A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) defenderam esta quinta-feira a solidariedade do povo português, rejeitando que essa capacidade tenha saído beliscada após o clima de suspeição na reconstrução das casas afetadas pelos incêndios.

“A generosidade dos portugueses é inesgotável e tivemos a prova com a Covid e com o fundo de emergência que criamos, em que houve uma grande adesão” avançou a presidente da FCG, Isabel Mota, no âmbito de uma audição na comissão eventual de inquérito parlamentar à atuação do Estado na atribuição de apoios na sequência dos incêndios de 2017 na zona do Pinhal Interior, na Assembleia da República, em Lisboa.

Subscrevendo as palavras da responsável da Gulbenkian, o presidente da UMP, Manuel de Lemos, disse que a pandemia de Covid-19 tem mostrado a “capacidade fantástica” do povo português de ser solidário.

“Se compararmos, por exemplo, nos lares em Itália e em França os colaboradores fugiram e deixaram as pessoas abandonadas e aqui ficaram e foram para as janelas dos lares pedir às pessoas ‘ajudem-nos’ e o mais fácil era fazerem com os outros, fugirem”, expôs Manuel de Lemos, considerando é “um grande exemplo da extraordinária capacidade de ser solidário”.

O presidente da UMP e a presidente da FCG respondiam às questões do deputado do PS Raul Castro sobre o momento solidário dos portugueses e o impacto das suspeitas de irregularidades na atribuição de apoios na sequência dos incêndios de junho de 2017, nos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, no distrito de Leiria.

“Penso que as pessoas continuam com um grande sentido de solidariedade e sentimos isso muito também agora relativamente a situações difíceis que muitas pessoas, grupos especiais, estão a passar, acredito que a generosidade dos portugueses vai continuar”, reforçou a presidente da FCG.

Para a responsável da Gulbenkian, a adesão a projetos solidários continua a existir, nomeadamente no fundo criado no âmbito da pandemia da Covid-19 para apoiar os ventiladores que foram feitos em Portugal, verificando-se que a participação não é só de instituições, porque “houve uma enorme adesão das pessoas, através de um programa televisivo, houve uma enorme recolha de fundos individuais”.

Na sequência dos incêndios de junho de 2017, a FCG criou um fundo de apoio às populações e à reabilitação das áreas afetadas pelos incêndios, que começou com um donativo de 500.000 euros da Gulbenkian a que se juntaram outras entidades, atingindo o montante de 4.042.653 euros, e a UMP conseguiu arrecadar um total de 2.126.000 euros, através de uma conta solidária e a realização de um espetáculo solidário.

Em parceria, a FCG e a UMP financiaram a reconstrução de 48 casas nos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, das quais cinco são suspeitas de irregularidades na atribuição de apoio, na sequência de uma investigação do Ministério Público, aguardando-se decisão judicial.

No processo judicial, a Gulbenkian e a União das Misericórdias resolveram constituir-se como assistentes e lesados, solicitando uma indemnização, após indicação do Ministério Público, referiram os responsáveis das duas entidades, indicando que só tiveram conhecimento de possíveis irregularidades na reconstrução das casas após a questão ser notícia nos órgãos de comunicação social.

O incêndio que deflagrou em 17 de junho de 2017 em Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, e que alastrou depois a municípios vizinhos, nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade, e destruiu cerca de 500 casas, 261 das quais eram habitações permanentes, e 50 empresas.