Título: Sapiens: A Origem da Humanidade – Novela Gráfica
Autor: Yuval Noah Harari * David Vandermeulen * Daniel Casanave
Editor: Elsinore
Páginas: 248
Preço: 24,99€

A capa da nova versão de “Sapiens” (Elsinore)

Em 2014, quando Sapiens, Uma Breve História da Humanidade foi lançado, tendo-se tornado imediatamente num estrondoso best-seller internacional, a aclamação dos leitores foi sendo acompanhada por naturais reticências da crítica especializada. Como seria de esperar, um livro com um escopo tão alargado e objetivos tão ambiciosos como os que se anunciam no subtítulo não tinha maneira de escapar a vários erros de análise e falhas interpretativas.

Harari não poderá ter ficado muito surpreendido que assim fosse. Afinal, foi o próprio professor de História quem tão bem explicou que um dos traços distintivos da evolução da nossa espécie (o Sapiens) é precisamente o abandono de um saber generalizado inicialmente necessário à sobrevivência em detrimento de uma enorme especialização. Se, para sobreviver, cada espécimen tinha de saber tudo sobre todas as coisas (como limar uma pedra até torná-la numa lança, como fazer fogo com dois paus e uma pedra, que plantas se podem e não podem comer, etc.), à medida que os humanos foram abandonando a savana africana e aprendendo a comunicar e delegar funções, o saber tornou-se cada vez mais técnico e específico.

Uma das consequências dessa especialização foi a criação de sociedades altamente tecnológicas como as que temos hoje, mas com isso veio também a impossibilidade de uma só pessoa, por mais erudita e inteligente que seja, dominar assuntos tão vastos como os que Harari se propõe tratar em Sapiens. Harari parece ter errado (e escrevo ‘parece’ precisamente porque a evolução humana misturada com as minhas limitações intelectuais, às quais Darwin é completamente alheio, me impedem de saber o que quer que seja acerca do assunto que Harari se propõe tratar) ao descrever a Batalha de Navarino; ou o processo súbito de Revolução Cognitiva; ou a evolução e objetivo primordial da Revolução Cíentifica; ou as desvantagens da Revolução Agrícola; ou as civilizações Mongóis, Aztecas ou Romanas, ou até, como José Carlos Fernandes explicou neste jornal, o potencial energético dos oceanos.

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A todas estas críticas válidas e que aparentam ser bastante fundadas, acrescenta-se ainda que existe um grau de inalienável obscuridade no livro, na medida em que vários momentos-chave desta história são deixados por explicar ou remetidos para misteriosas mutações genéticas aleatórias. Assim, fica por iluminar o enorme salto que tornou a variação primata de que somos herdeiros numa criatura capaz de criar linguagem, e depois sociedades, e depois ficções, e depois arte e depois, enfim, a bomba atómica.

O exercício estava, então, condenado à partida ao insucesso por motivos que o próprio tão bem explica. Contudo, isto não retira interesse aos argumentos de Harari, que, por ter chegado tarde à festa, conheço apenas a partir da novela gráfica baseada no livro de 2014 que o historiador agora publicou em colaboração com Vandermeulen e Casanave e que foi recentemente editado pela Elsinore.

Apesar de todas as naturais falhas da sua breve historização, Harari é um notável contador de histórias e apresenta argumentos convincentes que nos ajudam a compreender quem somos a partir de quem um dia, há centenas de milhares de anos, fomos. É excelente, por exemplo, o argumento de que foi a prematuridade dos bebés dos Sapiens que lhes permitiu evoluir, por ser essa fraqueza genética que forçou a criação de sociedades de forma a impedir que as crias estivessem sujeitas à tirania da lei do mais forte. É também assinalável o argumento de que a nossa tão brusca evolução na cadeia alimentar, nunca acompanhada por uma supremacia física sobre os demais, justifica em grande medida o impulso tirânico que alimentam os nossos complexos de inferioridade e tantas vezes nos transformam em “ditadores de pacotilha sempre com medo de perder o poder”.

No célebre prefácio a O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde descreve a ira oitocentista em relação ao Realismo como “a raiva de Caliban ao ver o seu rosto projectado num espelho”. Mutatis mutandis, é essa a hipótese de Harari para a extinção dos Neandertais. De acordo com o argumento, nós, os Sapiens, teremos dizimado toda uma espécie de humanos nossos irmãos genéticos precisamente por serem demasiado parecidos connosco, o que é efetivamente intolerável como o algoritmo do senhor Zuckerberg nos prova todos os dias. Vai daí, eliminámos os bons dos Neandertais com a simplicidade com que hoje desamigamos quem projeta num ecrã o nosso rosto hediondo.

É importante, finalmente, analisar esta conversão do ensaio em novela gráfica. Por um lado, o esforço de cativar leitores de novas formas, tantas vezes vistas como veículos de comunicação inferiores, merece todos os elogios. A novela gráfica de Vandermeulen e Casanave não é, como decerto se argumentará, uma machadada na ideia de ensaio e de saber académico, mas antes uma tentativa de complementaridade e de democratização destes, em busca de outros públicos. Não é um assassinato do saber livresco, mas, pelo contrário, uma tentativa de o fazer sobreviver. Ainda assim, lamenta-se o falhanço, compreensível pela imaturidade do género, uma vez que a narrativa está completamente subjugada ao argumento, o que transforma as personagens de Sapiens: A Origem da Humanidade em meras cadeiras por onde Yuval Noah Harari vai deixando espalhados os seus argumentos.

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