A caminhada vitoriosa de João Almeida ao longo de três semanas foi propensa para que os laços entre as próprias famílias dos corredores e a comunicação social se estreitassem, com um mediatismo como há muito não se via no ciclismo nacional (ou desde 2013, quando Rui Costa se sagrou campeão mundial). Foi também esse ponto que fez com que, nas emissões do Eurosport, tivessem entrado por mais do que uma ocasião o pai de Rúben Guerreiro, que ganhou a camisola rosa, e a mãe da nova coqueluche de A-dos-Francos, Ana Patrícia. Conversa puxa conversa e, no último dia do Giro, ainda existia uma dúvida: estaria João Almeida na lista inicial para participar na Volta a Itália? “Não, não estava. O João não era para fazer o Giro”, admitiu este domingo, quando estava a caminho da zona perto da meta em Milão para tentar aquilo que não conseguiu nos últimos dias: dar um abraço ao filho.

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O quarto lugar de João Almeida na classificação já era notável, por superar o melhor registo de sempre de um português no Giro (quinto posto de José Azevedo, em 2001, quando estava na ONCE). Mas esse esteve longe de ser o único recorde do corredor da Deceuninck Quick-Step nesta edição: superou de forma larga os dois dias de Acácio da Silva de rosa em 1989, superou os cinco dias na liderança na Vuelta de Joaquim Agostinho em 1976, bateu ainda os seis dias acumulados de Acácio da Silva na frente de uma grande Volta. Mais: o corredor de A-dos-Francos passou a ser o primeiro com menos de 23 anos a liderar durante 15 dias o Giro, à frente do Canibal Eddy Merckx ou de Damiano Cunego, e é o terceiro em atividade com mais dias de rosa, só atrás de Nibali e Dumoulin.

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“22 anos, primeira época no World Tour, rookie do Grand Tour, quatro pódios, 11 top 10 em etapas, 15 dias com a camisola rosa. Um Giro para recordar de João Almeida. Estamos muito orgulhosos de ti”, resumiu a equipa do português, a Deceuninck Quick-Step, que colocou o melhor corredor na Volta a Itália em grande destaque. E agora, o que se segue? Mais. Muito mais. Porque o próprio João Almeida não faz por menos e quer mais.

Até ao final, era preciso lutar e sofrer. Foi um dia duro, com 15 quilómetros a top. Estou muito feliz”, começou por referir o português da Deceuninck Quick-Step, grande revelação do Giro.

“O meu objetivo era o top 10 e já era muito ambicioso. Terminar em quarto é um sonho. Estou muito grato a toda a minha equipa pelo que fizeram, staff, colegas de equipa, tudo. Mesmo que se queira sempre mais e mais, 15 dias é uma coisa impressionante e espero um dia voltar a vestir a camisola rosa”, comentou no final João Almeida, que terminou o contrarrelógio em que tirou o quarto lugar da geral a Pello Bilbao na quinta posição. “Quero continuar a lutar pela geral em grandes Voltas. Foi um bom feito e agora o foco vai estar na geral e em corridas de uma semana. É bom levar a bandeira portuguesa numa grande Volta, e é impressionante estar à altura do José Azevedo”, acrescentou o jovem português de 22 anos, em declarações reproduzidas pela agência Lusa.

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Marcelo: “Duas prestações extraordinárias”

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou João Almeida (Deceuninck-QuickStep), quarto na geral final da Volta a Itália, e Ruben Guerreiro (Education First), vencedor da classificação da montanha, por terem feito “duas prestações extraordinárias”.

Numa nota publicada no sítio ‘online’ da Presidência, é notado que os dois ciclistas “fizeram história com duas prestações extraordinárias que durante as últimas três semanas empolgaram todos os portugueses”.

“Estes registos constituem a melhor prestação de sempre de ciclistas portugueses no Giro, fizeram jus à história do ciclismo nacional, honraram o nome de Portugal e merecem o reconhecimento do Presidente da República”, pode ler-se na nota.

Costa: “Um dia histórico para o ciclismo português”

Também o primeiro-ministro António Costa quis elogiar os dois ciclistas portugueses. “As minhas felicitações a João Almeida, pelo resultado histórico, e a Ruben Guerreiro, pela conquista da camisola azul. Dia histórico, de orgulho para o ciclismo português”, escreveu na sua conta na rede social Twitter.

Segundo António Costa, foi com “grande emoção” que acompanhou a dupla portuguesa no Giro, prova na qual Almeida liderou durante 15 dias a geral, acabando no quarto posto, e Guerreiro conseguiu vencer uma das principais classificações, a da montanha, um feito inédito para o ciclismo português, além de triunfar na nona de 21 etapas.