O encerramento de uma campanha é sempre o momento alto da dramatização política no apelo ao voto. A pandemia da Covid-19, contudo, ditou que o encerramento da campanha do PS nos Açores se fizesse inteiramente online — com mensagens gravadas e transmitidas no Facebook dos socialistas. Mas nem por isso faltou drama. Na mensagem gravada na sede do partido, em Ponta Delgada, Vasco Cordeiro foi mais longe no pedido de “estabilidade” que tem feito e alertou mesmo para o facto de, se o PS não tiver maioria absoluta no domingo, os Açores podem somar crise à crise e ficar a braços também com uma crise política. Carlos César lembrou que “nos Açores”, ninguém é “coagido” a votar num ou noutro partido — embora a oposição fale de vários tipos de “condicionamento”. E Costa faz a primeira e última aparição na campanha: só em vídeo.

Encerramento de campanha do PS Açores

Encerramento de campanha do PS Açores

Posted by Partido Socialista dos Açores on Thursday, October 22, 2020

O argumento do líder do PS Açores parece ser o mesmo de António Costa no continente, que também está a braços com a difícil tarefa de aprovação do Orçamento do Estado, e que não marcou presença na campanha socialista nos Açores: acenar com o fantasma de uma crise política (caso o PS não tenha maioria). Vasco Cordeiro tem feito toda a campanha a pedir estabilidade na região para fazer face à crise da pandemia e à crise social que daí advém, mas neste discurso de encerramento, vai mais longe e sugere mesmo que sem essa estabilidade, ou seja, sem maioria absoluta, essa crise pode-se agravar com a ameaça de uma “crise política”. “E a crise política pode acontecer se se der espaço para que se passe a discutir a vontade e o desejo de cada um dos outros partidos e não o desejo dos Açores”, diz o candidato a presidente do Governo regional.

Ou seja, se o PS ficar dependente da esquerda e da direita fica desconcentrado daquilo que são as necessidades e os problemas da região, alega. “O pior que podíamos ter neste momento seria somar à crise de saúde, à crise económica, aos efeitos perversos desta pandemia, não apenas na saúde, mas na economia e na sociedade, aquilo que poderíamos ter de mais negativo era uma crise política”, diz, puxando os galões à “experiência” que o PS tem na governação dos Açores.

César e a liberdade de voto: “Ninguém é coagido para votar” no PS

Se dúvidas houvesse, Carlos César, que governou os Açores durante 16 anos em maioria absoluta, procura desfazê-las na mensagem emitida no Facebook do PS: “Nos Açores, ninguém é coagido para votar neste ou naquele partido. O voto é secreto, ninguém sabe, é impossível alguém saber”.

Ou seja, as vitórias sucessivas que o PS tem tido são vitórias decididas pelos eleitores e as derrotas dos outros partidos são resultado da falta de confiança dos eleitores, diz. Nada mais do que isso. É com este argumento que Carlos César, que também é presidente do PS nacional, procura responder às críticas da oposição nos Açores que diz, entre outras coisas, que o acesso a um emprego na Administração Pública ou o acesso a apoios estatais está condicionado ao “cartão de militante”.

“As vitórias do PS, como já foram as do PSD, são as vitórias que o nosso povo livremente escolheu. As derrotas, agora, do PSD ou do Bloco de Esquerda, não são o resultado de qualquer coação. São, sim, o resultado da falta de confiança que esses e outros partidos têm junto dos açorianos”, diz Carlos César, sublinhando que “todos têm os votos que merecem”.

É nesse sentido que Carlos César pede uma “maioria segura ao Governo” no domingo, que é o mesmo do que dizer “maioria absoluta”. E para isso acena com a “crise imprevista da Covid”, que reforça ainda mais a necessidade de a governação ser estável e segura. “Todos os partidos nesta campanha eleitoral falaram mais do PS do que falaram dos Açores, e quase nem falaram daquilo que fariam no governo se ganhassem eleições. Todos só pensaram em denegrir o governo. Todos só pensam em como tirar a maioria ao PS”, afirma ainda o ex-presidente do Governo regional.

“Longe da vista”, mas não “longe do coração”, apareceu o primeiro-ministro, António Costa, que não marcou presença em nenhum dia da campanha socialista nos Açores, tendo-se limitado a deixar uma mensagem em vídeo nesta sessão de encerramento. É aí que Costa afirma que “os Açores podem contar com o PS” e que os açorianos “estão no coração dos socialistas”. Depois de Carlos César ter estado 16 anos à frente do Governo regional, Vasco Cordeiro está há 8 no mesmo lugar, e Costa pede que assim continue. “Um trabalho que Carlos César iniciou, que Vasco Cordeiro continua e um trabalho que muito nos honra”, diz.