direto. Luis Díaz tentou, marcou e queria que fosse esta noite o momento em que o FC Porto finalmente ganhava em Inglaterra: mas a maldição ainda não caiu.