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O jogo parecia que se encaminhava para uma vitória fácil do Sporting nos Açores: apesar de Rúben Amorim ter avisado na conferência de imprensa de antevisão que as duas equipas tinham os mesmos pontos, o que era um sinal de um bom início de época do Santa Clara, a primeira parte foi de ascendente claro do conjunto verde e branco.

Nos primeiros 45 minutos o Sporting esteve por cima, marcou e continuou a ser superior e a atacar mais do que o adversário mesmo a vencer. Mas um erro individual de Coates foi bem aproveitado pelo goleador Thiago Santana — que agora já leva cinco tentos na Liga — e o Santa Clara, sem fazer muito por isso, chegou ao empate. Num só lance, tudo mudou e a vitória dos leões foi colocada em risco, tendo sido conseguida apenas a dez minutos do final da partida, graças ao segundo tento no jogo de Pedro Gonçalves. Um médio ofensivo cuja vinda para Alvalade não foi tão sonante quanto a de outro, João Mário, mas que este sábado foi decisivo para a vitória leonina.

Muita posse de bola, muita superioridade, mais dificuldade em criar perigo

Não é que a primeira parte do Sporting nos Açores, num jogo que contou com público nas bancadas — mil adeptos nas bancadas, bem menos do que a lotação permitia em tempos pré-Covid-19 —, tenha sido perfeita. Tanto não foi que a equipa orientada por Rúben Amorim foi para o intervalo com apenas um golo marcado. Pese embora as oportunidades de golo criadas, houve também alguma dificuldade do Sporting em alvejar a baliza de Marco Pereira, de modo a traduzir o domínio territorial (a primeira parte foi disputada maioritariamente no meio-campo do Santa Clara) e a maior posse de bola.

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O Sporting entrou com vontade de mandar na partida. As duas equipas apresentaram-se em sistemas de jogo semelhantes, ambas com uma linha de três defesas, laterais mais subidos, dois médios no miolo e três jogadores mais criativos. Mas se era previsível um encaixe posicional, a maior confiança e agressividade dos jogadores do Sporting levou o jogo para o meio-campo dos açorianos. Nas laterais, Nuno Mendes e sobretudo Porro davam acutilância ofensiva. No meio-campo, Palhinha garantia os equilíbrios ofensivos e Matheus Nunes tentava chegar a todo o lado, jogando de área a área — os ingleses chamam a esse médio um box-to-box. E no ataque, Nuno Santos, “Pote” e Jovane movimentavam-se muito, mostrando mobilidade. João Mário, o reforço mais sonante dos leões contratado no fecho do mercado, continua para já à espera e voltou a começar o jogo do banco.

Nuno Santos foi o dominador comum dos ataques do Sporting na primeira parte. Foi ele que logo aos 3 minutos, servido por Pedro Gonçalves, desmarcou-se, puxou da canhota e rematou pouco por cima da baliza de Marco. Foi ele que, aos 13 minutos, apareceu a tentar finalizar, novamente assistido por Pedro Gonçalves, que teve uma boa arrancada e fez um cruzamento pelo lado direito do ataque. E foi ele que, aos 24 minutos, servido com um passe em profundidade por Matheus Nunes, tentou surpreender Marco com um remate rápido, mas ineficaz.

Apesar de ter estado na larga maioria dos lances de ataque do Sporting, não coube a Nuno Santos estar envolvido no lance do golo dos leões. Foi curiosamente Jovane Cabral, esforçado mas nitidamente pouco inspirado e algo desconfortável quando tinha de fazer de ponta-de-lança, a mostrar a mobilidade que lhe valeu a titularidade e, antes da linha de meio-campo e do lado esquerdo, fez um passe longo para a desmarcação de Pedro Gonçalves.

Com três jogadores quase sempre bem adiantados no ataque, a situação do golo era de três contra três e a de Pedro Gonçalves era de um contra um. O médio contratado ao Famalicão acelerou a desmarcar-se, chegou à bola e adiantou-a quando Fábio Cardoso se preparava parar cortar e com a posição ganha na área, descaído para a esquerda mas sem o ângulo mais indicado, rematou de pronto com a canhota. A bola entrou junto ao poste mais próximo e o guarda-redes Marco ficou mal na fotografia, por não cobrir o primeiro poste.

Excluindo os lances de Nuno Santos, o lance do golo e um momento em que Nuno Santos (outra vez) serviu Jovane de calcanhar para este rematar ao lado, o Sporting não criou grande perigo, não traduzindo o domínio em oportunidades.  Menos perigoso ainda esteve o Santa Clara, porém, que foi bafejado pela sorte quando o defesa-central do Sporting Coates, sem pressão, entregou a bola ao médio ofensivo adversário Lincoln. Este rapidamente fez um passe para Thiago Santana que desmarcou-se, viu Adán sair, contornou o guarda-redes e encostou para o fundo da baliza.

Procura-se homem golo. Com Sporar, não se encontrou

O jogo, que parecia controlado, ganhou contornos diferentes com a ida para os balneários com igualdade no marcador. E a segunda parte teve pouca história. O jogo recomeçou em toada morna, com muita luta, pouco futebol e incapacidade de uma e outra equipa superiorizarem-se ao adversário e tomarem para si o controlo dos acontecimentos.

Depois entrou o rol de substituições. No Sporting, Rúben Amorim mudou muito: de uma assentada, tirou Neto do jogo, recuando Nuno Mendes para o centro da defesa e Nuno Santos para a posição de ala esquerdo, e colocou Tiago Tomás — e substituiu Jovane por um avançado-centro mais fixo, Sporar. Mas foi só com uma mudança no meio-campo aos 65 minutos, com a saída de Matheus Nunes e a entrada de João Mário, que o Sporting ganhou clarividência, uma melhor gestão da posse da bola no miolo e mais cabeça para atacar sem se precipitar.

As oportunidades começaram a suceder-se e houve-as clamorosas, falhadas por Sporar: o avançado esloveno falhou um golo cantado aos 74 minutos, cabeceando por cima quase na linha de baliza, e três minutos depois não conseguiu encostar para o fundo das redes um cruzamento tenso de João Mário pela direita.

O Santa Clara tentava sair no contra-ataque e aproveitar o fator casa e o factor público — a possibilidade de jogar com gente no seu estádio — para em mais um lance fortuito vencer o encontro, mas acabou por ser outra vez Pedro Gonçalves a resolver. Servido através de um bom passe longo do central Feddal, reforço de verão, o médio ofensivo vindo do Famalicão desmarcou-se pela esquerda, viu Marco Pereira voltar a comprometer — saiu da baliza mas não só não conseguiu cortar a bola como ainda abalroou um defesa —, contornou o guardião e, isolado, fez o 1-2.

O Sporting sai assim dos Açores com a sensação de missão cumprida, num jogo em que um erro individual de Coates poderia ter comprometido a vitória. O resultado, perfeitamente justo, não esconde ainda algumas debilidades das soluções ao dispor do técnico Rúben Amorim, a principal das quais a ausência de um homem golo. Jovane, o avançado-centro escolhido, fez uma assistência mas foi substituído cedo — e já tinha saído ao intervalo na partida frente ao FC Porto. E Sporar, escolhido para entrar na partida, não fez por reclamar a titularidade com a dificuldade que evidenciou em acertar com a baliza.

Debilidades também evidenciadas pelo Santa Clara, cuja linha de três centrais cometeu vários erros (sentiu-se a ausência do reforço Mikel Villanueva, indisponível para este jogo), cujo guarda-redes foi mal batido em duas ocasiões e cujo duo de meio-campo, Anderson Carvalho e Costinha, teve dificuldades nas bolas divididas e na luta do miolo.

Num jogo em que era imperativo ganhar, depois de um empate caseiro com o F.C. Porto, o Sporting somou os três pontos. Para já, se a estrela da companhia recrutada no mercado de verão foi o médio João Mário — campeão europeu regressado ao clube que o formou — quem assustou foi o reforço Nuno Santos, com os seus remates de pé esquerdo, quem mostrou que falta mesmo um homem golo (alguém falou em Paulinho?) foi Sporar e quem resolveu foi outro reforço, médio-ofensivo como João Mário, Pedro Gonçalves de seu nome.