Quando este verão apareceu em Alvalade vindo do Famalicão, Pedro Gonçalves fez erguer algumas sobrancelhas. Poucos duvidavam do seu valor, é certo, porque na época de estreia na Primeira Liga foi um dos esteios da equipa sensação, o recém-promovido Famalicão. A dúvida era outra: tendo ainda Wendel (mais tarde, João Mário), procurando um ponta-de-lança à altura e tendo problemas defensivos nítidos desde a lesão de Jeremy Mathieu, era num médio-ofensivo que o Sporting deveria investir 6,5 milhões de euros, ainda por cima a troco de apenas metade do passe?

A dúvida parecia até mais ou menos justificada com as opções de Rúben Amorim. Era difícil ver na gestão feita pelo treinador do médio-ofensivo português que este sábado marcou dois golos ao Santa Clara, nos Açores, uma ideia muito clara. “Pote” aparecia em vários espaços: na pré-época foi sobretudo opção no tridente de ataque, como um dos avançados laterais; em Portimão surgiu no miolo, como médio-centro; e na partida frente ao F. C. Porto, em Alvalade, voltou ao ataque para fazer uma boa partida, manchada ainda assim por dificuldades a finalizar.

Talvez tudo fosse apenas distração e incapacidade de ver o outro lado da moeda. É que se Pedro Gonçalves está ainda à procura do seu espaço em Alvalade, dividindo-se entre posições e terrenos do relvado consoante os jogos e as necessidades, Rúben Amorim parece não abdicar dele. Seja pela capacidade de assistir os avançados, desmarcando-os através de passes quando joga como médio, seja pela astúcia revelada nas suas próprias movimentações e desmarcações quando é ele quem está na dianteira.

A polivalência pode ser virtude, mais do que um problema: e este sábado o médio, que tem como alcunha “Pote” — uma alcunha vinda do tempo em que era, digamos, menos atlético — provou que vai vender caro o lugar.

Dos onze que começaram a partida do Sporting este sábado, nos Açores, quatro deles foram substituídos e três jogam em posições mais ou menos centrais, do meio-campo para a frente. Aquelas que Pedro Gonçalves ocupa. Mas se saíram três (Jovane, Nuno Santos, Matheus Nunes), se entraram avançados e se entrou outro médio-ofensivo mais do que provável titular (mais cedo ou mais tarde), João Mário, “Pote” ficou. Foi o único que ficou, além de Palhinha. E não parece poder sair em breve das escolhas.

Com 22 anos e com passagens pelo Braga (primeiro), Valência (a seguir) e Wolverhampton (por fim) entre a formação e o início da sua carreira no futebol sénior, “Pote” chegou ao Sporting como “formiguinha” sem renome ou estatuto de craque, mas este sábado foi o mais oportuno dos jogadores de ataque. Mais importante do que isso, porém, é parecer ter confirmado que dificilmente será outra contratação na senda de Eduardo Henrique ou Idrissa Doumbia, médios que chegaram no ano anterior ao clube e que rapidamente seguiram caminho por mau desempenho.

Recém-integrado na Seleção Sub-21, na qual já se estreou esta temporada (a jogar e a marcar, com um bis a Gibraltar sub-21), o médio-ofensivo tem vindo a dar sinais de que será ao longo desta época um jogador importante no plano de jogo de Rúben Amorim.

Por mais que à primeira vista pudesse parecer difícil enquadrá-lo num meio-campo com apenas dois elementos ou num ataque com três jogadores muito adiantados, “Pote” chegou a Alvalade, parece ter vindo para ficar e a curiosidade agora é outra: será possível conciliá-lo eficazmente no onze inicial com João Mário, um jogador de características distintas e outra tarimba e classe, mas que pode compreender bem as suas movimentações e execuções em campo?