Um tribunal do Ruanda prolongou esta sexta-feira por 30 dias a prisão preventiva para Paul Rusesabagina, o antigo gerente que inspirou o filme “Hotel Ruanda”, e que está acusado de 13 crimes relacionados com terrorismo.

Numa audiência celebrada no tribunal de primeira instância de Kicukiro, em Kigali, a juíza deu razão à Procuradoria-Geral da República (PGR), que tinha pedido mais tempo para terminar a investigação, e decidiu prolongar a detenção por mais 30 dias.

“Este tribunal encontra justificado o pedido da Procuradoria para prolongar a detenção de Rusesabagina durante mais 30 dias; demos esta margem para que a PGR possa concluir as investigações e o julgamento possa começar”, disse a juíza Theodosie Mukarugira.

A magistrada negou o pedido de libertação apresentado pela defesa, que invocou motivos de saúde, e respondeu que “é possível tomar medicamentos sob custódia”.

No final de setembro, o antigo diretor do Hotel de Milles Collines, em Kigali, que inspirou o filme, admitiu perante o tribunal que foi o fundador de um grupo armado, as Forças de Libertação Nacional (FLN), mas negou qualquer envolvimento nos seus crimes, argumentando que a sua função era fundamentalmente “diplomática”.

A justiça acusa-o, entre outros crimes, de ter entregue dinheiro à FLN, braço armado do Movimento Ruandês para a Mudança Democrática (MRCD), um partido liderado por ele próprio.

A FLN tem sido responsável por ataques no Ruanda desde 2018.

Rusesabagina foi preso no passado dia 31 de agosto no aeroporto internacional de Kigali, segundo o Governo ruandês, mas a sua família e advogados afirmam que foi “raptado” e “sujeito a uma rendição extraordinária do Dubai para o Ruanda”.

Em declarações aos jornalistas no passado dia 6 de setembro, o Presidente do Ruanda, Paul Kagamé, afirmou que Rusesabagina será julgado por alegadamente apoiar a violência rebelde, e escusou-se a explicar como é que o acusado foi levado para o Ruanda.

“Rusesabagina chefia um grupo de terroristas que matou ruandeses. Terá de pagar por esses crimes”, disse então Kagamé, garantindo que o julgamento será realizado abertamente e conduzido de forma justa.

“Queremos fazer as coisas da maneira correta”, afirmou Kagamé, sem explicar como é que Rusesabagina, que viveu fora de Ruanda desde 1996, é cidadão belga e tem uma autorização de residência permanente nos Estados Unidos da América (EUA), apareceu no Ruanda no final de agosto.

Não é certo quando Rusesabagina será julgado. A lei do Ruanda diz que um suspeito pode ficar em prisão preventiva por 15 dias, renováveis até 90 dias.

Paul Rusesabagina, 66 anos, adversário muito crítico de Paul Kagamé, tem vivido no exílio entre a Bélgica e os Estados Unidos, onde criou uma fundação que promove a reconciliação para evitar novos genocídios.

Rusesabagina era alvo de um mandato de captura internacional emitido pela justiça ruandesa e acusado de crimes como o assassinato e rapto de civis ruandeses.

O trabalho de Rusesabagina no famoso Hotel de Milles Collines, em Kigali, onde alojou mais de 1.000 tutsis e hutus moderados durante o genocídio em 1994 para os salvar de hutus extremistas, inspirou o famoso filme “Hotel Ruanda” (2004), baseado na história do influente homem de negócios hutu, casado com uma mulher tutsi.